"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Cristal





"Um ponto de exclamação cansado é um ponto de interrogação"


O meu coração sente-se cansado de me tapar os ouvidos para não te ouvir, cansado de me vendar os olhos para não te ver a rasgar a minha imagem.
Apetece-me cegar-te, ensurdecer-te. Emudecer-te. Porque não aguento um só segundo, nem mais um único, em que me dissecas com o teu olhar e me corróis com as tuas palavras ácidas.

Esse olhar frio e impenetrável que me segue como um lança afiada, apontada ao meu coração, que sinto a consumir-me para dentro de ti e sinto-te a inventar-me e adivinhar-me da maneira errada, mesmo quando não o estás a fazer.
Passaste a representar tudo o que há de mau em mim, como um espelho de defeitos, que faz com que ao tentar adivinhar o que pensas, me persiga eu a mim mesma, num autêntico labirinto sem saída. E fugir de ti é fácil, mas fugir de mim mesma cansa muito.

É isso mesmo, estou sem força, força é um ponto de exclamação, firme e irto, uma corda de aço traduzida em amor por cada momento de existência e por vivê-lo, engoli-lo, assimilá-lo e aproveitá-lo. E sim, um ponto de exclamação cansado sou eu agora, o que o transforma num ponto de interrogação e me faz perguntar porquê. Pergunto-me qual a razão, pergunto-me se a tens, pergunto-me se agora já não sou eu em vez de ti. Curvei tanto este ponto de interrogação até que ele se torna numa autentica bola, num ciclo.

Agora vejo os teus olhos nos de todos.Agora todos me assustam como a inicio tu me assustavas. Quando me dei conta sentia-me num palco, e mais tarde um fantoche nas tuas mãos que tinha de ganhar vida própria para não fazer o que tencionavas, num cenário ridículo em que me obrigavas a improvisar a comédia que fazias de mim e eu tinha de conseguir inventar um guião e sair dela por saber que não o era, mas agora já sou eu fazê-lo. Os outros passaram a ser espectadores do teu espectáculo, e agora passei eu a dirigi-lo. É a distância entre me sentir a degradar dentro de ti e entre ser eu a fazê-lo.


Sou de vidro e tu partiste-me e sei que a culpa é minha porque sou fácil de partir com algo tão inofensivo como uma pedra que ninguém vê. Ninguém entende porque é que tu, nessa inofensividade, me quebraste. Vi-te lá de fora com as pedras na mão, dentro da minha casa de vidro, mas as pedras eram tão pequeninas que não acreditei que o pudessem partir, mas sou feita de vidro fino, quase diria de cristal. Se às pedras que mandaste juntarmos todas as pequeninas pedras que ele suportou, ele não ia aguentar. E eu, em vez de abrir uma janela e te atirar pedras de volta, para que fosses embora, fi-lo sem a abrir, ajudando-te a quebrar a minha própria casa. As minhas pedras e as tuas quebraram o que já foi um casa confortável de cristal, não sei se o conseguiria fazer sem ti, mas tu não o conseguirias fazer sem mim.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Avó,


Sempre que me lembro de ti sinto este lugar que não quero que ninguém preencha e que tu deixaste vazio.

