"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Desencontros

Tenho esta obcessão por não conseguir apagar uma vela antes que esta arda até ao fim, tenho que esgotar todas as possibilidades, tentar de todas as formas. Não devia querer tanto, gostar tanto, fazer tanto, esperar tanto, dar tanto, eu não devia acreditar tanto, mas não sei se tenho escolha, já faz parte de mim.
Porém não o mostro. Vou atirando cartas, pistas, fazendo gestos, guardando sentimentos até eles me explodirem simplesmente dentro de peito e até que eu perda a capacidade de seguir em frente. Não é por ter medo, não é por não conseguir, é por não querer. Conheço-me e sei que sou uma pessoa apaixonada por natureza e não seria sequer difícil para mim apaixonar-me outra vez, porque já me apaixonei outra vez e não foi preciso esperar muito, mas eu posso-me apaixonar as vezes que quiser que não sinto em mim a capacidade de me desapaixonar de ti.
Penso demais, em coisas inúteis, que simplesmente não tem utilidade prática nenhuma mas que me ocupam totalmente a cabeça, e quando começo a pensar em ti, ou se terás ou não significado para mim, é que eu me apercebo do tanto que ficou por dizer, é que eu me apercebo que uma mensagem tua, por mais fria e sem conteúdo que seja, é mais do que suficiente para me fazer sorrir sem razão nenhuma, e como eu sou uma perfeita idiota por ainda me sentir, de um modo tão intenso e irracional, ligada a ti. Porque tenho uma parte de mim que já te entreguei de tal maneira que acho que vai simplesmente ficar eternamente à tua espera, será eternamente tua, e não é a ti que tenho de esquecer, é a ela. Eu não sei, não consigo formular argumentos válidos para mmim mesma, só sei que depois de falar contigo é a altura em que enterro a minha cabeça na almofada com um sorriso ridiculo nos lábios e com a cabeça nas nuvens, que chego ao ponto de as vezes só o som da tua voz me provocar esta alegria inexplicánel, inconveniente, irracional. E é por esse tipo de coisas inexplicáveis, inconvenientes e irracionais, que este "não sei" se perpetua na minha cabeça, porque eu não consigo sair deste impasse e a culpa não é de mais ninguem senão minha.
As ligações nascem de pontos comuns, de momentos de encontro entre as pessoas, e nós éramos tão diferentes, convergíamos de uma forma tão extrema que nos era praticamente impossível esses momentos de encontro e sintonia na prática. Mas então, porque é que havia tantos? De onde é que vinha aquele elo de ligação que era o maior que alguma vez tinha vivido? Como é que se era tão difícil para mim entender-te, e para ti entender-me, conseguíamos instantaneamente ler os sentimentos um do outro, passar as emoções um ao outro só através do toque da pele ou do cruzar dos olhar? E porque é que apesar de nada fazer sentido quando olhava para nós à distância, eu continuava a passar literalmente para outro mundo só pelo mínimo contacto contigo, quase como se houvesse uma espécie de universo paralelo que parecia estar basicamente a nossa espera. Não percebo como é que com todas as inseguranças que eu tinha e que contigo se tornavam ainda mais presentes, contigo sempre tive confiança para dizer tudo o que me passava pela cabeça da forma como me passava pela cabeça, porque é que parecia que sabias sempre exactamente o que eu queria dizer, no fundo sabias exactamente quem eu era.
E eu, que nunca fui dada a romances nem almas gémeas, muito menos a idealizações, sempre fugi deste meu pressentimento que tive desde que te vi a frente, que era tudo diferente, como se o mundo todo estivesse a preto e branco e tu a cores. E esse pressentimento era no fundo que separados podíamos não ser sequer nada de especial, mas que éramos tão diferentes juntos, tão extraordinários unidos, que a grande pena foi o facto de raramente nos permitirmos estar, de facto, unidos sem construirmos barreiras gigantes e nos afastarmos em distância impercorríveis. No fundo era aquele pressentimento de que éramos “feitos um para o outro” e que não havia possibilidade de no mundo haver algo como tu.
