
Maria era bailarina profissional. E era assim que seguia a sua vida, sempre no seu próprio mundo e concentrada nos seus movimentos mas nunca deixando de seguir a música que a rodeava no momento. Rafael era diferente. Rafael ora impunha e sobrepunha os seus movimentos à música, ora se limitava a guiar levemente por ela sem a contrariar uma única vez. Foi exactamente isso que talvez, os fez apaixonarem-se. Não foi uma história de amor, talvez pudesse ter sido, mas começou tarde demais para o ser.
Por fracções de segundos, às vezes, o movimento não encaixa na música e toda a dança perde o sentido.
Entre espetáculos e bailarinas, cenários, máscaras, e maquilhagens, Rafael parecia ter descoberto um novo mundo. Antes diziam que eram fadas na vida um do outro, agora, Maria mantinha-se como uma sombra que o acompanhava quer ele quisesse que não.
Maria sentia-se em luto, num luto de sonhos e ilusões, de ideais que colocara em alguém de tal forma que este se tornavam reais. Sentia-se como que na coreografia ideal, na qual acreditava de tal forma que os passos de dança lhe brotavam no corpo sem esforço, mas que, por alguma razão, simplesmente não conseguia dançar.
Encharcada da chuva lá fora, Maria abre a porta de casa e corre para uma caixinha de madeira em que prometera guardar as memórias de si e de Rafael, em que acabava sempre por não guardar nada, quer dizer, nada material, porque muitas vezes abria a caixa e falava com ele em voz baixa, guardava a sua voz nela e mantinha-a junto à janela, para nunca se esquecer de nada. Maria gostava de ir, gostava de partir, muito mais do que chegar e claramente mas do que ficar. Ela decidira que não tinha escolha, ía embora, não suportava mais ser sombra e reflexo de si mesma. Precisava de ter para si mesma uma resposta a toda a superficialidade que agora ele representava, uma resposta ao fim que ele escolhera para ambos. Precisava de fazer o seu luto. Abriu a caixa e entreabriu a janela, a chuva encharava o chão da casa e anoitecia. Quase inaudivelmente, Maria sussurrou:
“Tenho o hábito de continuar a falar contigo quando já estás debaixo de terra, fechado num caixão, enterrado por ti mesmo, sem levares contigo um único pedaço de nós. Desisti de te levar cartas e flores, desisti de pensar que por uns segundos, vais querer abrir o teu caixão e deixar-me falar contigo, e ouvir-me. Foi a tua escolha.
E eu, eu não tenho escolha, não há escolhas quando há morte, só falsos ponto de fuga. A única escolha é fazer-te luto, perceber e aceitar que já não ouves nem falas, que já não te vais mover mais dentro de mim, é saber que não vai haver outro toque, o toque da tua mão e o seu ritmo diferente, um ritmo que passa directo da minha própria pele para a minha alma, que nos faz ter o mesmo ritmo e ouvir o mesmo som, ver as mesmas cores, e o mesmo mundo, o nosso mundo, que não foi ainda enterrado porque eu não quis que o arrastasses contigo, esse toque alimenta-me, sustenta-me, mantem-me, e esse toque chega-me. O ritmo do teu toque chega a mim pelos ouvidos, pelo tacto, pelo olfacto, pela visão. O ritmo do teu toque é o ritmo ao qual eu gosto de dançar. Mas os mortos não dançam. Tu já não danças comigo.
Aprendi a aceitar e respeitar que já não estejas, a aceitar o teu silêncio, a aceitar a tua morte voluntária em mim.
Nunca achei que o amor precisasse de lutas, não se luta por amor: ou há, ou não há.
A dança, no amor, é aprender a conhecer o ritmo um do outro, e saber como acompanhá-lo, saber de repente mais do outro do que ele sabe de si próprio, e descobrir que ele conhece de nós algo que desconhecíamos.
Não há coreografias, só se dança, só se ama sem ser preciso passos nem tempo certos, jogos de se fazer interessante ou de medir forças, teimosias, ou poderes, cânones ou efeitos. Tu sempre quiseste criar as nossas coreografias.
Eu sei que gostas de mim Rafael, porque eu nunca tinha desistido de ti, porque eu acreditava incondicionalmente em ti, porque eu gostava, realmente de ti e nós gostamos de quem gosta de nós, porque somos escolhidos para ser gostados e ser-se escolhido é bom, ser-se gostado também.
A minha ilusão sobre nós foi o meu erro, não o teu. Não te posso atacar a ti pelo meu erro, pela minha incapacidade de discernir o passado do presente do futuro, de ver tudo num só, numa miscelánia bem pura a que chamo verdade. Queria não dramatizar mas não consigo, sou uma bailarina. Já não nos vês, já não nos ouves, já não nos sentes. Eu vou fechar o teu passado e a minha ilusão nesta caixa, é o mínimo que posso fazer, para conseguir fazer o teu, e o nosso luto.
Adeus, e até ao dia em que nos devemos voltar a encontrar.”
Abriu um pouco mais a janela, e deixou por ela cair a caixa que tinha em mãos, o que tivesse de ficar, ficaria.






