"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Desencontros

Tenho esta obcessão por não conseguir apagar uma vela antes que esta arda até ao fim, tenho que esgotar todas as possibilidades, tentar de todas as formas. Não devia querer tanto, gostar tanto, fazer tanto, esperar tanto, dar tanto, eu não devia acreditar tanto, mas não sei se tenho escolha, já faz parte de mim.
Porém não o mostro. Vou atirando cartas, pistas, fazendo gestos, guardando sentimentos até eles me explodirem simplesmente dentro de peito e até que eu perda a capacidade de seguir em frente. Não é por ter medo, não é por não conseguir, é por não querer. Conheço-me e sei que sou uma pessoa apaixonada por natureza e não seria sequer difícil para mim apaixonar-me outra vez, porque já me apaixonei outra vez e não foi preciso esperar muito, mas eu posso-me apaixonar as vezes que quiser que não sinto em mim a capacidade de me desapaixonar de ti.
Penso demais, em coisas inúteis, que simplesmente não tem utilidade prática nenhuma mas que me ocupam totalmente a cabeça, e quando começo a pensar em ti, ou se terás ou não significado para mim, é que eu me apercebo do tanto que ficou por dizer, é que eu me apercebo que uma mensagem tua, por mais fria e sem conteúdo que seja, é mais do que suficiente para me fazer sorrir sem razão nenhuma, e como eu sou uma perfeita idiota por ainda me sentir, de um modo tão intenso e irracional, ligada a ti. Porque tenho uma parte de mim que já te entreguei de tal maneira que acho que vai simplesmente ficar eternamente à tua espera, será eternamente tua, e não é a ti que tenho de esquecer, é a ela. Eu não sei, não consigo formular argumentos válidos para mmim mesma, só sei que depois de falar contigo é a altura em que enterro a minha cabeça na almofada com um sorriso ridiculo nos lábios e com a cabeça nas nuvens, que chego ao ponto de as vezes só o som da tua voz me provocar esta alegria inexplicánel, inconveniente, irracional. E é por esse tipo de coisas inexplicáveis, inconvenientes e irracionais, que este "não sei" se perpetua na minha cabeça, porque eu não consigo sair deste impasse e a culpa não é de mais ninguem senão minha.
As ligações nascem de pontos comuns, de momentos de encontro entre as pessoas, e nós éramos tão diferentes, convergíamos de uma forma tão extrema que nos era praticamente impossível esses momentos de encontro e sintonia na prática. Mas então, porque é que havia tantos? De onde é que vinha aquele elo de ligação que era o maior que alguma vez tinha vivido? Como é que se era tão difícil para mim entender-te, e para ti entender-me, conseguíamos instantaneamente ler os sentimentos um do outro, passar as emoções um ao outro só através do toque da pele ou do cruzar dos olhar? E porque é que apesar de nada fazer sentido quando olhava para nós à distância, eu continuava a passar literalmente para outro mundo só pelo mínimo contacto contigo, quase como se houvesse uma espécie de universo paralelo que parecia estar basicamente a nossa espera. Não percebo como é que com todas as inseguranças que eu tinha e que contigo se tornavam ainda mais presentes, contigo sempre tive confiança para dizer tudo o que me passava pela cabeça da forma como me passava pela cabeça, porque é que parecia que sabias sempre exactamente o que eu queria dizer, no fundo sabias exactamente quem eu era.
E eu, que nunca fui dada a romances nem almas gémeas, muito menos a idealizações, sempre fugi deste meu pressentimento que tive desde que te vi a frente, que era tudo diferente, como se o mundo todo estivesse a preto e branco e tu a cores. E esse pressentimento era no fundo que separados podíamos não ser sequer nada de especial, mas que éramos tão diferentes juntos, tão extraordinários unidos, que a grande pena foi o facto de raramente nos permitirmos estar, de facto, unidos sem construirmos barreiras gigantes e nos afastarmos em distância impercorríveis. No fundo era aquele pressentimento de que éramos “feitos um para o outro” e que não havia possibilidade de no mundo haver algo como tu.
Acho que as vezes depende de uma só escolha, ou do acaso, dou por mim a perguntar-me porque é que a Julieta não se limitou a sair com um homem normal, havia tantos, e poupava o drama a toda a gente, e depois percebo que assim não haveria história. Ao fim do dia, o que fizemos foi apenas arrancar páginas da nossa história e deitá-las à fogueira, poupámo-nos o drama, virámo-nos as costas, e sentir que a história ainda não acabou não adianta porque não há mais páginas, porque por muito que me arda no peito como álcool numa ferida que toda ela foi vã, que algo tão mágico resultou num livro rasgado no meio do chão, é impossível voltar atrás.
E eu até posso ter mudado, e tu podes ter mudado também, de uma maneira que tudo fosse possível, mas o problema é que o mundo mudou também, é que a vida mudou também, e agora termos mudado, isso já não vai mudar nada.
Contudo, antes de começar a pensar, antes de chegar à conclusão que não há volta a dar, só sinto que não é voltar atrás que quero, não quero voltar ao passado, o passado já está escrito e é nele que estão os nossos erros, ele já está estragado e longe de mim está qerer recuperar as páginas que já rasgámos, o que eu no fundo quero é andar para a frente, e não para trás, continuo a ser otária ao ponto de acreditar que quem sabe, poderíamos ser aquele um num milhão que se não desistiu com todas as oportunidades que teve, não tem de desistir enquanto acreditar, que poderíamos ser aquele um num milhão que consegue resolver as coisas, que não esquece os erros mas que os ultrapassa. Que poderíamos ser aquele um no milhão que fica com uma história para contar, aquele um num milhão que torna o sonho realidade.
Por mais vergonhoso que seja, acho que no fundo continuo a acreditar que nós iamos ser aqueles diferentes de todos os outro, aqueles que realmente conseguiam.
Talvez tivesse de acabar mal, talvez nunca valesse a pena sequer pensar em tentar, isso eu não sei, eu não tenho as respostas, a única resposta que tenho e que se me perguntarem se consigo ser feliz com outra pessoa eu digo que sim, mas que se me perguntarem se sinto a tua falta não consigo de todo responder que não, e mais do que saudades do que tínhamos juntos, sinto saudades de ti.
E daquilo que sinto mais falta, é de quando apareces num sonho meu à noite, eu conseguir acordar sem o considerar um pesadelo, por ter de acordar sem ti.
Continuo a repetir a mim mesma que um dia, um dia eu hei-de apagar as velas, esquecer o fumo, e desejar boa noite,e deixar alguém acordar-me e fazer-me feliz, outra vez.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sabes há quanto tempo que não paro neste país? Não foi por acaso que me evaporei, que desapareci com o ar e com o tempo.

Andei a minha vida inteira a estabelecer objectivos e regras idiotas a mim mesma, por rejeitar as dos outros e por outro lado precisar delas, mas agora, sem vozes de fundo nem pressões exteriores, agora, na pureza de uma casa vazia e na calma do fim de tarde, só sei que nunca fiz a mais pequena ideia daquilo que quero. Aliás, acho que no fundo ninguém faz. A única coisa que desde os primórdios do mundo moveu o homem foi o amor, não apenas o romântico, mas o amor em si, a algo. Quer seja à arte, ao dinheiro, à vida, não interessa, sendo que obviamente o amor mais forte é o que é dirigido a alguém, visto que esse é o único amor que é recíproco: há sempre a esperança dessa pessoa nutrir por nós amor também (e não me parece que quem ame o seu trabalho esteja à espera de ser amado por ele, apesar de esperar ser amado ou admirado por causa dele, mas nunca na mesma proporção), o amor a alguém é o único possível de ser retribuido.
E é só através de um amor a algo que a vida ganha sentido, é a força que move o universo e que aproxima e afasta coisas. E só de uma aproximação entre coisas, se constroem coisas maiores: os átomos, os animais, os tijolos das casas, isso é visível seja qual for o lugar onde estejas ou no que quer que penses.
E eu sempre tive isto dentro de mim, esta vontade de construir algo maior, mas só o queria fazê-lo quando estivesse cem por cento certa de o querer, de estar preparada para o fazer. Essa tentativa cada vez se prova mais errada a ela mesma.
Nunca se está preparado para a vida, até porque ela faz questão de não se manter a mesma dois segundos seguidos, nunca é possível saber o que realmente se quer, isso não vai acontecer. Normalmente só temos certezas sobre aquilo que não queremos, e fugimos mais de medos do que perseguimos sonhos, e muitas vezes passamos a vida a fazê-lo. Fugimos mais de uma má vida, ou da solidão, ou da miséria, do que percorremos o amor, ou valores, ou ideais: ou seja, muitas das coisas da nossa vida vêm por acaso, e aparecem no caminho enquanto fugíamos de outra coisa qualquer, não me refiro a uma fuga covarde, mas a uma fuga de sobrevivência, raramente o que temos surge como exactamente o que procurávamos.
Mas quando chegaste à minha vida, foram esses os únicos segundos em que me lembro de não saber só o que não queria, mas ter a certeza do que queria: e nesses segundos, nesses breves segundos, a única coisa que eu queria realmente eras tu, e essa sensação de certeza, foi em mim por si só já um milagre. E é por isso que vou aí ter contigo, porque estou farta de percorrer o mundo sem nada sem ser a mim mesma, porque já não tenho mais medo de perder isso, e porque me vou levar a mim mesma comigo para te entregar mal te vir.
Tu ficaste e isso é razão suficiente para não te querer perder, porque és aquilo que eu tenho. E depois de ganhar a coragem para o admitir, és tudo aquilo que realmente quero ter.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A tua história de encantar

Num dia bom, queriamos não acreditar que a nossa vida poderia ser um conto de fadas, que não sabemos o que há ao virar da esquina, que a vida vai florir de repente em todo o seu sentido, só por nos termos conseguido manter de pé durante todos aquele tempo em que nada o fazia, só por nos mantermos em pé e conseguirmos dar o melhor de nós mesmo quando nos sentimos não viver a vida que nos pertence, não ser o que queríamos, não estar onde devíamos. Continuamos a mesma criança, se pensarmos bem, que ainda sonha que vai haver um dia em que se acorda sem mais duvidas, numa felicidade que não e só momentânea mas que fica, sem haver necessidade de a andar sempre a perseguir como cães esfomeados.
Continuamos a querer ser as princesas ou os heróis da Disney que nunca sendo perfeitos, conseguiram a sua história e o seu final feliz. Continuamos todos os dias a acordar, a desejar a cada instante que o nosso sonho se torne realidade, mesmo quando não temos um, apenas ter a certeza que o nosso final vai ser feliz e que essa felicidade vai durar.
Por detrás de todos os discursos diários, por detrás de todas as definições que adoptamos para felicidade,de todos os planos e objectivos que traçamos, e por detrás daquilo que dizemos querer, ter ou precisar, todos desejamos o mesmo: esperamos por aquela aproximação à perfeição, por aquele equilibrio, que nunca conseguimos atingir por mais de segundos.
No fundo, passamos grande parte do tempo a sonhar acordados, a fantasiar com finais de contos de fadas, a pedir secretamente pelo dia em que tudo irá mudar, pelo dia em que acordamos e o mundo nos sorri mesmo nas piores alturas, em que acordamos e acreditamos que o príncipe encantado nos vem acordar do sono profundo, em que achamos possível o ter sempre tentado fazer a coisa certa seja recompensado, porque na verdade, não acreditamos muito nisso, ou não queremos de todo acreditar.
Porque é esse o problema de sonhar, depois custa acordar, e essa nossa falta de fé num final feliz, é apenas porque esse dia continua a aparecer-nos de vez em quando, esse dia de que aparecem as certezas, em que as dúvidas se evaporam, e em que seremos felizes para sempre.