Acho que secretamente, todos nós falamos com as pessoas que já morreram, para lhes dizer algo que não chegámos a dizer em vida, para nos lembrarmos delas, para as esquecermos, porque elas ainda existem, mesmo que não as vejamos.
A verdade é que não conseguia continuar a falar contigo só em pensamento, tinha de te escrever, tinha de ter a ilusão que ao menos tentei dizer-te alguma coisa, que ainda não desisti de ti, mostrar que continuo a falar contigo.
Não sei onde estás ou se estás, não sei para onde vai tudo o que construímos em vida,
a nossa volta e dentro de nós. As coisas que ficam cá fisicamente, as coisas que tanto te esforçaste por manter, a casa, o dinheiro, as roupas, o corpo, são o que menos vemos, são as que mais depressa se esgotam de ti. A partir do momento em que nos deixaste, deixaram de ser tuas, quase que deixaram de existir. O que ainda existe é estranhamente a única coisa que desapareceu, que és tu. A memória das pessoas que já morreram é algo de extraordinário, exigimos a nós próprios fazer um resumo daquela pessoa na nossa cabeça, enquanto às outras vamos actualizando essa imagem todos os dias, às pessoas que já morreram não o fazemos porque elas "já não existem". O que é demasiado absurdo para ser verdade ou fazer sentido. Todos os dias completo a imagem que tenho de ti, descubro sobre ti, mais alguma coisa que me era invisível enquanto te via todas as semanas.
A forma mais intensa de conhecer as pessoas não é só estar com elas, é
"engoli-las", saboreá-las, interiorizá-las, completá-las dentro de nós até
sabermos exactamente o que são e o que significam para nós a cada dia e a cada
momento, porque nada disso se mantém constante, a imagem e a forma como nos
sentimos sobre ela muda de instante para instante, e nesses intantes não precisamos de estar na presença dela, só precisamos de a saber e de nos sabermos.

Li agora um artigo numa revista em que se fez um estudo sobre o estado de sono profundo, os sonhos, e como se aproxima a um estado de mortalidade. Defende que quando morremos entramos numa espécie de sono profundo perpétuo e incapazes de acordar, completamente desligados de tudo o que é real, perdemos a consciência de nós mesmo e vivemos numa espécie de memórias, imaginação e pensamentos intemporais. De toda a energia que resultou da nossa actividade cerebral, até que esta termine de vez. Nunca nos lembramos dos sonhos que temos quando dormimos mais profundamente, porque será?
Soa demasiado estúpido continuar a dalar como se fosse possível realmente chegar a ti, mas é bom pensar que chega, é bom ter essa ilusão e sabe inacreditavelmente bem continuar a falar como se estivesses mesmo a ouvir, é como destruir um muro num beco sem saída mesmo sabendo que o que vamos encontraré outro beco sem saída.
É demasiado bom pensar que afinal ainda me posso despedir de ti, compensar as vezes que ainda te queria ter dito que te adorava acima de qualquer coisa deste mundo, que tenho vontade de te abraçar agora, de comer a tua sopa e gozar com as tuas novelas. A vontade de fazer tudo isso uma só vez acelera-me o coração e as palavras aceleram com ele, sem as conseguir escrever a tempo. Numa vida onde tudo é possivel se fizermos MESMO por isso , a única coisa irreversível, é o seu fim.
A única coisa irreversível na minha vida é o tempo, a única coisa irreversível na minha vida és tu. Tanto que a única forma de o reverter é pensar em momentos de ilusão (deve ser a melhor sensação do mundo) que o consigo fazer. Fechar os olhos e imaginar-me a tocar à campainha, ouvir a tua voz cansada a perguntar quem é e eu responder "sou eu vó" já automaticamente, e tambem automaticamente esperar um século até me abrires a porta, sentir os meus joelhos, automaticamente a apressarem-se enquanto subiam a escadaria a correr e a acordar o prédio inteiro e já nem reparar no cagarim que fazia. Depois era o abraço forte mas automático, o sorriso significativo mas automático, o bem estar imediato ao pensar nisso, a segurança de te ter cá e a falsa consciência de que um dia podias de facto, deixar de estar.
À medida que o tempo passa identifico-me em algumas coisas qe me dizias e eu até pensava que entendia mas não entendia, lembro-me de mais conversas que devia ter tido, de mais coisas que podia ter feito. A tua importância na minha vida não é menor agora, é maior.
Oh avó, não estou zangada, fizeste o que querias, passas-te definitivamente para o mundo ds sonho onde sempre viveste porque não conseguias passá-lo para realidade, foste esmagada como todos somos. Era a única forma gratuíta de o fazeres, seria bem mais custoso encher a tua vida de outras mudanças, não terias tempo para tudo então resolveste-te pelo nada, e não ias estar cá sequer para veres as pessoas que gostavam de ti a sofrerem. Ensinaste-me que há sempre tempo para tudo, que não exite tempo perdido, só ganho, e até mesmo o tempo em que não se faz nada é ganho.
Até mesmo quando se morre o tempo é ganho, é tempo em que ensinamos algo nós ou aos outros.
Mas às vezes, continuo a querer ter-te dado um último abraço. Podias-me ter dito que querias morrer avó, eu ía respeitar isso, sabes que ía. Só espero que tenhas tempo agora, já que viveste 87 anos em que nem tiveste tempo para ser feliz, compensa agora, ou eu faço-o em meu nome e no teu tambem, em nosso nome, e em nome de todos os que gosto. Era o que devias ter feito, e talvez eu te pudesse ter ensinado isso, talvez eu pudesse ter feito mais. Mas não fiz nem tu, e não gosto menos de ti por isso, espero que também não gostes menos de mim.
Com muito amor,
neta

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Bom dia



No fundo, ele acreditava que ela ouvia todos os seus pensamentos, mesmo que não os entendesse, mesmo que não os ouvisse de todo, ele gostava de pensar que sim e isso fazia-o feliz, mais feliz do que nunca. Acordava sempre antes dela e adormecia sempre depois, gostava de a ver a dormir, gostava de sentir a paz da sua respiração e a beleza da simplicidade da mulher que dormia ao seu lado, com os cabelos louros soltos e despenteados, sem maquilhagem. Gostava de a ver dormir, gostava muito. Sabia que ela não sabia como ele, ele sabia mas não queria que ela soubesse. Então gostava de acreditar, enquanto a via dormir, que ela sabia, porque não havia nada que lhe dissesse o contrário enquanto ela estivesse a dormir. Às vezes, enquanto a via adormecer ou acordar, sussurrava-lhe em pensamento:
"Vá lá, o dia já nasceu. Abre os olhos devagar, depois levanta-te mas deixa o teu corpo dormir mais um bocado, com ele, deixa a tua vida também, os teus problemas do dia a dia, os teus planos. Sacode o cabel e começa a arrumar a casa: as tuas emoções, pensamentos, memórias, ideias, sonhos e experiências, até ficares só tu e o mundo, e poderes conhecer tudo o que eu também conheci. Deixa-me eu mostrar-te o que conheço, deixa-me eu mostrar-te o que sei porqe quando acordares eu não o vou conseguir fazer. Até podes fechar os olhos e ser quem quiseres e eu também o faço. Olhar para a nossa vida como se fossemos um deus e para a que nos rodeia. E se olhares para tudo o que tens como se já tivesses morrido, e tudo o que ainda poderás vir a ter como se tivesses acabado de nascer vais ter tudo o que precisas, e tudo o que precisas chega, e o que chega é suficiente e bom. Por isso meu amor, não acordes, dorme e sonha."

Depois, ele beijava-a suavemente na testa, e adormecia, era como a sua reza diária, o seu ritual, o seu banho de esperança matinal e nocturna, o seu diário. Ele era feliz, e ela tambem, imensamente.

domingo, 11 de abril de 2010

Fome


Há dias em que tenho fome. Fome por dentro
Fome de que me entendam, fome de viver, fome de sentir, fome de falar, fome de explicar, fome de dar e receber, fome de mim mesma, fome de conhecer, fome de tempo para o fazer.

Mas comida não chega, nunca chegará. Comida enche o estômago, eu tenho fome na cabeça, e no coração. Fome conpulsiva, não adianta o quanto eu coma, não fico cheia.
Fome, fome, fome. Hoje, estou com fome.
Vou ao frigorífico da imaginação e comer toneladas de sonhos bem doces, porque sonhos são gratuítos, transformá-los em realidade tem um preço. (e nao engordam)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Hushabye Mountain



"Se os sonhos fossem cavalos, os mendigos seriam todos cavaleiros."

Não nego, que as pessoas entram na nossa vida por acaso, mas nunca é por acaso que permanecem na nossa cabeça.
Não é raro haver mendigos na rua nem é raro não os ver-mos. Eu vejo-os bem, decoro-os, e faço colecção dos seus olhares.
Sempre gostei de fazer coleção de olhares, mas os dos mendigos são os mais intensos, são aqueles que chamam por nós, que só não querem ser invisíveis.
Acho que não devo ser a única pessoa no mundo que de vez em quando tem vontade de partir sem nada, sem o "ter" e só com o "ser", vivendo apenas daquilo que a vida e os outros me quiserem dar e acharem que mereço, e do que sou.
Os mendigos sabem muito mais do que qualquer um de nós, e mesmo esfomeados, quase acredito que sejam mais felizes. Nem sentem a fome porque se alimentam de sonhos, de imaginação, e sobretudo, de esperança.
Ao contrário de nós que percorremos a vida sempre à procura do que pode ser diferente, em busca do que não está bem, mudamos tudo à nossa volta, transforma-mos e melhoramos tudo à nossa volta, o nosso cabelo, as nossas relações, a nossa vida, sem nunca nos mudarmos a nós.
Os mendigos são bem diferentes. Os mendigos já não reparam que não têm nada e como não sabem quando vão ter e não podem fazer nada quanto a isso aceitam-no e limitam-se a aproveitar ao máximo tudo o que podem ter. Um mendigo não tem nada a perder, um mendigo não vê defeitos ou imperfeições em ninguém, nem teme aproximar-se de ninguém. Qualquer ser humano que lhe aproxime as já tão distantes noções de amigo, lar, família, laços, é recebido de braços abertos, e apenas por ser um ser humano, por ser seu igual, mesmo que não o saiba, mesmo que se recuse a saber.
Às vezes sinto-me mendiga de alma. Por um lado tenho sede e fome de muita coisa, por outro isso não me faz infeliz, aproveito e amo o que tenho e o que me aparece à frente. Para mim os defeitos só existem nos olhos de quem os quer ver e decide chamar-lhes defeitos, eu chamo-lhe características, que fazem a pessoa autêntica e diferente de todas as outras, capaz de nos dar e ensinar algo diferente de todas as outras, se nós o quisermos ver, se nós olharmos para elas com os olhos de um mendigo esfomeado, mesmo que tenhamos a barriga cheia. Não existem vidas com mais valor que outras, e o valor está também só nos olhos de quem o vê, só que normalmente limitamo-nos a dar valor àquilo que nos foi ensinado como valioso. Não temos os próprios valores, regimo-nos pelos valores da sociedade e dos que nos rodeiam.
Ele, o mendigo, tem tudo o que deseja dentro de si, de resto só tem de continuar vivo, para viver num sitio bem longe, onde nunca nenhum de nós terá a capacidade de alcançar.
A gentle breeze from Hushabye Mountain
Softly blows o'er lullaby bay.
It fills the sails of boats that are waiting
Waiting to sail your worries away.
It isn't far to Hushabye Mountain
And your boat waits down by the key.
The winds of night so softly are sighing
Soon they will fly your troubles to sea.
So close your eyes on Hushabye Mountain.
Wave good-bye to cares of the day.
And watch your boat from Hushabye Mountain
Sail far away from lullaby bay.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A laranja



"Escrever é ter a companhia do outro que escreve"- Vigílio Ferreira

Apetece-me escrever, deixar fluir os pensamentos, sem pensar sequer no que estou a escrever. Sempre que penso formo uma autoestrada, onde circulam palavras a alta velocidade.Preciso de as formalizar, preciso de as abrandar, ou elas vão acabar por chocar umas contra as outras aumentando a confusão.
Resumindo, preciso de apanhar palavras, preciso de escrever. As palavras, que tentam traduzir cada emoção, sentimento, impulso, lágrima e sorriso. As palavras, são o mero passaporte que nos possibilita viajarmos no outro, e ele viajar em nós, e até nós em nós mesmos, mas não um bilhete garantido.
Quando nos ultrapassamos fisicamente, esforçamos os músculos e pelos poros escorre suor, então, as lágrimas são o suor do coração, e as palavras o suor do pensamento
Mas as palavras fogem-me e sem palavras não há ideias, sem palavras não se escreve, e sem palavras não se pensa.
Descasquei o meu pensamento como a uma laranja. Que depois daquela casca rugosa e desagradável se apresenta em gomos bem sumarentos, de sabor amargo e doce ao mesmo tempo, que apresenta o fruto mais rico a todos os niveis mas aquele no qual ningué repara. Bem no centro, essa laranja possui sementes com as quais poderíamos plantar um laranjal inteiro, mas se lhe dissessemos isso ela nunca acreditaria.
Ninguém é estúpido o suficiente como eu para chegar ao ponto de desperdiçar tempo a falar sobre laranjas, muito menos compará-las com o que quer que seja. Mas eu fui e era mesmo disso que estava a precisar. Abençoada laranja.

duvidas?



“Para ser um filósofo, basta teres a capacidade de te surpreenderes, e duvidares”- Jostein Gardner


A sério? Eu tenho demais, tanto que já nem me surpreendo com a minha surpresa com tudo,e isso surpreende-me. Com a minha dúvida permanente até e sobretudo sobre o que todos estabelecem como óbvio. A dúvida é a distância a percorrer da ficção ao facto, do pensar ao agir, do sentimento ao gesto e da sabedoria à ignorância, entre a mentira e a verdade.
Quem não duvida vive à superfície, mas nem se dá conta das maravilhas que acontecem em profundidade, morre sem se conhecer realmente e dependente do exterior, do que ACONTECE em superfície, variando como um cata-vento.
Quem duvida demais, é porque tem medo, e não se liga a nada do que existe e acontece à superfície, não respira, e vive em tal profundidade que os raios de sol não conseguem atingir, e morre sem conhecer o mundo, num sufoco e sem oxigénio no sangue nem alegria n alma.
Cada um tem o seu tempo e o seu modo, saber viver é saber como agir segundo o seu tempo e modo, e respeitar o tempo e modo dos outros, saber que há um tempo para tudo, O NOSSO próprio tempo para tudo e o nosso direito em exigi-lo ao outro. Saber viver é conhecer a profundidade mas saber respirar e sentir o sol quando este brilha. É procurar raízes em profundidade que nos permitam sobreviver às tempestades constantes à superfície, é saber que há um tempo para duvidar, outro para questionar, e, por fim, outro para escolher e também para agir. E, sobretudo, não se esquecer de amar. Saber viver é quase como saber nadar.

Vida arco-íris



“Onde há sentimento, houve dor”- G. Bell

O que há de especial no arco-íris é que surge de um raio de sol depois da tempestade, ou de uns chuviscos num dia quente de verão, surge do encontro de opostos, e só por isso, contêm as cores principais que permitem construir todas as outras cores.
Independentemente das condições de vida de cada um, todos têm uma dose de angústia e sofrimento na vida, há quem sofra tanto por partir uma unha como outro alguém por perder um familiar. O sofrimento não depende da vida, depende da pessoa. Eu acredito que os olhos com que vemos a vida vão mudando ao longo do tempo, como que fossemos colocando óculos que nos permitem ver cores diferentes. Quem não muda os seus óculos é o que se chama de horizontes restritos.
Quem não tem a capacidade de sofrer e de ver o mundo com uns óculos escuros, quem nunca o fez, nem repara no quão claro é o brilho do sol, nem na beleza do branco. Quem não sofre é incompleto, quem não é ri é incompleto, “quem não consegue servir pela vida não serve para a vida”.
É preciso é, independentemente dos óculos, ter os olhos bem abertos, e a isso chama-se inteligência. Só é feliz quem a tem racionalmente, emocionalmente, e conscientemente, só é feliz quem tem o espírito, os sentidos, e a mente bem abertos. Onde há felicidade houve tristeza e onde existem laços existiu solidão. Só é feliz sabe o que é não o estar, e quem sabe que não o estará eternamente.

Liberdade



“O estado de calma, paz, pureza de pensamentos, libertação, transgressão física e de pensamentos, a elevação espiritual, e o acordar à realidade, desapego emocional e psicológico a tudo o que é exterior. Cada um tem a sua noção de liberdade mas nunca ninguém saberá o que ela realmente é.” M. Gandhi

"Liberdade é obediência às leis que a pessoa estabeleceu para si própria, como pode alguém, então, ser livre?."
(Jean-Jacques Rousseau)

Ser livre não é sinónimo de ter liberdade.

Quando se é livre, ama-se o frio e o calor. Absorve-se o mundo como uma esponja, e liberta magia dos poros.

O espírito livre entranha a arte, a natureza, o corpo, e a alma conjugando tudo de forma perfeita e harmoniosa, respira inpiração e expira energia.

Quem é livre não se indigna, é curioso. Quem é livre não recua, só avança.

Olha para a vida de olhos fluidos como a água e coração tranquilo e quente como o fogo. Ser-se livre de espírito é estar inafectavelmente bem.

Espírito totalmente livre é leve como o vento mas imponente como uma montanha. Porque apenas se esvoaça pela vida e pela realidade, é-se o que se quer ser, mas forte, imóvel, poderoso e grandemente, porque não se desejar mais por não ter apego a nada sem ser à própria liberdade. Ser livre é o verdadeiro nirvana e o verdadeiro conhecimento. Quem sente apego depende do exterior, quem é livre não depende de nada sem ser de si mesmo. E não existe desilusão porque não existem planos. No entanto, não sabe o que quer. Ser livre não é fazer só o que se quer, porque não se quer nada. Não se tem ambições, nem sonhos, não se tem medo, quem é livre não tem coragem, quem é livre não tem nada mas possui tudo, porque tem tudo o que quer exactamente por não querer nada sem ser o que tem (nada).

O ser-se totalmente livre não existe, não sincera e honestamente, não no ser humano (só no espírito)

A única altura em que sinto o meu espírito totalmente livre é quando estou bem presa nos teus braços r, só aí é que tudo é simples, só aí é que encontro o meu estado de “calma, paz, pureza de pensamentos, libertação, transgressão física e de pensamentos, a elevação espiritual”, se isso não é o nirvana, o que é que é? Para mim, pura liberdade. Irónico? Sim, acho eu. Este é mais um texto para ti. Amo-te

sábado, 3 de abril de 2010

A mudança


É da mudança que se cresce e da mudança que nascemos. O mundo é feito de mudança e nada é eterno. Mas o que custa propormos a mudança e custa mudar. E ainda custa mais quando não o devíamos ter feito, ou quando devíamos e não o fizémos.
Às vezes o que custa mesmo mesmo é viver. É por isso que às vezes sabe bem parar de viver, sabe bem passar um dia a ver filmes e a comer chocolate enrolada num edredon ,regalias para o cérebro e para o estômago, conforto para a alma, aconchego para o corpo e coração. É por isso que é bom estar em casa e ainda é melhor chegar.
O pior é ter horas para deitar, para levantar, para comer e para fazer tudo, e ainda ter de conseguir arranjar o mínimo de liberdade lá no meio. É fácil fazer planos deitada na cama, fácil e bom. É fácil mudar de noite. Mas de manhã está bom na cama e temos de sair, está bom em casa e temos de ir para a escola. Está bom assim e temos de mudar.
Quando há alguma coisa que queremos mudar na vida, costumamos mudar tudo menos essa mesma coisa.
Entretemo-nos com futilidades e o tempo passa enquanto nos ocupamos e pensamos que estamos a mudar.A verdade, é que a verdadeira mudança vem de dentro, tal como vem tudo na vida.Mudamos para nos aproximar-mos de quem somos ou do que queremos.Quem acha que não vai mudar mais, está pronto para morrer.

Temos a oportunidade de mudar e inverter a vida a cada segundo que passa, para melhor ou para pior, não interessa, para o diferente.

E ignorar isso seria, no minimo, ignorar-se. Por isso apanha um comboio para um lado qualquer, não interessa qual, algum lado há-de ser, e podes ter a certeza de que vai mudar o resto da tua vida, mesmo que nem notes.

Andar de cima



Vou-te confessar que, em dias como hoje subo ao 11º andar, subo as escadinhas para a casa das máquinas do elevador. Reparaste que tem uma janelinha, bem pequenina, mesmo entre o elevador e as escadas? Reparaste que à noite deixa aquelas escadas com um brilho encantador semelhante à luz de uma vela e que de dia as deixa azuladas como um quarto de um bébe?
Eu nunca tinha reparado, normalmente, estava demasiado concentrada em ti, mas hoje reparei.
Como é que um lugar como aquele me podia ser tão encantador?
Lembrei-me de todas as lágrimas derramadas ali, lembrei-me de todas as conversas, lembrei-me dos milhares de vezes que subimos àquele andar e do que aquelas paredes branco-sujo contariam se pudessem falar.
Em segredo, pedi-lhes que me contassem, e fiquei ali a ouvi-las, a ouvir-nos.
E baixinho, prometi-lhes que sempre que sentisse a tua falta como hoje iria lá e elas perguntaram-me se farias o mesmo, eu respondi-lhes que gostava que sim (quem sabe um dia encontrarmo-nos lá).
Com a chave desenhei na parede os nosso nomes, mas estes não ficaram marcados, não é preciso estarem, estão dentro de nós. Nós sabemos o quanto aquele lugar nos pertence, sabemos que é nosso terrirório.

Ah e garanto, nunca aquele lugar irá ter tanto significado para mais ninguém


Não te atrevas a pensar que me esqueci de ti
, não o voltes a dizer.

Voice within






"Young girl, don't cry
I'll be right here when your world starts to fall
Young girl, it's all right
Your tears will dry, you'll soon be free to fly

When you're safe inside your room you tend to dream
Of a place where nothing's harder than it seems
No one ever wants or bothers to explain
Of the heartache life can bring and what it means

When there's no one else
Look inside yourself
Like your oldest friend
Just trust the voice within
Then you'll find the strength
That will guide your way
If you will learn to begin
To trust the voice within

Young girl, don't hide
You'll never change if you just run away
Young girl, just hold tight
And soon you're gonna see your brighter day
Now in a world where innocence is quickly claimed
It's so hard to stand your ground when you're so afraid
No one reaches out a hand for you to hold
When you're lost outside look inside to your soul

When there's no one else
Look inside yourself
Like your oldest friend
Just trust the voice within
Then you'll find the strength
That will guide your way
If you will learn to begin
To trust the voice within
Life is a journey
It can take you anywhere you choose to go
As long as you're learning
You'll find all you'll ever need to know"


Acham que há alguém lá em cima? Eu acho que não. Acho que há uma voz sim, ou que pelo menos a mim aparece como voz (talvez a outroas apareça como fórmulas matemáticas ou imagens).
A essa voz as pessoas chamam deus, os budistas nirvana, mas eu chamo-lhe consciência.(Tal como o nirvana absoluto é quase inatingível por um ser humano, assim é deus e assim é a consciência completa)
Eu costumo falar com essa voz, também não tenho grande remédio, ela nunca se cala. Até discuto com ela às vezes, mas a vida não se discute em palavras. Por passaporte e tradutor que sejam para nós para os outros, não bastam.
É nessa voz que procuro as minhas respostas, muitas vezes sinto-me a andar em circulo e preciso de alguém que me entenda e conheça, e só ela o faz. Pergunto-lhe se estarei a seguir o caminho certo, ou qual é que devia seguir (será que algum dia vou ter uma conversa com alguém que me entenda, que tenha passado por isto também?) e ela diz-me que não há, que não sabe, mas o importante é eu seguir um, e mesmo que seja errado, há-de valer a pena por alguma razão (boa ou má), porque tudo pode dar certo, e mesmo que não dê, a algum lado levou. Obrigada, consciência (ou mãe, pai, amigo, irmão, vida, deus, nirvana budista, verdade, personalidade ou seja o que for) obrigada mistura de todas as vozes de todas as pessoas que já passaram pela minha vida, obrigada eu.

Serenidade



But it's all relative
Even if you don't understand
Well it's all understood
Especially when you don't understand
Then it's all just because
Even if we don't understand
Then lets all just believe

Estou serena, porque estou insegura. Porque não acredito em nadamas acredito em tudo. De facto, é fácil fingir que está tudo claro, fácil prosseguir o dia-a-dia com as preocupações normais, habituais. Mas hoje estou bem mais serena que isso. Hoje sinto que como não existe verdade não tenho de me preocupar a encontrá-la. Apenas há que procurar o que é melhor para nós. Porque não, por muito que procuremos e saibamos, nunca vamos encontrar outro nirvana segundo os budistas, outros deus segundo os religiosos, outra superioridade qualquer segundo os místicos e nenhuma outra verdade segundo os filósofos que não esta: não a vamos encontrar, não em vida, é tudo demasiado relativo. É bom que haja quem tente, caso contrário não avançava a ciência, não existia religião, nem havia filosofia, mas eu, pelo menos hoje, prefiro ser pequenina ao som de jack jonhson, que parece cantar os meus sentimentos numa paz que me faz confiar neles. Mesmo assim gosto de ler, de ouvir explicações, e guardar todas sem realmente acreditar piamente em nenhuma (e sentir-me infiel como busdista, mas que se dane), por falta ou excesso de medo, não perguntem.
E, quando já não conseguir aguentar tantas perguntas sem resposta, quando me apetece acordar noutro dia, noutra hora, noutra vida, faço-o: sonho.
E se me criticarem porque passo a vida a sonhar eu respondo: Perguntam-se para que serve sonhar mas poucos pensam no que seria a vida sem sonhos.

The little mermaid


Às vezes, vou confessar, sonho que a minha vida é um musical da broadway.


"If only you could know
The things I long to say
If only I could tell you
What I wish I could convey
It's in my ev'ry glance
My heart's an open book
You'd see it all at once
If only you would look

If only you could glimpse
The feeling that I feel
If only you would notice
What I'm dying to reveal
The dreams I can't declare
The needs I can't deny
You'd understand them all
If only you would try

All my secrets, you would learn them
All my longings, you'd return them
Then the silence would be broken
Not a word would need be spoken

If only it were true
If only for a while
If only you would notice
How I ache behind my smile

I guess you never will
I guess it doesn't show
But if I never find a way to tell you so
Oh, what I would give
If only you could know"



Ama-me quando eu menos merecer,pois é quando eu mais preciso (só peço que me ames, só isso)

Está frio









Tenho saudades. Saudades de ouvir o barulho do mar, do calor do sol, da luz forte refletida nos meus olhos. Não tenho saudades de sentir isso fora de mim, mas dentro de mim. Estive num inverno muito comprido que se tem alternado com uma primavera mais fútil. Tenho saudades de tudo o que aquece. Saudades de dançar, saudades que me toques, saudades da praia, saudades de correr, saudades de viver porque no inverno fico em casa dos pensamentos e não saio à rua. