Porém não o mostro. Vou atirando cartas, pistas, fazendo gestos, guardando sentimentos até eles me explodirem simplesmente dentro de peito e até que eu perda a capacidade de seguir em frente. Não é por ter medo, não é por não conseguir, é por não querer. Conheço-me e sei que sou uma pessoa apaixonada por natureza e não seria sequer difícil para mim apaixonar-me outra vez, porque já me apaixonei outra vez e não foi preciso esperar muito, mas eu posso-me apaixonar as vezes que quiser que não sinto em mim a capacidade de me desapaixonar de ti.
Penso demais, em coisas inúteis, que simplesmente não tem utilidade prática nenhuma mas que me ocupam totalmente a cabeça, e quando começo a pensar em ti, ou se terás ou não significado para mim, é que eu me apercebo do tanto que ficou por dizer, é que eu me apercebo que uma mensagem tua, por mais fria e sem conteúdo que seja, é mais do que suficiente para me fazer sorrir sem razão nenhuma, e como eu sou uma perfeita idiota por ainda me sentir, de um modo tão intenso e irracional, ligada a ti. Porque tenho uma parte de mim que já te entreguei de tal maneira que acho que vai simplesmente ficar eternamente à tua espera, será eternamente tua, e não é a ti que tenho de esquecer, é a ela. Eu não sei, não consigo formular argumentos válidos para mmim mesma, só sei que depois de falar contigo é a altura em que enterro a minha cabeça na almofada com um sorriso ridiculo nos lábios e com a cabeça nas nuvens, que chego ao ponto de as vezes só o som da tua voz me provocar esta alegria inexplicánel, inconveniente, irracional. E é por esse tipo de coisas inexplicáveis, inconvenientes e irracionais, que este "não sei" se perpetua na minha cabeça, porque eu não consigo sair deste impasse e a culpa não é de mais ninguem senão minha.As ligações nascem de pontos comuns, de momentos de encontro entre as pessoas, e nós éramos tão diferentes, convergíamos de uma forma tão extrema que nos era praticamente impossível esses momentos de encontro e sintonia na prática. Mas então, porque é que havia tantos? De onde é que vinha aquele elo de ligação que era o maior que alguma vez tinha vivido? Como é que se era tão difícil para mim entender-te, e para ti entender-me, conseguíamos instantaneamente ler os sentimentos um do outro, passar as emoções um ao outro só através do toque da pele ou do cruzar dos olhar? E porque é que apesar de nada fazer sentido quando olhava para nós à distância, eu continuava a passar literalmente para outro mundo só pelo mínimo contacto contigo, quase como se houvesse uma espécie de universo paralelo que parecia estar basicamente a nossa espera. Não percebo como é que com todas as inseguranças que eu tinha e que contigo se tornavam ainda mais presentes, contigo sempre tive confiança para dizer tudo o que me passava pela cabeça da forma como me passava pela cabeça, porque é que parecia que sabias sempre exactamente o que eu queria dizer, no fundo sabias exactamente quem eu era.
E eu, que nunca fui dada a romances nem almas gémeas, muito menos a idealizações, sempre fugi deste meu pressentimento que tive desde que te vi a frente, que era tudo diferente, como se o mundo todo estivesse a preto e branco e tu a cores. E esse pressentimento era no fundo que separados podíamos não ser sequer nada de especial, mas que éramos tão diferentes juntos, tão extraordinários unidos, que a grande pena foi o facto de raramente nos permitirmos estar, de facto, unidos sem construirmos barreiras gigantes e nos afastarmos em distância impercorríveis. No fundo era aquele pressentimento de que éramos “feitos um para o outro” e que não havia possibilidade de no mundo haver algo como tu.
Acho que as vezes depende de uma só escolha, ou do acaso, dou por mim a perguntar-me porque é que a Julieta não se limitou a sair com um homem normal, havia tantos, e poupava o drama a toda a gente, e depois percebo que assim não haveria história. Ao fim do dia, o que fizemos foi apenas arrancar páginas da nossa história e deitá-las à fogueira, poupámo-nos o drama, virámo-nos as costas, e sentir que a história ainda não acabou não adianta porque não há mais páginas, porque por muito que me arda no peito como álcool numa ferida que toda ela foi vã, que algo tão mágico resultou num livro rasgado no meio do chão, é impossível voltar atrás.
E eu até posso ter mudado, e tu podes ter mudado também, de uma maneira que tudo fosse possível, mas o problema é que o mundo mudou também, é que a vida mudou também, e agora termos mudado, isso já não vai mudar nada.
Contudo, antes de começar a pensar, antes de chegar à conclusão que não há volta a dar, só sinto que não é voltar atrás que quero, não quero voltar ao passado, o passado já está escrito e é nele que estão os nossos erros, ele já está estragado e longe de mim está qerer recuperar as páginas que já rasgámos, o que eu no fundo quero é andar para a frente, e não para trás, continuo a ser otária ao ponto de acreditar que quem sabe, poderíamos ser aquele um num milhão que se não desistiu com todas as oportunidades que teve, não tem de desistir enquanto acreditar, que poderíamos ser aquele um num milhão que consegue resolver as coisas, que não esquece os erros mas que os ultrapassa. Que poderíamos ser aquele um no milhão que fica com uma história para contar, aquele um num milhão que torna o sonho realidade.
Por mais vergonhoso que seja, acho que no fundo continuo a acreditar que nós iamos ser aqueles diferentes de todos os outro, aqueles que realmente conseguiam.
Talvez tivesse de acabar mal, talvez nunca valesse a pena sequer pensar em tentar, isso eu não sei, eu não tenho as respostas, a única resposta que tenho e que se me perguntarem se consigo ser feliz com outra pessoa eu digo que sim, mas que se me perguntarem se sinto a tua falta não consigo de todo responder que não, e mais do que saudades do que tínhamos juntos, sinto saudades de ti.
E daquilo que sinto mais falta, é de quando apareces num sonho meu à noite, eu conseguir acordar sem o considerar um pesadelo, por ter de acordar sem ti.
Continuo a repetir a mim mesma que um dia, um dia eu hei-de apagar as velas, esquecer o fumo, e desejar boa noite,e deixar alguém acordar-me e fazer-me feliz, outra vez.