Mas o mais impressionante de tudo, é que apesar de o sabermos, nunca parecemos lembrar-nos que mesmo as personagens encantadas, salvas pela magia e protegidas pelo bem, mesmo essas, foram envenenadas, adormecidas, presas, exploradas e maltratadas, os heróis e heroínas mais bravas foram desvalorizadas, gozadas, e acima de tudo: todos esses erraram.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Stand for yourself

Sempre que começamos algo, seja o que for: um livro, uma amizade, uma relação, uma banda… temos como ideia basicamente o mesmo, trata-se essencialmente de nós, de uma identidade, de um núcleo de coisas em que acreditamos afincamente das quais achamos inacreditável fazer parte.

Achamos tudo o que sentimos tão único, tão essencial. Tudo o que pensamos tão fresco e novo, que temos de o escrever, temos de o provar, temos de o fazer, temos de o continuar , de o partilhar. Todos nos queremos sentir especiais, e os inícios das coisas, a sua ideia, a sua essência, faz-nos fazer parte de alguma coisa, e fazer parte de alguma coisa faz nos ser mais alguma coisa, e ser mais alguma coisa faz-nos mais especias.

Mas o problema é que depois descobrimos que somos mais um na multidão, que o máximo que conseguimos é mais uma frase bonita, que podemos trabalhar dia e noite, o máximo que conseguiremos é mais um trabalho bem feito, entre os milhões que existem mundo fora. Podemos estudar o resto da nossa vida, que o que saberemos será de outros que o descobriram, nós só o aprendemos, seremos apenas mais uma pessoa que sabe muito. E é daí que é os brilhantes se tornam frustrados, que os génios se tornam doidos, que as crianças se tornam adultos e os adultos se tornam velhos. Porque será fácil sobressair no nosso bairro, mas pelo mundo fora não somos grande espingarda, e o problema é do mundo, é demasiado grande, não podemos ser tão grandes como ele.

É aí que sentimos como tão especial e único se revela ordinário, vulgar, normal, natural. Aliás, disse mal, isso não é o problema, isso é a verdade, é a inevitabilidade. É a realidade, que é uma desmancha prazeres, mas se não fosse, ninguém sonharia porque não valeria a pena, se tudo fosse de facto (e facilmente) possível. Mas,como disse, não é esse o problema. O problema é isso nos fazer desistir, achar que estamos condenados a ser nada de especial, a ser mais um, um no meio da multidão, mais um, na história da humanidade, mais um berço na maternidade e mais uma sepultura no cemitério. Esse é, sim, o verdadeiro problema.

Toda a gente que mete os pés neste carrossel azul e verde já conseguiu alguma coisa e falhou em milhões delas.
Já foi bom em alguma coisa e mau em outra. Até os maiores génios, até mesmo as pessoas que conseguiram destacar-se na multidão de tal forma, de uma forma tão extrema que não só foram um entre os milhões que existiam, como continuam a ser um entre os milhões de todos os que já existiram antes dele, e um entre milhões daqueles que irão existir depois de ele já ter desaparecido. O que é que está mal na nossa cabeça, afinal, para não esperarmos nada de novo já, nenhuma surpresa, nem mesmo por de nós mesmos? De já não acreditarmos em nada inesperado? Para acharmos que o pouco chega?

Como é que é fisicamente possível não pensarmos, ou recusarmo-nos a sentirmo-nos descontentes e insatisfeitos conosco, quando , sinceramente, até o Einstein teve más notas, até Sócrates se sentiu perdido, até Fernando Pessoa se embebedou, até Cristóvão Colombo já se deve ter perdido no meio de tanto mar, até Mozart já levou uma tampa, e até a Marlin Monroe trabalhou numa loja de gelados?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

To give things up

Maybe we're not supposed to be happy. Maybe gratitude has nothing to do with joy. Maybe being grateful means recognizing what you have for what it is. Appreciating small victories. Admiring the struggle it takes simply to be human. Maybe we're thankful for the familiar things we know. And maybe we're thankful for the things we'll never know. At the end of the day, the fact that we have the courage to still be standing is reason enough to celebrate

Everyone, once in a lifetime, tries harder, sinks deeper.
It’s what we do.
And that’s ok, we are humans, that’s our thing: crossing lines, dangerous lines, taking chances, dangerous chances, swimming deeper, refusing the clearness of the surface and exploring what’s dark, what’s new, what we do not know, what takes our breath away, until we can no longer breathe.
That’s our thing, that’s what we do, and if we didin’t from the beginning, we would still be just monkeys. That’s us, sinking deeper,giving up savety, clearness, giving up happy, simple, easy.
We just give that up, because it’s far too happy, too easy for us, too simple to reach, we know it, we feel it, we’ve seen it, we now how to get it, we just want more than that.
We wish "more", we long to see were else more "more" can lead us and what else more "more" can bring us. And that’s because we constantly believe risky things must always lead to something good, to something more. Something more desirable than good things which can only lead us to their selves, while dangerous things will lead us where we have no clue of , somewhere completely new.
And new it’s our thing, change is our thing, and we can't give that up.
But honestly, we should be careful so that we can know how to return if we need to, when things get way to messy and we realise that if we don't, we may never breathe again.

Porque é que escrevi em inglês mesmo? Espero que não seja mania.

domingo, 14 de novembro de 2010

Desacredita

A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito.
Sempre achei que o amor era como uma espécies de religião, porque era preciso ser devoto, acreditar, ter fé, e não precisar de certezas absolutas ou explicações racionais.
Tal como na religião, é preciso sonhar,fazer promessas, interiorizar aquela série de verdades das quais não existem provas de existência mas também não existem provas que o neguem. Tal como a religião, é uma vela no escuro, um guia, um barco de salvamento, uma forma de encontrar sentido à nossa vida.
Há quem tenha problemas com fé, com credibilidade, confiança cega e com irracionalidade. Quem goste de perceber, de acreditar porque faz sentido e não porque se precisa, porque é demasiado difícil viver sem acreditar em nada, e a verdade é que quase tudo em que se possa acreditar tem falhas, falta de sentido, em algum ponto e de algum modo, porque nada é perfeito e se algo fosse ninguém seria perfeito o suficiente para o perceber.
Nunca achei que me viesse a apaixonar rapidamente, precisamente por ter esta vontade constante de acreditar em alguma coisa mas incapacidade intrínseca de o fazer, mas sem me dar conta, acabou por me acontecer. Porque mais tarde ou mais cedo na história, acontece sempre algo inexplicável, há quem chame acaso, há quem chame milagre, mas continua a ser inexplicável. E mais tarde ou mais cedo, toda a gente se apaixona de uma forma ou de outra, inexplicavelmente, quer se permitindo fazê-lo ou não, mas toda a gente mais tarde ou mais cedo não consegue evitar acreditar em algo. Porque sem acreditar em nada a vida é escura e sem sentido, sem rédeas, vazia.
Pela mesma razão que nem sempre percebemos o porquê das coisas começarem a existir, também não percebemos o porquê delas acabarem, delas deixarem de dar sentido, luz, rédeas, preenchimento. Também não percebemos porque nem sempre existe razão, e por isso mesmo, por toda essa falta de razão, por toda essa falta de explicação e de ciência, a que nos pudéssemos agarrar e perceber que não existe outra solução sem ser seguir em frente, é que nos sentimos perdidos quando largamos as rédeas, quando se apagam as luzes e a única réstia de luz é a esperança, tão inexplicável e tão sem sentido como a razão da sua existência, mas tão necessária e inevitável como a razão pela qual ela não pode deixar de surgir.
E não está certo guiarmo-nos só pela luz da esperança, nem sequer nos é possível, quando antes estava tudo tão claro como água e agora nem sabemos por onde andamos, nem vemos o que nos rodeia. E nos limitamos a perseguir a luz como insectos só para não nos perdermos por absoluto ou não o admitirmos, e a fugir do escuro até percebermos que as vezes é mais fácil desligar de vez a luz e tentarmos recuperar os nossos sentidos. Porque quando deixamos de ter dentro de nós essa crença, esse sentimento, é como se nos tornássemos inaptos para a vida e perdêssemos o o tacto, o olfacto, a visão, o paladar para o presente e apenas vivêssemos dos sabores e cores do passado pois parecem simplesmente mais vivos.
Como se não houvesse nada mais pelo qual rezar, mais nenhuma razão pela qual acreditar em algo que não existe por muito que deixe por toda a parte sinais de existência que podem ter, no final, outras explicações.
Por isso seguir em frente as vezes não é complicado, é ser ateu, simples, inteligente, racional. É cortar as rédeas, apagar as luzes, desacreditar em algo que, no fundo, continua a fazer sentido sem nunca o ter feito. Seguir em frente é, muitas vezes, deixar a meio, fugir do escuro. Seguir em frente é, muitas vezes, é tapar os ouvidos e o nariz, fechar os olhos e a boca, deixar-se iludir.
Muitas vezes, é pura e simplesmente, fazer batota.
Mas fazer batota, na vida, na maior parte das vezes torna-se a única forma não de ganhar, mas de não perder.

sábado, 18 de setembro de 2010

Nunca me perdi

A verdade é um fantasma que há que perseguir cada vez mais longe.

Nunca me perdi, sou demasiado covarde para isso. Sou demasiado covarde para arriscar e apostar tudo de mim e todo o meu esforço em algo, mas demasiado covarde também para me perder, para agir sem pensar.
Nunca me perdi, mas não consigo estabelecer metas nem destinos, sou sempre apanhada no meio, sou sempre um eterno poço de dúvidas, de contradições, poço este que não me deixa avançar mais. Limito-me a ir dando passinhos em falso e não falhar no pouco que me exigem, e para não o fazer, a tentar que esperem o menos possível de mim, a tentar ser o mais sincera possível para não iludir ninguém. Prefiro ficar escondida e ir entregando os pedaços que posso, numa espécie de liberdade condicional, pois quando não estou encurralada, apanhada, e presa pelo medo, e ansiedade, é porque estou fugir deles, como se não pudesse estar bem, em paz. E toda a gente parece alcançar essa segurança que protege de todas as sombras em algo ou alguém e para mim nada é suficiente. Mas guardo há coisas que guardo tão bem dentro de mim, tão carinhosamente no meu coração, que não consigo nunca perder-me delas, do que amo.
Mas no último momento, largo-as, como se tivesse medo de não fugir, de ficar, de manter e guardar, de assumir que acredito nelas, de ser e estar, de viver, sem saber do que estu a fugir. Não sei e queria saber, não sei e não tento saber, não sei e tenho medo de saber, não sei nem nunca soube e tenho medo de não vir mesmo a saber
Eu não me perco, nunca, nunca me perdi, nem de ti nem de nada, acabo por manter sempre um fio de ligação a tudo, mas também não me envolvo, quando o faço volto para trás. É como uma nuvem me afastasse da realidade como um filtro,e à medida que o tempo passa, com ele passa a vida, como a badalada de um sino que toca de hora em hora a recordar-me de que ela está a passar e que o tempo existe, a lembrar-me de que eu existo também, de que tenho mesmo uma vida e que convinha vivê-la antes que ela acabe.

Gostava de desligar esse filtro,como se desliga nos sonhos, viver como quem sonha, sem filtros, sem limites, gostava de amar como quem sonha, de amar com tudo de mim, de uma forma que eu não conheço, de amar com este amor que genuinamente sinto por ti, pelas coisas, pela vida, e que penso que todos sentimos, por alguém, por algo, pela vida. Fico cheia de força por dentro, cheia de beleza que eu só consigo ver e sabes, é um autentico desperdício, porque eu não a consigo nem contemplar nem exteriorizar, só deixá-la morrer. É como se tivesse uma estrela gigante a latejar dentro de mim, sem saber lidar com ela, e deixando que com o tempo ela esmoreça. E sabes o que acontece a uma estrela quando morre? Não se limita a deixar de brilhar, torna-se num buraco negro, daqueles que engolem tudo o que se aproxima.

E tenho tanto medo que às vezes limito-me a ficar escondida e não mostrar nada, porque não sei o que mostrar, como se fosse mensageira de algo que não conheço e só quando me sai pela pele é que consigo entender (atenção, figurativemente e bem longe de misticismos). Enquanto isso tento sobreviver, tento fazer o mínimos, tento procurar partes disso, mas as vezes sinto-me como uma autentica sombra de mim mesma. Gostava que um dia, em vez de conhecer apenas a minha sombra, me conhecesse de facto. Nunca me perdi, e tenho medo de me perder, um medo irrepreensivel, incontrolável, mas compreensivel. A vida é confusa,é um manto de retalhos impossível de controlar por muito que nunca resistamos em tomar as suas rédeas, em interpretá-la, quando no fundo,ela só tem o sentido que lhe quisermos dar e isso é demasiado para fazer enquanto também a temos de a viver simultaneamente.

Apetece-me apanhar o próximo táxi e pedir que me deixe em qualquer lado, um lado qualquer mas diferente, que certamente mudará o resto da minha vida, tal como tudo o que fazemos a vai mudando e construindo, porque afinal viver é exactamente isso, ir escolhendo os táxis que vamos apanhar julgando saber onde nos deixam, e por vezes somos surpreendidos.
Mas eu, fico sentada a ver os táxis passar, como se nenhum fosse o certo, no ultimo momento, nunca consigo entrar, como se não fosse ainda, a minha vez. Nunca sequer tentei, eu não tento.
É por isso que nunca me perdi, porque nunca tive coragem.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

diagnóstico da dor

Sentimos a dor mas não a sua ausência

Há sempre dores, toda a gente tem dores, e doem a todos da mesma forma. Não há escalas de dor universais, só personalizadas, um risco no automóvel pode doer tanto a alguém como a morte de um parente a outrém, pois a dor é de quem a sente consoante a sua forma de sentir o que quer que seja. Quando e como dói, só a quem dói é possível saberm quando se sabe. Porque às vezes não se sabe, é o tipo de dor que dura desde sempre como pano de fundo, a inquietação inexplicável, música ambiente desagradável, que faz doer a cabeça e distrair-nos mas à qual nos recusamos a prestar atenção.
E essa dor, essa dor é a pior de todas, porque é como uma sombra que está colada às próprias costas, bem atrás de nós, mas impossível de a vermos, e mesmo quando aparentamos aproximar-nos da claridade, ela ainda se torna maior e nunca permite que à nossa volta fique tudo totalmente claro.
As dores são diferentes, e vividas de maneiras diferentes, porque as pessoas são diferentes, mas de certa forma assemelha-se assustadoramente a um vírus, visto que se espalha e ataca quem está exposto a ele, mesmo que a reacção de cada um seja diferente. O nosso sistema imunitário psicológico (que também varia de pessoa para pessoa) combate-o sempre com as mesma imunidades mentais, pela mesma ordem, quando realmente a diagnosticamos e percebemos que algo não está bem: tal como a dor de física, normalmente a dor é o sintoma de algo que não está bem.
Todos combatemos o vírus em cinco fases, sempre, variando a duração de cada uma e raramente concluindo o tratamento, raramente tendo sucesso na extinção do vírus dor:
-primeiro negamo-lo, dizemos que não é nada, que vai passar(e frequentemente permanecemos nessa fase, pensando que já estamos curados)
-depois ele desenvolve-se e usamos a raiva e a revolta, tentamos combatê-lo à força, praguejar pela nossa má sorte (é o antibiótico mais agressivo, daqueles que nem nos deixa dormir)
-depois, a prevenção, tentamos negociar a dor, persuadi-la, percebê-la, pedir-lhe mesiricórida e evitar que cresça, combatê-la com argumentos racionais que a acalmem ou acalmá-la artificilmente (seja com alcool, droga, comprimidos, sexo ou comida ou desporto ou mesmo compras ou qualquer outro tipo de "terapias"). É a fase diplomática, a fase do sorriso amarelo, da esperança.
-Depois surge a depressão, em que somos derrotados e dominados, e na qual nos limitamos a sentir a dor, a ficar de cama, a esperar que o tempo ajude os remédios a fazer efeito.
-e, por fim, a aceitação. Aprendemos a viver com o vírus e a não alimentá-lo, vamos usando um pouco de todas as imunidades e com a devida distância a tratar o vírus da melhor maneira. O vírus daquela dor continuará ali, adormecido, até que por alguma razão ou olhar ou palavra, algo o volte a despertar, e o ciclo, mais lento ou mais acelarado, se repita de novo. Se o fizermos de forma intensiva demais, corremos o risco a que a dor se torne eterna por ganhar ela própria imunidade às nossas defesas.
A verdade é que tudo se desgasta, tudo acalma, tudo murcha, com o passar do tempo, da tristeza mais profunda, da beleza mais transcendente, do sabor mais intenso, tudo perde intensidade até ao resumidamente nada, enquanto novas coisas profundas, transcendentes e intensas diferentes nascem.
Assim, todas as dores, com o passar do tempo, saram e deixam só uma cicatriz, que pode ser aberta mas nunca sangra da mesma forma. E quanto mais coisas vemos murchar, mais temos dentro de nós, e provavelmente mais irão nascer também.
E o pior de tudo é que sabemos perfeitamente que a qualquer momento, tudo pode recomeçar.

Ilha

"A consciência da insonsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência."

Todos sabemos como são as pessoas. Estamos habituados a elas como estamos ao nosso próprio corpo, ao oxigénio, ao sol, à agua, e a todo o resto da natureza.

As pessoas, para nós, fazem parte da natureza e a forma como convivemos todos os dias com elas, nos rimos, falamos, ouvimos, vivemos, já é também natural, intrínseco, habitual. É estranha, essa nossa necessidade de partilhar e ser partilhados, como se fôssemos tão estranhos a nós mesmos que nos sentimos a ser comidos por nós próprios quando estamos sozinhos, como se precisássemos de ter a certeza que alguémestá lá, do nosso lado, que existimos para alguém e que fazemos parte do mundo. No final, o que todos sentimos é essa urgência de nos sentir reais, porque por muito sociáveis que sejamos vamos estar sempre incrivelmente sozinhos, porque pensamos consoante os nossos pensamentos e não podemos usar mais nenhuma cabeça, e olhamos segundo os nossos olhos mas não podemos usar o olhos de mais ninguém, estamos totalmente encurralados dentro de nós, da nossa história, do nosso próprio corpo, da nossa própria mente, na nossa própria vida. Não podemos simplesmente escolher sair dela, apenas mudá-la, mas mesmo assim, não há forma de fugir de nós próprios. E mesmo sabendo disso, nunca paramos um segundo para olhar para os outros como sendo eles mesmos, uns seres tão únicos que não existe mais nenhum igual o qual num mundo tão inacreditavelmente gigante, não nos perguntamos como será acordar todos os dias no seu corpo, na sua cabeça, em sua casa, na sua vida ou o que ele pensa a adormecer. Só nós preocupamos com esta estranha necessidade de nos tornarmos real para o outro, de estender aquele braço, de construir aquela ponte como tentativa de provar um pouco daquele mundo.
Como se fôssemos todos realmente ilhas, vivemos na nossa ilha com a nossa história,o nosso passado, o que somos, os nossos sonhos, pensamentos, emoções e recordações, e vamos contruindo pontes com as outras ilhas, cada um constrói metade e tentamo-nos encontrar a meio. Às vezes resulta, e às vezes as próprias ilhas se juntam, como se fossem contra a natureza. Mas não deixamos de estar sozinhos dentro de nós mesmos, mesmo sem um segundo de solidão na nossa vida, porque só nos vivemos a nossa história, mesmo que outros assistam à mesma, só nós temos os nossos pesadelos de noite, mesmo que alguém durma ao nosso lado. A nossa capacidade de reflexão e memória, é o que nos distingue dos animais, e é o que nos faz tão sós. A capacidade de nos identificarmos como alguém, caracterizado por uma história, uma aparência, um passado e um possível futuro. Não a biografia, não os factos, ou não apenas isso. Mas toda a história de todos, mas todos, os nossos sentimentos, emoções, pensamentos, ideias, sonhos.
Não só a história de tudo o que já vivemos mas a história da história de como é que vivemos tudo o que já vivemos e o que isso muda na maneira como estamos a viver, e o que isso muda no que vamos fazer e que no que isso nos fará viver, e de que forma se irá refletir na forma como viveremos isso que vamos viver.
É ela o que nos completa, porque ela nos torna diferente de todos os outros. Podemos ter uma biografia parecida com alguém, mas nunca a mesma história, o mesmo percurso de sentimentos e pensamentos que cada um vive, é essa história que nos torna autênticos, que nos torna nós mesmos, mesmo que essa história seja modificada por outras histórias, essas outras histórias serão lidas por nós consoante a nossa forma de as ler

E em toda a liberdade e enriquecimento à nossa volta temos uma enorme falta de escolha, certezas, e verdade. Tão condenados a ser livres dentro da prisão que nós somos inevitavelmente, por termos sempre este pormenor que nos distingue dos animais e se chama consciência. A consciência presente mesmo nos sonhos, este espelho cerebral e emocional permanente em nós que origina a nossa memória, assim a nossa história, e, assim, nos constrói a nós.
No fundo, só a queremos partilhar, só não a queremos deixar morrer, só nos queremos tornar exteriores, é o que todos nós queremos, e é para isso que servem as atitudes, as relações, as paixões, os livros, os filmes,as palavras, e tudo quanto não é só pensado mas feito ou tornado real. não queremos ser uma ilha deserta no meio do nada da qual ninguém sabe da existência. Os outros são o nosso espelho, se não houver outros, se não houver um espelho, é impossível reconhecer a nossa própria cara, é impossível ser real.

domingo, 25 de julho de 2010

Sem abrigo

Andar é traçar um rumo e segui-lo, mesmo quando não temos um destino acabamos por fazê-lo, andar é como viver porque não podemos dar o passo que ainda não demos, apenas pensar nele. Às vezes, os caminhos mais escondidos e estranhos, mais duvidosos e assustadores, são esses que nos levam a sítios bem melhores e bem mais nossos, ou mesmo que nos levem a um beco sem saída ou a uma rua triste, nos fez conhecer bem mais do mundo do que aquele caminho que já saberíamos exactamente como era. (Os caminhos que estão traçados levar-nos-ão apenas onde alguém já terá ido)
Levamos todos uma mochila às costas, em que guardamos tudo o queremos preservar, pessoas, coisas, sentimentos, memórias, que importam numa fase da vida e muitas vezes passado um tempo deitamos fora porque afinal só nos estão a fazer peso nas costas e não nos deixam andar, e temos de as tirar da mala e seguir em frente.
E sim, é assustador, temos momentos de solidão e medo gigantes porque mesmo acompanhados e apoiados por uma multidão o caminho que escolhemos seguimo-lo nós e escolhemo-lo nós, e quem é que confia inteiramente em si mesmo? É mais fácil confiar e ser de confiança aos outros.
O nosso caminho era escuro estreito, esburacado, difícil de caminhar, mas só a presença um do outro fazia-nos caminhar nele como se fosse uma avenida alcatroada. E tudo o que víamos no caminho era tão bom, tudo do que enchíamos as nossas mochilas valia tanto a pena que nem reparávamos que elas estavam pesadas. Mas tu agarras em tudo o que vês a frente, o bom e o mau, sobrelotas a tua mochila de uma forma que nem a consegues fechar e guardar o que interessa, porque pões tudo lá dentro e nem olhas para o que cai, és mesmo assim. E às vezes,guardas coisas tão pesadas que elas se entranham bem no fundo da mochila, e são as únicas que não caem, pesam tanto que não te deixam andar nem evoluir, continuar o teu caminho, e ocupam tanto espaço que não te deixam guardar mais nada, ficam só elas e tu a arrastá-las nas tuas costas. E mesmo que em momentos de lucidez desates a correr apesar do peso, que leves a minha mochila e até mesmo por vezes a mim, depois sentes-te sem força e deitas tudo fora, até mesmo o que importa e é leve, e só elas continuam lá, como se só tivesse valor o caminho que escolheste percorrer se este tiver sido doloroso de percorrer, como se só merecesses viver se isso fosse difícil. Tens tanto medo de ser enganado que és enganado sim por esse medo. E largas-me a mão e tudo o que recolhemos para voltares para trás tudo o que andámos, já sem força nas pernas e sem ossos nas costas. Como se eu tivesse sido só uma pedra no sapato. E sabes? Prometeste-me em segredo e sem saberes que nunca levarias contigo pedaços da minha mochila, fizeste-me acreditar que podíamos partilhar o peso das mesmas e que era assim que chegaríamos ao nosso próprio rumo, traçando o nosso próprio caminho. Mas com as dúvidas com que não sabes viver e que existem, tu acobardaste-te, arrancaste-me não só a tua mochila das mãos como rasgaste a minha e tudo o que eu tinha se espalhou no chão. E deixaste-me lá sozinha, a meio caminho de onde que que fosse que nós iríamos parar, e fugiste para trás mais uma vez. Agora não tenho nada que me proteja do frio, não tenho luz sequer para apanhar as minhas coisas e escolher o meu caminho, não tenho forças para correr atrás de ti de novo. Então fico sentada no meio do caminho que escolhi, que foi um caminho onde tu existias, um erro que eu jurei que não iria cometer mas cometi, à espera que voltes atrás antes que anoiteça e à medida que o sol se põe com a certeza crescente que não o vais fazer. Pergunto-me onde estás tu, agora e o que guardaste nessa mochila com a porcaria toda que meteste aí dentro, e pergunto-me porque é que não me consigo levantar e inventar um novo caminho, e porque é que tu não te sentas cinco segundos e não abres a mochila, olhas á tua volta, e percebes de vez o que queres afinal. Mais tarde, acabaste por voltar, como se não tivesses chegado a partir, e esquecendo-te que desta vez fui eu que fiquei à tua espera.
Tinhas medo de te ter enganado no caminho? Pois eu acho que eu me enganei. Não sou eu, isto não sou eu.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Miguel

A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objeto torna-se realmente outro, porque o tornamos outro. Manufaturamos realidades.
F.P- o livro do desassossego
Sempre que ouço o meu nome não respondo. Odeio que me chamem, odeio que me arranquem de onde estou, do eu casulo. Passei a odiar o meu nome miguel, só essa palavra entranha-me os ouvidos como uma faca afiada. Dói de ouvir.
Entre mim e o mundo existe um véu, como se não conseguisse extrair dele o que preciso nem dar-lhe o que tenho. Puseram-me numa escola especial para pessoas como eu e não há uma só, uma única que algum dia me vá compreender. Porque sou assim, posso dar muito aos outros e dizer as coisas certas mas nunca vou ter a capacidade de extrair deles o que eles me dão, mesmo que aprenda com eles. Não existe partilha, não existe companhia.
Mas cada um de nós vive no limite da sua realidade, como se vivêssemos todos mergulhados na ilusão onde o resto do mundo apenas molha os pés. E olhássemos para eles, para a realidade, cá de baixo.A realidade é mais ou menos parecida para todos, mas a ilusão não. Não podemos entrar na ilusão de ninguém, nem na verdadeira realidade de ninguém.Como uma mistura de genes, acontecimentos, memória, história e como se viveu a história. Se a realidade de cada um, por si só, é como uma mistura de ondes, comos, quems e porquês, quanto mais as suas ilusões.
Não percebo se viver numa mentira é viver no mesmo mundo que os outros, no qual não acredito, ou viver no meu próprio mundo e passar todos os segundos dos meus dias a duvidar dele.
Só desejava ser invisível, intocável, não queria que ninguém se lembrasse de mim, não me queria lembrar de mim. No fundo sei que não posso ser tão omnipotente, esta minha ilusão que se quiser mesmo consigo mudar o mundo inteiro à minha volta e criá-lo dentro de mim à minha maneira.

Sinto-me congelado perante os outros e perante a vida, e tudo fica preso, a voz, o coração, a alma, o corpo. Só o pensamento, livre por si mesmo o continua a ser. Mesmo assim consigo persegui-lo e tentar manipulá-lo. Estou cansado, cansado de não poder achar bom o que para mim é bom porque tenho de passar a achar outras coisas boas que nem sequer acho boas. Cansado, cronicamente, de sempre que sinto estar genuinamente certo e ter medo da doença que os médicos acusam. Doente? Tenho apenas 10 anos. A loucura, porcaria da etiqueta da loucura que me segue como um íman magnético e eu fosse um bloco de ferro. Onde querem que eu seja feliz cá fora? Que espaço é que a realidade guardou para quem não vive nela nem dela? E como posso eu falar de realidade se dizem que não tenho a sua consciência? E porque é que penso isto mas nunca conseguirei dizê-lo ou escrevê-lo?
Da loucura? Todos temos medo da loucura, de uma forma ou outra. Todos temos medo de fazer algo que ainda não foi feito, por termos o medo de sermos rotulados. Todos temos medo de deixarmos de ser fiéis a nós mesmo, de não nos reconhecermos. Ninguem se quer perder. Todos temos medo de nos desligar-mos de todos os padrões e regras interiorizados em nós e nem nos passa pela cabeça fazê-lo.
Porque é que temos tanto medo de nos perdermos? Sabemos que ninguém se perde de verdade, ninguém mesmo, que todos traçam as linhas à sua maneira e loucos são aquele que contornam as linhas rectas sobre as quais acham que por já estarem traçadas devemos andar. Pois e se não tiverem essa linha? E se forem como eu, que nasceu sem linhas em que caminhar e das quais seria perigoso um desvio, mas assim, alguém que traça as próprias linhas curvas e tortas como um bebé que pega num lápis pela primeira vez. Somos humanos, não somos automóveis, nós não temos defeitos nem qualidades, nem garantias, nem cupões de desconto. Só temos um conjunto de genes, características e histórias que nos definem e nos tornam quem somos. Porque afinal não somos muito mais do que isso, do que a nossa história e o que ela muda em nós a cada segundo que passa, e é isso mesmo, a nossa história que permanece anos depois de morrermos. É a história da Humanidade que ficou, de todo o passado que existiu. Até de um escritor, o que fica é o seu livro. E eu quero construir a minha à minha maneira, eu confio no que a minha vida quer fazer da minha história.

Confiar na vida não é desistir dela, e confiar em nós.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Mãe


Sempre foste a pessoa sobre e a quem quis escrever. Nunca consegui escrever sobre ti porque é mais fácil escrever do passado, do futuro, de algo que não pertence ao momento presente. Tu estás sempre presente, tanto que ás vezes já nem reparo que estás, como a minha luz de presença, que nunca deixa o quarto escuro e que não me deixa perder dentro dele. Não me resta espaço para fingir perante ti, aí é fácil ver perfeitamente bem o que e quem sou. A tua voz deixa-me um rasto que sigo e que se torna a minha voz também sem eu dar conta.
É próprio de mim, nunca fui capaz de ouvir ninguém, sempre pensei que só eu e que sabia, que so eu me conhecia. Mas de alguma forma as vozes ecoam na minha cabeça e mesmo que não as ouça na altura ouço-as depois, só que por vezes se tornam tantas que já não sei qual me pertence.
A tua destaca-se e sobrepõem-se, mais clara que todas, porque é a voz que eu escolho. A tua é a única que, de alguma forma, se funde com a minha voz e a vai afinando, melhorando, aperfeiçoando, e fazendo gostar dela. Porque até mesmo em silêncio me vais ensinando a como ser alguém melhor. Gosto de ti e da ideia de ti, tudo o que tu implicas e até o que fazes, mesmo os teus erros. Não tens propriamente sorte, talvez eu tenha mais. Mas é por isso que és tão melhor do que eu.
Imagina um mundo onde tinhas exactamente tudo o que querias.

Agora imagina-te a viver nele por um dia, dois dias, e para sempre. Os dias seguirse-iam iguais.Não havia aquele q.b. de frustação e de obrigação de realismo que torna o sonho tão doce. Não havia sonhos. Sonho é a nossa resposta à dificuldade. Foi essa dificuldade que te tornou os sonhos tão simples de concretizar, e talvez a mesma falta de dificuldade que me fez sonhar demais.
É a tua concepção de vida.
E toda a gente tem a sua concepção de vida mas ninguém acredita piamente nela.
Para um pintor a vida, não é uma linha traçada com uma régua, direita e pela qual devemos andar. É só uma grande folha em branco, na qual vamos traçando uma linha curva e contínua, sempre influenciada pelo que já traçámos e não podemos apagar, sempre e que inlfuenciará a estraçada traçada em papel que a nossa vida será. Em cada troço de vida imeninte sempre toda a vida que lhe está latente, todas as sensações, medos, esperanças e fantasias em cada segundo de vida e mesmo naquele em que dormimos.
Para alguém que passeia nos bosques a vida é isso mesmo, um bosque, de beleza profunda na qual raramente temos tempo para reparar, e quando reparamos, concentramo-nos nos caminhos a seguir, que podem ser milhares e somos nós que os escolhemos, e eles bifurcam-se, e entrelaçam-se e nunca saberemos onde é que vão dar. Por vezes nem têm saída e é necessário trepar e escalar para encontrar um novo trilho. Às vezes os mais pequenos e acidentados conduzem aos melhores sitíos, a grande clareiras. Mas por esses ninguém vai, toda a gente vai pelos caminhos mais largos por haver mais gente a ter neles caminhado, seguros, mas só conduzem aos sítios onde já alguém foi.
Mas no momento a seguir, existe sempre uma pressão constante a querer abrir-nos os olhose que nos obriga a traçar linha, a dar o passo. E é isso que consegues sempre.
Mas tu não queres saber, tu gostas de fazer coisas, ou descobrir coisas, ou acreditar em coisas, ajudar pessoas com coisas. É por isso que nos ajudamos uns aos outros e é por isso que a ciência não é mais que outra religião, a única que se vai modificando, mas que nem por isso deixa de seguir dogmas, leis, padrões, que caso questiona, se perde. Porque é tudo para nos preencher, e tu fazes isso a toda a hora, preencher coisas, preencher-te com coisas. Coisas boas, coisas que valem a pena. Coisas tuas.
E as tuas coisas mãe, são as minha preferidas, as que me tornam quem eu sou, as que não dispenso, as que admiro, as que eu sei que nuncavou esquecer, porque são muito mais que coisas.
Obrigada

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Praia


Se me perguntassem onde queria viver, respondia que gostava de viver em ti, como um fastama invisível ao teu pensamento que vivia rodeado de ti e do teu mundo sem te aperceberes. Viver em ti seria como viver no mar. O mar, espaço infinito de invejável solidão e independência, de insistente tentativa de alcançar o mundo inteiro, de engolir toda a terra. Com o pulsar das ondas pulsam os pensamentos e no seu rugir o bater do coração. O mar, tu, o meu mar, muda, com as marés, fases e ondas, mas a sua água é sempre salgada, é sempre a mesma água, a mesma água salgada pelas lágrimas a mesma água pura e límpida como cristal. Viver em ti seria isso mesmo, viver no mar, de tal forma envolvente que ao molhar os pés à beira-mar já sinto fazer parte integrante do oceano, como que se puxasse por mim, como se fosse eu também mais uma gota de água. Sou facilmente controlada pelo mar ( e facilmente controlada por ti) e mesmo quando os dedos engelham e enfraqueço de frio, recuso-me a sair dele, de toda aquela beleza e perfeição de que sentimos fazer parte, eu e o mar ( e eu e tu), como se o tempo e o mundo esperassem por nós e deixasse que apenas existesse nele as ondas, o silêncio do seu rugir e das nossas palavras. Nunca sei onde o mar me leva, e isso às vezes faz-me voltar a terra por medo, só existe o seu movimento perpétuo, a sua instabilidade, mas apesar disso a sua profunda lei que se mantêm inalterável ao longos dos anos. A sua verdade.
Vivemos nisso mesmo, no dia a dia em terra, mas quando juntos, num oceano do qual desconhcemos limites do qual temos um medo gigante de nos afundar.
Mas ao longo deste tempo todo, já provámos que nos salvamos sempre mutuamente.
Figuradamente, parecemos duas metades de uma bola, duas metades cheias de falhas e buracos com a forma do outro, que no fim encaixam na perfeição e formam uma bola gigante e oca, segura, que armazena a vida de cada um de nós e a vida que partilhamos também. Separados, somos duas metades esfarrapadas, que deixam a vida escorrer entre as falhas, o tempo escoar as lembranças e aquilo que somos, facilmente arrastadas pelas tempestades do mundo exterior. Separados ,perdemos a capacidade de rebolar vida adentro, perdemos aquele espaço oco em que podemos contar com tudo o que temos e ao qual podemos acrescentar todos os dias algo novo, em que nada nos escapa. Perdemos a nossa imunidade, a nossa força, a nossa realidade.

Não cabe


Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas para dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito. Fernando Pessoa (Bernardo Soares)

Às vezes o mundo explode, o universo parece condensar-se na minha cabeça e apetece-me passar tudo para uma disquete e ver tudo depois, como que relendo. Dói-me a cabeça, dõe-me as palavras, a necessidade delas, e a sua insuficiência. Dói-me a vida e o que poderia fazer dela. Dói-me o mundo e o que estão a fazer dele. Apetece esterealizar-me, desinfectar-me de consciência, limpar-me de verdade e despir-me da curiosidade que me mantêm tão acordada para o mundo mas tão distante dele.
A necessidade de justificação, e a estranha sensação de perceber o universo,a vida, e o homem como se percebe um problema de matemática, a pouca duração dela. Será que todos conhecemos essa sensação? Será por termos inscritas em nós as leis do universo? Se estão na natureza, se estão em toda a extensão cósmica, também haverão de estar inscritas no nosso pensamento e consciência. Afinal, tudo evolui segundo leis do mais simples para o mais complexo e por isso é que evoluimos dos macacos, mas regimo-nos pelas mesmas leis.
Os átomos juntam-se para formar algo maior, nós também, as plantas respiram, nós tambem, os animais reproduzem-se, nós tambem, mas nós evoluimos e fomos dotados de ter consciência disso.
Mais complexidade, mesmas leis. Todo o pensamento, ciência ou religião nunca pode ser mero acaso, apenas e talvez uma interpretação mais dissimulada. Mas a evolução continua, caminhamos para a total consciência de nós mesmos e da Humanidade, e afinal, deve ser esse objectivo dessas leis. O nosso papel é descobri-las, tenha sido deus ou o que for do que surgiu este tudo tão imenso. Dotando-nos de consciência, também nos inscreveu obstáculos, o facto de sermos todos distintos e únicos, que nos faz ter a necessidade de primeiro descobrir a nossa existência e essência e só depois (e raramente) nos lembrarmos de que existe algo que é comum a todos os seres Humanos,independentemente de existirem ou não, sem espaço, tempo, ou sujeito, a Humanidade em si.
O animais nascem completos, biologicamente, sem mais nenhuma componente a preencher. Nós nascemos com muito por preencher, e habituámos a preenche-lo com aprendizagens de todos os géneros. Depois precisamos de uma orientação, de um sentido, para não nos preenchermos de qualquer forma. Com medo de tudo o que poderemos estar a perder tentamos manter coisas, pessoas, relacionamentos, e isso preenche-nos. Temos o sentido por garantido? Não. O sentido da vida acaba por ser procurar o sentido da vida. É essa sensação de insatisfação crónica no dia-a-dia que nos faz procurar conhecimento, produzia arte, desenvolvimento. O que se passa? Porque é que já ninguém está insatiseito? Queremos e desejamos ser únicos, marcar, daí surge a violência, marcamos as nossas diferenças, uns dos outros e da restante da natureza da forma errada. Sermos diferentes não significa que não façamos parte do mesmo. Onde está a globalização no que realmente importa?
Exacto, temos em nós a verdade do mundo, e este é uma fonte absolutamente inesgotável de algo a fazer. Porque é que nos limitamos a fazer sempre o mesmo?
Às vezes pergunto: mas o que é que passou pela cabeça do primeiro primata que se decidiu levantar e olhar o mundo de uma perspectiva totalmente diferente e mais elevada?
O cérebro é muito parecido para todos e o mais estranho é que todos funcionamos de forma parecida. Ninguém passa um milésimo de segundo sem pensar, sem fazer uma leitura astronómica da memória de toda a sua vida, mesmo quando não dá por isso e até a sonhar.
Sabemos que para além das leis físicas, da gravidade e velocidade, têm de existir leis metafísicas, leis da emoção e do pensamento que se mantenham inalteráveis tal como às outras. Jesus Cristo, Sócrates, Einstein, Buda? São só interpretações mais profundas, como pequenas experiênciasm, que nos enriquecem de forma incalculável.
Estou amuada por não saber nada, quero fazer birra com o universo e com a ideia fantástica de nos pôr num mundo e de nos obrigar a morrer sem nos dar tempo de o descobrir totalmente. Desmancha prazeres.

domingo, 6 de junho de 2010

Paris


Não se lembrava de fazer parte de tanta beleza, nunca na vida. Por momentos sentiu-se no interior de um filme dos anos 30. O seu quarto devia ser o melhor, através da janela era possível sobrevoar toda a cidade. O pôr do sol? Nunca vira nenhum tão esplêndido, o céu sussurava-lhe numa explosão de cores e os reflexos da luz no rio Sena faziam Ricardo esfregar com mais força os olhos. Sentado na varanda, com um copo de champagne, Ricardo percebeu que já fazia parte da magia de Paris, sobrevoou mais uma vez a Torre Eiffel com o olhar e foi aí que sentiu um vazio que não conseguia reconhecer. Não era solidão, o quarto, lá dentro, estava cheio de pessoas, e Ricardo só desejava que elas o deixassem sozinho.
Irritado com a sua insatisfação crónica, sentou-se. Tinha ido para Paris para fugir dos ciclos viciosos que a memória e a consciência nos fazem tomar, para encher o seu peito de beleza que o limpasse totalmente, que o preenchesse de vitalidade com a vontade de ver o tanto que havia para ver naquela cidade. Mas os dias passavam e as tardes pareciam arrastar-se, como se já tivesse visto tudo o que havia para ver, e a beleza, parecia não o conseguir alcançar.
Sentia-se um fantasma com tanta leveza, de algum modo toda aquela liberdade assustava-o, sentia-se perdido com tanta falta de indicações. O que é que faltava? Ele não precisava dela. O que sentia era como uma espécie de doença que não era maligna, chegava e partia, doía e não doía, incomodando muito mais quando pensava nela. Ela também nao precisava dele. Eles eram assim desde sempre, entregues a si mesmos, era assim que viviam, creciam, e gostavam.
Sabia que Liliana se questionava como é que era possível alguém ser tão frio. Ela não percebia, nunca ia perceber, ía chegar a todas as conclusões erradas, mas e então? Ele não a queria mais na sua vida. Precisava de paz e segurança, e não queria procurar essa paz e segurança nela, mas o facto é que sentia uma paz e segurança bem maiores nos seus braços do que naquela varanda, com Paris a seus pés. Estavam ambos congelados, parados no tempo, frios, e sem se conseguirem mover, que impulso de quebrar todo aquele gelo.
Perseguia-o essa sombra, de quem não podia fugir mas era totalmente impotente para agarrar. E quando nos persegue uma sombra, o melhor é fechar as luzes, e parar de fugir da escuridão. Com isto, acabou por adormecer.
Estava simples, de calças de ganga e camisa branca, cabelo solto e pernas cruzadas, com os olhos num livro, numa esplanada perto da Catedral de Notre Dame, mal a distinguiu entre o resto da multidão o ritmo do seu coração acelarava de tal modo que tudo à sua volta parecia mil vezes mais lento, aproximou-se e a garganta não emitia um som, ao contrário do que calculava, ela aparentava esperá-lo. -Então?- perguntou, levantando os olhos, num misto de tristeza e curiosidade
Ricardo pensou em tudo o que podia dizer, depois de parar no tempo, forçou-se a reagir, encolhendo os ombros com um inevitável sorriso ao olhar para a expressão de Liliana, nunca existiram tantas emoções diferente entre duas pessoas só
. - Hum.. Então? Sabia que ela esperava alguma coisa, ela tinha de lhe dizer, tinha de o fazer. Mas apenas a conseguia olhar em silêncio. Apesar de todo o nervosismo, era tão bom estar ali. Liliana entendeu que não valia a pena esperar por uma resposta, que não a ía ter, limitou-se a sorrir e a estender a mão em direcção ao seu ombro
-Ouve, eu vou ser sempre só aquilo que fizeres de mim na tua cabeça, para ti sim, mesmo que seja muito mais do que isso e mesmo que para mim sejas mais do que isso. Não importa, nós somos assim, incompletos e precisamos de nos completar com os outros. Sabes? Os outros são como reflexos pequeninos de partes de nós, e quando olhamos para reflexos diferentes, vamos conseguir sempre perceber reflexos de nós mesmo diferentes, e isso vai-te fazer gostar mais dos outros e de ti. Não te marterizes por precisar dos outros, ninguém quer estar sozinho porque precisamos de referências para saber que estamos a fazer as coisas bem. Somos demasiado livres e conscientes para não precisar de algumas indicações, algumas linhas traçadas. Não quero ser a tua vida, nunca quis, não quero tirar pedaços de ti, nem que tires pedaços de mim, nem da minha vida. Quero apenas que dês sentido à minha vida, quero-te a ti, na minha vida. E preciso. Leva o teu tempo, mas não cortes as nossas raízes. Um amor tão grande não pode morrer assim de repente, pois não? Não me entendas mal, meu bem, nunca disse que tínhamos vivido uma mentira, muito menos que não acreditava em ti. Acredito, mais do que em mim mesma. Deste-me muito mais do que julgas. Não tenhas medo de espalhar sementes mesmo que elas não cresçam, mesmo qe só sequem a terra, porque, quando menos esperares, olhas à tua volta e tens uma clareira, segura e ampla. Eu não quero ser a tua gravidade, não te quero puxar para baixo e para o mundo real, não te quero esmagar com leis da natureza nem exigir-te coerência, e desculpa se o fiz. Não existe isso em nós, coerência, existe mudança, sentimos as mudanças no nosso corpo, sentimos as mudanças em toda a natureza, e em nós e na vida, e em tudo. Mas a mudança muda alguma coisa, certo? Não somos só um momento desprovido de tempo e espaço, Ricardo, não somos só um grande alguma coisa vindo do nada. Mas por sermos muito do momento é que precisamos de marcar coisas, marcar momentos para não nos fugirem, precisamos de nos ligar às pessoas, é o que dá sentido à vida, é o que a faz passar de momentos. Do nada, nada pode nascer. E de nós nasce alguma coisa a todo o instante, boa ou má, é alguma coisa, que nasceu de alguma coisa, não é algo que se possa deitar para o lixo, mesmo que o seu valor mude. Não sei se te sou indiferente mas se não for, vamos ser nós sem fugir um do outro, ou tentar. Porque somos também muito um do outro. Leva o teu tempo, o que quiseres, pode ser?
Acordou em sobressalto mas mil vezes mais calmo. Percebera que nem sempre era preciso fazer algo para mudar algo, e que por vezes não precisamos de ouvir nada. Só precisamos de recordar o que nos foi dito milhões de vezes e nunca ouvimos.

sábado, 5 de junho de 2010

Alter ego


É legal, alguém mudar de pessoa em que vive?
Estou cansada desta rotina, de viver há 17 anos na mesma pessoa.
Nem gosto dela por aí além, principalmente quando decide acordar com borbulhas. E está sempre a discutir comigo, constantemente.
Muito gosta ela de me chatear a cabeça, de me fazer perguntas. Não sabe fazer nada sozinha, tem de pôr em causa tudo. É uma seca, a míuda, ouçam, é uma seca.
Vim aqui parar, não é lá grande coisa.
Ela fala, fala, fala, eu falo, falo, falo, e estou farta de conversa. E de discussões, e zangas nossas. Sim, porque com isto tudo depois ela é que fica com a acção. As palavras dela, ultimamente, não me encaixam no ouvido. Tornaram-se barulho na cabeça e mesmo ao escrevê-las continuam a incomodar-me. Já não consigo ouvir-me nem ouvi-la, muito menos ler o que escreve, é uma miuda presumida que acha que sabe escrever. Aliás, que acha que sabe fazer alguma coisa.
Olhem, eu digo-vos: não sabe! Por amor de deus, quem é feia tem o dever minimo de fazer alguma coisa para compensar, não é?
É o que eu acho, mas ela continua a dizer-me que não adianta eu continuar a queixar-me. Pois, obrigada, a mim ela sabe que vai ter o resto da vida, não tenho escolha, vou ter de viver com ela até ao dia da sua morte.
Às vezes queria muito, acordar e viver dentro de outra pessoa, dentro de outro corpo, dentro de outra vida, dentro de outro contexto.
Só para quebrar a rotina, porque afinal, o contexto faz parte de mim. Faz tudo parte de mim, ela também, ou essencialmente, ou unicamente.
E se calhar, até podia ser pior.

A arte que é viver


Nunca a dança teve tanto significado

As obras de arte são uma infinita solidão: nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica


Tudo depende da forma como olhamos para esse tudo e do modo como o tentamos marcar. Afinal, é só isso que queremos e tentamos, marcar, eternizar, fazer valer a pena. Não só beber a vida de um trago e ver o que ela nos trás. Por muito que queiramos viver assim, por muito que procuremos isso e nos enganemos a nós mesmos, não faz parte de nós. Porque somos assim, não somos animais (ás vezes antes fôssemos) e sabemos que houve um passado, que ocorre um presente, e que a ele se segue um futuro. Tentamos marcar o nosso presente, todos tentamos, não vale a pena negá-lo, com atitudes, expressões faciais ou corporais, palavras, acções, e depois e a um nivel diferente, música, dança, cores, formas, diferentes tipo de arte que se ultrapassam umas às outras e interligam, quando a arte quotidiana se torna insuficiente, na obra de arte que, afinal, é a vida de cada um.
Trata-se apenas de um momento fotográfico. Ao fotografar estamos inclusivamente dentro do momento, até que pressionamos o botão e, aí, somos elevados a algo tão alto que nos exteriorizamos do mundo e do presente, deixamos de pertencer ao momento e deixamos de ser “nós, ali, assim”. E a forma como vemos tudo, muda. É o que acontece quando pensamos. Estamos no mundo e no momento presente da nossa vida, e a partir do momento em que refletimos, em eu começamos a pensar somos sugados desse momento presente e levados para um mundo interior e paralelo, observador, desprovido de tempo, de futuro e passado, desprovido de nós mesmo, desprovido de vida provido apenas de um apego ao verdadeiro.
Depois de terminada, resta sempre algo da obra de arte que foi a nossa vida, e contém nela toda uma possibilidade de interpretações, recordações, emoções e experiências estéticas a quem a observar.
Viver, essa sim, é a verdadeira obra de arte, na suprema obra de arte que é a vida humana. O animal representa o instinto, a sociedade o homem, o intelecto a arte.
Falar é arte, sorrir é are, andar é arte, sentir é arte, comer é arte, porque é tudo demasiado belo para ser só nada.
Quem somos nós para criticar alguém? Para julgar a sua arte? Quem somos nós para calcular o seu valor ou significado se não existem vidas com mais valor do que outras? Porque dentro de cada um, reside o valor dela, mesmo que não o percebamos, mesmo que não seja o nosso.
As obras de arte são reflexos de uma parte do artista, as palavras são reflexo de uma parte do nosso pensamento, a vida é apenas um reflexo daquilo que realmente somos.

Se eu não odiasse teorias esta era a minha

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Maria


Maria era bailarina profissional. E era assim que seguia a sua vida, sempre no seu próprio mundo e concentrada nos seus movimentos mas nunca deixando de seguir a música que a rodeava no momento. Rafael era diferente. Rafael ora impunha e sobrepunha os seus movimentos à música, ora se limitava a guiar levemente por ela sem a contrariar uma única vez. Foi exactamente isso que talvez, os fez apaixonarem-se. Não foi uma história de amor, talvez pudesse ter sido, mas começou tarde demais para o ser.
Por fracções de segundos, às vezes, o movimento não encaixa na música e toda a dança perde o sentido.
Entre espetáculos e bailarinas, cenários, máscaras, e maquilhagens, Rafael parecia ter descoberto um novo mundo. Antes diziam que eram fadas na vida um do outro, agora, Maria mantinha-se como uma sombra que o acompanhava quer ele quisesse que não.
Maria sentia-se em luto, num luto de sonhos e ilusões, de ideais que colocara em alguém de tal forma que este se tornavam reais. Sentia-se como que na coreografia ideal, na qual acreditava de tal forma que os passos de dança lhe brotavam no corpo sem esforço, mas que, por alguma razão, simplesmente não conseguia dançar.
Encharcada da chuva lá fora, Maria abre a porta de casa e corre para uma caixinha de madeira em que prometera guardar as memórias de si e de Rafael, em que acabava sempre por não guardar nada, quer dizer, nada material, porque muitas vezes abria a caixa e falava com ele em voz baixa, guardava a sua voz nela e mantinha-a junto à janela, para nunca se esquecer de nada. Maria gostava de ir, gostava de partir, muito mais do que chegar e claramente mas do que ficar. Ela decidira que não tinha escolha, ía embora, não suportava mais ser sombra e reflexo de si mesma. Precisava de ter para si mesma uma resposta a toda a superficialidade que agora ele representava, uma resposta ao fim que ele escolhera para ambos. Precisava de fazer o seu luto.
Abriu a caixa e entreabriu a janela, a chuva encharava o chão da casa e anoitecia. Quase inaudivelmente, Maria sussurrou:
“Tenho o hábito de continuar a falar contigo quando já estás debaixo de terra, fechado num caixão, enterrado por ti mesmo, sem levares contigo um único pedaço de nós. Desisti de te levar cartas e flores, desisti de pensar que por uns segundos, vais querer abrir o teu caixão e deixar-me falar contigo, e ouvir-me. Foi a tua escolha.
E eu, eu não tenho escolha, não há escolhas quando há morte, só falsos ponto de fuga. A única escolha é fazer-te luto, perceber e aceitar que já não ouves nem falas, que já não te vais mover mais dentro de mim, é saber que não vai haver outro toque, o toque da tua mão e o seu ritmo diferente, um ritmo que passa directo da minha própria pele para a minha alma, que nos faz ter o mesmo ritmo e ouvir o mesmo som, ver as mesmas cores, e o mesmo mundo, o nosso mundo, que não foi ainda enterrado porque eu não quis que o arrastasses contigo, esse toque alimenta-me, sustenta-me, mantem-me, e esse toque chega-me. O ritmo do teu toque chega a mim pelos ouvidos, pelo tacto, pelo olfacto, pela visão. O ritmo do teu toque é o ritmo ao qual eu gosto de dançar. Mas os mortos não dançam. Tu já não danças comigo.
Aprendi a aceitar e respeitar que já não estejas, a aceitar o teu silêncio, a aceitar a tua morte voluntária em mim.
Nunca achei que o amor precisasse de lutas, não se luta por amor: ou há, ou não há.
A dança, no amor, é aprender a conhecer o ritmo um do outro, e saber como acompanhá-lo, saber de repente mais do outro do que ele sabe de si próprio, e descobrir que ele conhece de nós algo que desconhecíamos.
Não há coreografias, só se dança, só se ama sem ser preciso passos nem tempo certos, jogos de se fazer interessante ou de medir forças, teimosias, ou poderes, cânones ou efeitos. Tu sempre quiseste criar as nossas coreografias.
Eu sei que gostas de mim Rafael, porque eu nunca tinha desistido de ti, porque eu acreditava incondicionalmente em ti, porque eu gostava, realmente de ti e nós gostamos de quem gosta de nós, porque somos escolhidos para ser gostados e ser-se escolhido é bom, ser-se gostado também.
A minha ilusão sobre nós foi o meu erro, não o teu. Não te posso atacar a ti pelo meu erro, pela minha incapacidade de discernir o passado do presente do futuro, de ver tudo num só, numa miscelánia bem pura a que chamo verdade. Queria não dramatizar mas não consigo, sou uma bailarina. Já não nos vês, já não nos ouves, já não nos sentes. Eu vou fechar o teu passado e a minha ilusão nesta caixa, é o mínimo que posso fazer, para conseguir fazer o teu, e o nosso luto.
Adeus, e até ao dia em que nos devemos voltar a encontrar.”

Abriu um pouco mais a janela, e deixou por ela cair a caixa que tinha em mãos, o que tivesse de ficar, ficaria.

domingo, 30 de maio de 2010

Querido viajante


Não é do meu hábito dedicar textos, muito menos publicar cartas. Mas também não o era sequer escrevê-los, muito menos terminá-los, e para mim um blog era algo de tão impensável e inadequado a mim como tocar piano, e eu toco no entanto.
Chamar-te pai não encaixa, não me lembro de alguma vez me sentares no teu colo e me contares uma história, ou de me dizeres que não tenho idade para ter namorado, nem sequer de me ralhares ou de me ordenares para arrumar o quarto, chamar-te viajante faz-me sentido, demasiado sentido, quando a tua imagem surge.
És o viajante de corpo e alma, mesmo quando estás e ficas, continuas a sê-lo, sempre o foste.
Estar contigo é parecido a estar sozinha e estar sozinha faz-me sentir contigo de algum modo, porque estar contigo é tão raro e rápido que se torna numa espécie de acontecimento à parte do real, mas quando vais embora continuo a viver cada segundo contigo até voltares. Tu nunca sais de ao pé de mim e eu pensava que nem sequer chegavas a estar, tu estás em tudo o que faço e às vezes nem me lembro que existes.
Querido viajante, tu és assim, voltas sempre a mim e ao meu pensamento. Ensinaste-me a viajar, a ser nómada de alma como tu, a gostar demasiado de desaparecer, mas ensinaste-me, a tal como tu, a voltar sempre a casa. E ensinaste-me a ser tudo do que és que eu não queria ser, ensinaste-me a guardar, ensinaste-me a olhar com os teus olhos de solitário, ensinaste-me a tocar piano, e agora, com a tua ausência, ensinaste-me a escrever também.
Nada disso, nunca, tu me quiseste ensinar, mas tudo isso, desde sempre, me fizeste aprender.

Sei que vais voltar como voltas sempre, mas hoje sinto a falta das tuas palavras que me deixas como sementes e que depois crescem, só passado muito tempo. Tenho saudades de as ouvir sem ser com as interferências das minhas barreiras para contigo ou do maldito satélite que se decide desligar de cinco em cinco segundos. Eu odeio quando me ligas e não atendo, odeio quando atendo e se perde o satélite, odeio quando eu procuro e não estás, e quando tu procuras e eu não estou, odeio quando nos cruzamos num caminho imaginário e nos desencontramos por segundos, odeio quando nunca mais voltas.
Por isso não demores, querido pai, que hoje, eu quero mesmo muito que voltes

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Anoréticos mentais



"Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes.[...] Por isto, contudo, amo-os a todos. Meus queridos vegetais!"
Fernando Pessoa



Nunca me tinha apercebido do bem que me fazia escrever, é como falar comigo e nunca deixar aquela fome de interesse em toda a gente a minha volta que tenho sentido chegue realmente a apertar o estômago e a enfraquecer-me.
Mas à medida que o tempo passa, as pessoas circundam-me e falam e fazem coisas que eu já não consigo ver nem ouvir, muito menos querer ver ao querer ouvir. Deixei de ter essa capacidade e isso faz-me querer remodelar-me e ter nascido assim também, uma formiga, que se cruza com as outras, acompanha-as durante momentos, mas nunca consegue ir muito mais além do que gosta de fazer e do que tem de fazer, e nunca, nunca pára um segundo.
Sempre odiei pessoas que julgam outras pessoas, mas ao odiá-las só provo a mim mesma que também as estou a julgar porque elas julgaram alguém e isso leva a ser eu a julgar-me e odiar-me por isso. E é uma seca.
Mas fogo, como é que é possível de toda a gente à minha volta não existirem pessoas?
De toda a gente à minha volta ser tão raro, mas tão raro, uma que saia do cubículo preto e que consiga olhar de fora, de cima, de lado e de frente para o real e o irreal.
São anoréticos mentais e bulímicos verbais. Porque não têm apetite de conhecimento, não existe um minimo de curiosidade e tudo a que lhes resta mentalmente é apenas aparente e enfraquecido, para além de que se olham ao espelho e vêm a falsa imagem de robustos.
E bulímicos, porque comem palavras que não chegam a digerir, e vomitam-nas sem as continuar a perceber.
Ou se calhar o problema é mesmo meu e acredito que seja, que gosta de agarrar cada migalha de vida como se fosse a última e procurar restinhos para mim em todos os pratos.

Já ninguém se revolta, ninguém questiona ou procura, já ninguém evolui, talvez nem eu, mas ao menos não podemos dizer que não tentei.
E eu, eu tenho sempre fome, fome de interesse e curiosidade, fome de realidade, fome de pessoas com fome.
(Hoje estou de mau humor, amanhã, isto passa, eu sei que não é o meu género)

domingo, 23 de maio de 2010

Jogos de crianças



"Benditos os que não confiam a vida a ninguém. É nobre ser tímido, ilustre não saber agir, grande não ter jeito para viver." (Bernardo Soares, Fernando pessoa)


Amar é estranho, estranho e estranhamente egoísta. É o egoismo de precisar de alguém, de não aguentar mais não partilhar, não criar raízes, laços, não eternizar aquela estranha fusão de dois mundos que se vão conhecendo e lentamente misturando até se tornarem inseparáveis. Dois caudais que acabam por, durante alguns segundos, correr no mesmo leito mesmo que seja só mesmo, exactamente por alguns segundos.
Às vezes quero muito entranhar-te em mim. que me acompanhasses e eu a ti como duas fadas, duas faces da mesma moeda. Por dentro ouço-te e falo contigo e pensar que era possível estares agora comigo procova um misto de vontade de correr para ti e correr a fugir de ti.
Sempre gostámos de jogar ao toca e foge e é sempre num mar interior que o rio da minha vida desagua, que o nosso rio desagua em mim, sempre.
Porque desde sempre que me ensinas a sermos dois num só e eu te ensino a sermos dois em cada um de nós, a haver um eu em ti e um ti em mim juntamente com o eu em mim e o tu em ti.

Corro para ti decidida a entregar-te a minha vida, depois de ta dar arranco-ta sempre das mãos, tal como uma criança que oferece um saco de doces ao amigo, e quando este os começa a remexer o arranca das suas mãos e corre para as comer sozinha.
Não somos muito mais do que isso, duas crianças curiosas pelo saco de doces do outro e com uma necessidade de partilharmos o nosso próprio saco de doces. Mas eu tenho a certeza que o que desejamos mesmo é comprar um grande saco e misturar-mos os doces no mesmo saco, sem temermos que o outro devore o nosso, porque confiamos que ele sabe o que lhe pertence, o que não lhe pertence, e o que pertence a ambos.
Tenho saudades dos nossos jogos de criança, vontade de fazer birra. Deixas-me incrivel e impressionantemente mimada e tornas-me uma autêntica criança. No entanto, a criança maior que já existiu.

Pelos olhos de um bocado de céu


Percebe,
"nunca ninguém se perdeu,
tudo é verdade e caminho"
Ninguém que verdadeiramente venceu
o conseguiu fazer sozinho.
Dá sentido e preenche,
procura sentido,colore,
enche,enche, enche.
Inspira e expira a inspiração.
Enche com mais do que ar cada pulmão.
Sente a vida inteira na palma da tua mão.
Eterniza cada imagem e fotografa a alma agora.
Faz da tua vida livro, filme,
e se quiseres chorar, chora.
Segura o bem com força
para o vento do tempo não o levar,
porque é só a ele que te podes agarrar.
Segura a verdade
porque é só nela que podes acreditar.
Não precisamos de asas
para poder voar.
Não precisamos de alguém a ouvir
para poder falar.
Não é preciso ter sonhos para conseguir sonhar.
Comtempla-te com atenção,
como se não fosses tu a contemplar.
Olha para ti
pelos olhos de um bocado de céu
Diz-me como te verias agora,
se eu fosse tu, e tu eu.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Inalcançabilidade do instante


O ser é algo de tão leve, de tão momentâneo, que o podemos mudar só de nos olharmos ao espelho com outros olhos. Todos temos em nós a capacidade de sermos quem desejarmos e a de deixarmos de o ser quando quisermos. Desde que nascemos que vemos no mundo obras de arte em tudo o que percepcionamos e magia em tudo o que sentimos. Todos os momentos representam por si só as mais fantásticas fotografias, sinfonias, quadros, esculturas, teatros ou todas as obras de arte que os homens constroem para conseguir imortalizar um instante por este ser tão inalcançável. E é essa inalcançabilidade que faz o instante tão precioso, porque é tudo o que temos a cada momento, é aquele instante presente, resultado de todos os instantes anteriores e possuidor de todas as hipóteses de instantes futuros, não existe, de facto, nada mais poderoso.
O instante presente contêm em si toda a arte e magia latente no mundo, e nós imortalizamo-lo ao criar laços, obras de arte, futuros, destinos, crenças, sabedorias, que nos fazem sentir dominadores desse mesmo instante, e criar um mundo à nossa volta.
São precisos biliões de pessoas para construir o mundo circundante à nossa volta, mas apenas duas para construir o mundo mais maravilhoso em que já vivi. Um mundo onde, de facto, nos podemos autodeterminar e através das acções contruirmo-nos a nós e a ele, onde é possível viver no mundo onde queremos existir. E isso pode não parecer muito, mas chega mesmo, garanto, para contruir um mundo bem melhor do que aquele em que nos obrigamos a nós mesmos a viver. A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere, e a estar sozinhos até no meio da multidão.
Tu, és a minha verdadeira felicidade, porque basta existires para me sentir feliz quando estou de rastos. Somos um instante de vida que não quero perder, porque temos em nós, mais do que o reflexo de tudo o que já passou mas a potencialidade para os melhores instantes do todos. Mais ainda, o vazio presente na tua ausência e o sentido que uma presença pode ter. És impressionante e mais impressionante somos nós porque sabemos que o somos, mesmo que mais ninguém sabe. É a nossa inalcancançabilidade que nos faz continuar.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Silêncio




"Fala se tens palavras mais fortes do que o silêncio, ou então guarda silêncio. Porque a palavra é tempo, o silêncio é eternidade."


Às voltas na cama Camila não conseguia dormir. Ouvia melhor o silêncio de Leonardo dentro da sua cabeça melhor do que todos os ruídos da cidade agitada lá fora, por se encontrar num silêncio tão denso como o do sentimento de estar só mesmo quando não estava.
E era só isso mesmo, o silêncio que ouvia, mesmo quando tentava ouvir música ou ligar a televisão, o silêncio da imagem dele, o silêncio das suas palavras, o silêncio da sua ausência, que insistia tão frequentemente e se ouvia tão continuamente como o ponteiro dos segundos se ouve no relógio.

Numa cascata confusa de pensamentos que se tornara a sua cabeça o dele corria mais fluentemente que todas os outros,fazia dos dias de Camila autênticos campos de batalha em que tentava arranjar força para enfrentar mais um dia normal enquanto se arrastava por dentro aos seus pés. Ela que tão bem sabia ler nas entrelinhas agora tinha só uma enorme folha em branco que a fazia ouvir perguntas mais explosivas que mil respostas.
Sempre que passava no espelho Camila tinha a sensação de ter a pele mais branca e os olhos mais escuros e de que tudo à sua volta se tinha tornado bem mais sombrio porque o vazio da ausência de palavras se tornava num gigante vazio no seu peito até que a imagem de Leonardo lhe surgia de novo. E o pensamento nela virava o mundo ao contrário principalmente quando não sabia o que pensar, a tortura de perguntas fazia-lhe decorar o quanto ele lhe trazia bocados de sol e a sombra que deixava ao partir, e o bem que fazia só por a amar, que a fazia desfazer-se só por saber que talvez um dia e bem mais cedo do que julgava ele podia simplesmente deixar de o fazer.
O tempo arrastava-se e trazia com ele todos os medos e dúvidas que sempre os haviam assombrado e separado. Ela nunca achou que ter medo os dúvidas fosse mau, tem a capacidade de tornar as pessoas autocriticas, menos seguras e menos omnipotentes, e faz delas não só alguém melhor como alguém que depois de o ser continuar a desejar ser melhor ainda.
Mas entre eles as dúvidas sempre foram maiores que as certezas, sobre o que cada um sentia, de como seria se ou de como seria quando, que tornava a distância a percorrer da ilusão à verdade e da dúvida à realidade a mesma que a do medo á coragem.

Camila saíu e foi fumar um cigarro para a varanda, deixar a angustia evaporar-se e esvoaçar como e com o fumo, e passou pelos seus pais. Eles achavam que se amavam, e mantinham um casamento há anos que Camila sabia tão bem como eles que àcerca do qual sempre tiveram dúvidas. O medo de avançar em frente e de não conseguir voltar atrás em algo tão incerto, duvidoso e inconstante como o amor, e ainda mais como o seu amor, fazia-a continuar a recuar constantemente. Agora era tarde demais, recuara demasiado e já não havia milagre que fizesse voltar os instantes perdidos. Porque afinal, não existe tal coisa como o passado ou o futuro, mas existe apenas o instante presente que passa a cada momento e que traz consigo potencialidades para milhões de acções.
Ficou com o cigarro, com a noite e com os pensamentos. Porque enquanto pensava sobre ele não tinha de escrever sobre ele, muito menos para ele, muito menos falar, muito menos falar sobre ele, e muito menos ainda falar com ele.

Quais? Quais eram as suas palavras essenciais? As que restam depois de toda agitação e projectos e realizações? As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem? As que talvez ignorava por nunca as teres pensado? As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha?
O quê? O que é que restara deles, no final?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Cristal





"Um ponto de exclamação cansado é um ponto de interrogação"


O meu coração sente-se cansado de me tapar os ouvidos para não te ouvir, cansado de me vendar os olhos para não te ver a rasgar a minha imagem.
Apetece-me cegar-te, ensurdecer-te. Emudecer-te. Porque não aguento um só segundo, nem mais um único, em que me dissecas com o teu olhar e me corróis com as tuas palavras ácidas.

Esse olhar frio e impenetrável que me segue como um lança afiada, apontada ao meu coração, que sinto a consumir-me para dentro de ti e sinto-te a inventar-me e adivinhar-me da maneira errada, mesmo quando não o estás a fazer.
Passaste a representar tudo o que há de mau em mim, como um espelho de defeitos, que faz com que ao tentar adivinhar o que pensas, me persiga eu a mim mesma, num autêntico labirinto sem saída. E fugir de ti é fácil, mas fugir de mim mesma cansa muito.

É isso mesmo, estou sem força, força é um ponto de exclamação, firme e irto, uma corda de aço traduzida em amor por cada momento de existência e por vivê-lo, engoli-lo, assimilá-lo e aproveitá-lo. E sim, um ponto de exclamação cansado sou eu agora, o que o transforma num ponto de interrogação e me faz perguntar porquê. Pergunto-me qual a razão, pergunto-me se a tens, pergunto-me se agora já não sou eu em vez de ti. Curvei tanto este ponto de interrogação até que ele se torna numa autentica bola, num ciclo.

Agora vejo os teus olhos nos de todos.Agora todos me assustam como a inicio tu me assustavas. Quando me dei conta sentia-me num palco, e mais tarde um fantoche nas tuas mãos que tinha de ganhar vida própria para não fazer o que tencionavas, num cenário ridículo em que me obrigavas a improvisar a comédia que fazias de mim e eu tinha de conseguir inventar um guião e sair dela por saber que não o era, mas agora já sou eu fazê-lo. Os outros passaram a ser espectadores do teu espectáculo, e agora passei eu a dirigi-lo. É a distância entre me sentir a degradar dentro de ti e entre ser eu a fazê-lo.


Sou de vidro e tu partiste-me e sei que a culpa é minha porque sou fácil de partir com algo tão inofensivo como uma pedra que ninguém vê. Ninguém entende porque é que tu, nessa inofensividade, me quebraste. Vi-te lá de fora com as pedras na mão, dentro da minha casa de vidro, mas as pedras eram tão pequeninas que não acreditei que o pudessem partir, mas sou feita de vidro fino, quase diria de cristal. Se às pedras que mandaste juntarmos todas as pequeninas pedras que ele suportou, ele não ia aguentar. E eu, em vez de abrir uma janela e te atirar pedras de volta, para que fosses embora, fi-lo sem a abrir, ajudando-te a quebrar a minha própria casa. As minhas pedras e as tuas quebraram o que já foi um casa confortável de cristal, não sei se o conseguiria fazer sem ti, mas tu não o conseguirias fazer sem mim.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Avó,


Sempre que me lembro de ti sinto este lugar que não quero que ninguém preencha e que tu deixaste vazio.

Acho que secretamente, todos nós falamos com as pessoas que já morreram, para lhes dizer algo que não chegámos a dizer em vida, para nos lembrarmos delas, para as esquecermos, porque elas ainda existem, mesmo que não as vejamos.
A verdade é que não conseguia continuar a falar contigo só em pensamento, tinha de te escrever, tinha de ter a ilusão que ao menos tentei dizer-te alguma coisa, que ainda não desisti de ti, mostrar que continuo a falar contigo.
Não sei onde estás ou se estás, não sei para onde vai tudo o que construímos em vida,
a nossa volta e dentro de nós. As coisas que ficam cá fisicamente, as coisas que tanto te esforçaste por manter, a casa, o dinheiro, as roupas, o corpo, são o que menos vemos, são as que mais depressa se esgotam de ti. A partir do momento em que nos deixaste, deixaram de ser tuas, quase que deixaram de existir. O que ainda existe é estranhamente a única coisa que desapareceu, que és tu. A memória das pessoas que já morreram é algo de extraordinário, exigimos a nós próprios fazer um resumo daquela pessoa na nossa cabeça, enquanto às outras vamos actualizando essa imagem todos os dias, às pessoas que já morreram não o fazemos porque elas "já não existem". O que é demasiado absurdo para ser verdade ou fazer sentido. Todos os dias completo a imagem que tenho de ti, descubro sobre ti, mais alguma coisa que me era invisível enquanto te via todas as semanas.
A forma mais intensa de conhecer as pessoas não é só estar com elas, é
"engoli-las", saboreá-las, interiorizá-las, completá-las dentro de nós até
sabermos exactamente o que são e o que significam para nós a cada dia e a cada
momento, porque nada disso se mantém constante, a imagem e a forma como nos
sentimos sobre ela muda de instante para instante, e nesses intantes não precisamos de estar na presença dela, só precisamos de a saber e de nos sabermos.

Li agora um artigo numa revista em que se fez um estudo sobre o estado de sono profundo, os sonhos, e como se aproxima a um estado de mortalidade. Defende que quando morremos entramos numa espécie de sono profundo perpétuo e incapazes de acordar, completamente desligados de tudo o que é real, perdemos a consciência de nós mesmo e vivemos numa espécie de memórias, imaginação e pensamentos intemporais. De toda a energia que resultou da nossa actividade cerebral, até que esta termine de vez. Nunca nos lembramos dos sonhos que temos quando dormimos mais profundamente, porque será?
Soa demasiado estúpido continuar a dalar como se fosse possível realmente chegar a ti, mas é bom pensar que chega, é bom ter essa ilusão e sabe inacreditavelmente bem continuar a falar como se estivesses mesmo a ouvir, é como destruir um muro num beco sem saída mesmo sabendo que o que vamos encontraré outro beco sem saída.
É demasiado bom pensar que afinal ainda me posso despedir de ti, compensar as vezes que ainda te queria ter dito que te adorava acima de qualquer coisa deste mundo, que tenho vontade de te abraçar agora, de comer a tua sopa e gozar com as tuas novelas. A vontade de fazer tudo isso uma só vez acelera-me o coração e as palavras aceleram com ele, sem as conseguir escrever a tempo. Numa vida onde tudo é possivel se fizermos MESMO por isso , a única coisa irreversível, é o seu fim.
A única coisa irreversível na minha vida é o tempo, a única coisa irreversível na minha vida és tu. Tanto que a única forma de o reverter é pensar em momentos de ilusão (deve ser a melhor sensação do mundo) que o consigo fazer. Fechar os olhos e imaginar-me a tocar à campainha, ouvir a tua voz cansada a perguntar quem é e eu responder "sou eu vó" já automaticamente, e tambem automaticamente esperar um século até me abrires a porta, sentir os meus joelhos, automaticamente a apressarem-se enquanto subiam a escadaria a correr e a acordar o prédio inteiro e já nem reparar no cagarim que fazia. Depois era o abraço forte mas automático, o sorriso significativo mas automático, o bem estar imediato ao pensar nisso, a segurança de te ter cá e a falsa consciência de que um dia podias de facto, deixar de estar.
À medida que o tempo passa identifico-me em algumas coisas qe me dizias e eu até pensava que entendia mas não entendia, lembro-me de mais conversas que devia ter tido, de mais coisas que podia ter feito. A tua importância na minha vida não é menor agora, é maior.
Oh avó, não estou zangada, fizeste o que querias, passas-te definitivamente para o mundo ds sonho onde sempre viveste porque não conseguias passá-lo para realidade, foste esmagada como todos somos. Era a única forma gratuíta de o fazeres, seria bem mais custoso encher a tua vida de outras mudanças, não terias tempo para tudo então resolveste-te pelo nada, e não ias estar cá sequer para veres as pessoas que gostavam de ti a sofrerem. Ensinaste-me que há sempre tempo para tudo, que não exite tempo perdido, só ganho, e até mesmo o tempo em que não se faz nada é ganho.
Até mesmo quando se morre o tempo é ganho, é tempo em que ensinamos algo nós ou aos outros.
Mas às vezes, continuo a querer ter-te dado um último abraço. Podias-me ter dito que querias morrer avó, eu ía respeitar isso, sabes que ía. Só espero que tenhas tempo agora, já que viveste 87 anos em que nem tiveste tempo para ser feliz, compensa agora, ou eu faço-o em meu nome e no teu tambem, em nosso nome, e em nome de todos os que gosto. Era o que devias ter feito, e talvez eu te pudesse ter ensinado isso, talvez eu pudesse ter feito mais. Mas não fiz nem tu, e não gosto menos de ti por isso, espero que também não gostes menos de mim.
Com muito amor,
neta