Acho que as vezes depende de uma só escolha, ou do acaso, dou por mim a perguntar-me porque é que a Julieta não se limitou a sair com um homem normal, havia tantos, e poupava o drama a toda a gente, e depois percebo que assim não haveria história. Ao fim do dia, o que fizemos foi apenas arrancar páginas da nossa história e deitá-las à fogueira, poupámo-nos o drama, virámo-nos as costas, e sentir que a história ainda não acabou não adianta porque não há mais páginas, porque por muito que me arda no peito como álcool numa ferida que toda ela foi vã, que algo tão mágico resultou num livro rasgado no meio do chão, é impossível voltar atrás.
E eu até posso ter mudado, e tu podes ter mudado também, de uma maneira que tudo fosse possível, mas o problema é que o mundo mudou também, é que a vida mudou também, e agora termos mudado, isso já não vai mudar nada.
Contudo, antes de começar a pensar, antes de chegar à conclusão que não há volta a dar, só sinto que não é voltar atrás que quero, não quero voltar ao passado, o passado já está escrito e é nele que estão os nossos erros, ele já está estragado e longe de mim está qerer recuperar as páginas que já rasgámos, o que eu no fundo quero é andar para a frente, e não para trás, continuo a ser otária ao ponto de acreditar que quem sabe, poderíamos ser aquele um num milhão que se não desistiu com todas as oportunidades que teve, não tem de desistir enquanto acreditar, que poderíamos ser aquele um num milhão que consegue resolver as coisas, que não esquece os erros mas que os ultrapassa. Que poderíamos ser aquele um no milhão que fica com uma história para contar, aquele um num milhão que torna o sonho realidade.
Por mais vergonhoso que seja, acho que no fundo continuo a acreditar que nós iamos ser aqueles diferentes de todos os outro, aqueles que realmente conseguiam.
Talvez tivesse de acabar mal, talvez nunca valesse a pena sequer pensar em tentar, isso eu não sei, eu não tenho as respostas, a única resposta que tenho e que se me perguntarem se consigo ser feliz com outra pessoa eu digo que sim, mas que se me perguntarem se sinto a tua falta não consigo de todo responder que não, e mais do que saudades do que tínhamos juntos, sinto saudades de ti.
E daquilo que sinto mais falta, é de quando apareces num sonho meu à noite, eu conseguir acordar sem o considerar um pesadelo, por ter de acordar sem ti.
Continuo a repetir a mim mesma que um dia, um dia eu hei-de apagar as velas, esquecer o fumo, e desejar boa noite,e deixar alguém acordar-me e fazer-me feliz, outra vez.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sabes há quanto tempo que não paro neste país? Não foi por acaso que me evaporei, que desapareci com o ar e com o tempo.

Andei a minha vida inteira a estabelecer objectivos e regras idiotas a mim mesma, por rejeitar as dos outros e por outro lado precisar delas, mas agora, sem vozes de fundo nem pressões exteriores, agora, na pureza de uma casa vazia e na calma do fim de tarde, só sei que nunca fiz a mais pequena ideia daquilo que quero. Aliás, acho que no fundo ninguém faz. A única coisa que desde os primórdios do mundo moveu o homem foi o amor, não apenas o romântico, mas o amor em si, a algo. Quer seja à arte, ao dinheiro, à vida, não interessa, sendo que obviamente o amor mais forte é o que é dirigido a alguém, visto que esse é o único amor que é recíproco: há sempre a esperança dessa pessoa nutrir por nós amor também (e não me parece que quem ame o seu trabalho esteja à espera de ser amado por ele, apesar de esperar ser amado ou admirado por causa dele, mas nunca na mesma proporção), o amor a alguém é o único possível de ser retribuido.
E é só através de um amor a algo que a vida ganha sentido, é a força que move o universo e que aproxima e afasta coisas. E só de uma aproximação entre coisas, se constroem coisas maiores: os átomos, os animais, os tijolos das casas, isso é visível seja qual for o lugar onde estejas ou no que quer que penses.
E eu sempre tive isto dentro de mim, esta vontade de construir algo maior, mas só o queria fazê-lo quando estivesse cem por cento certa de o querer, de estar preparada para o fazer. Essa tentativa cada vez se prova mais errada a ela mesma.
Nunca se está preparado para a vida, até porque ela faz questão de não se manter a mesma dois segundos seguidos, nunca é possível saber o que realmente se quer, isso não vai acontecer. Normalmente só temos certezas sobre aquilo que não queremos, e fugimos mais de medos do que perseguimos sonhos, e muitas vezes passamos a vida a fazê-lo. Fugimos mais de uma má vida, ou da solidão, ou da miséria, do que percorremos o amor, ou valores, ou ideais: ou seja, muitas das coisas da nossa vida vêm por acaso, e aparecem no caminho enquanto fugíamos de outra coisa qualquer, não me refiro a uma fuga covarde, mas a uma fuga de sobrevivência, raramente o que temos surge como exactamente o que procurávamos.
Mas quando chegaste à minha vida, foram esses os únicos segundos em que me lembro de não saber só o que não queria, mas ter a certeza do que queria: e nesses segundos, nesses breves segundos, a única coisa que eu queria realmente eras tu, e essa sensação de certeza, foi em mim por si só já um milagre. E é por isso que vou aí ter contigo, porque estou farta de percorrer o mundo sem nada sem ser a mim mesma, porque já não tenho mais medo de perder isso, e porque me vou levar a mim mesma comigo para te entregar mal te vir.
Tu ficaste e isso é razão suficiente para não te querer perder, porque és aquilo que eu tenho. E depois de ganhar a coragem para o admitir, és tudo aquilo que realmente quero ter.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A tua história de encantar

Num dia bom, queriamos não acreditar que a nossa vida poderia ser um conto de fadas, que não sabemos o que há ao virar da esquina, que a vida vai florir de repente em todo o seu sentido, só por nos termos conseguido manter de pé durante todos aquele tempo em que nada o fazia, só por nos mantermos em pé e conseguirmos dar o melhor de nós mesmo quando nos sentimos não viver a vida que nos pertence, não ser o que queríamos, não estar onde devíamos. Continuamos a mesma criança, se pensarmos bem, que ainda sonha que vai haver um dia em que se acorda sem mais duvidas, numa felicidade que não e só momentânea mas que fica, sem haver necessidade de a andar sempre a perseguir como cães esfomeados.
Continuamos a querer ser as princesas ou os heróis da Disney que nunca sendo perfeitos, conseguiram a sua história e o seu final feliz. Continuamos todos os dias a acordar, a desejar a cada instante que o nosso sonho se torne realidade, mesmo quando não temos um, apenas ter a certeza que o nosso final vai ser feliz e que essa felicidade vai durar.
Por detrás de todos os discursos diários, por detrás de todas as definições que adoptamos para felicidade,de todos os planos e objectivos que traçamos, e por detrás daquilo que dizemos querer, ter ou precisar, todos desejamos o mesmo: esperamos por aquela aproximação à perfeição, por aquele equilibrio, que nunca conseguimos atingir por mais de segundos.
No fundo, passamos grande parte do tempo a sonhar acordados, a fantasiar com finais de contos de fadas, a pedir secretamente pelo dia em que tudo irá mudar, pelo dia em que acordamos e o mundo nos sorri mesmo nas piores alturas, em que acordamos e acreditamos que o príncipe encantado nos vem acordar do sono profundo, em que achamos possível o ter sempre tentado fazer a coisa certa seja recompensado, porque na verdade, não acreditamos muito nisso, ou não queremos de todo acreditar.
Porque é esse o problema de sonhar, depois custa acordar, e essa nossa falta de fé num final feliz, é apenas porque esse dia continua a aparecer-nos de vez em quando, esse dia de que aparecem as certezas, em que as dúvidas se evaporam, e em que seremos felizes para sempre.

Mas o mais impressionante de tudo, é que apesar de o sabermos, nunca parecemos lembrar-nos que mesmo as personagens encantadas, salvas pela magia e protegidas pelo bem, mesmo essas, foram envenenadas, adormecidas, presas, exploradas e maltratadas, os heróis e heroínas mais bravas foram desvalorizadas, gozadas, e acima de tudo: todos esses erraram.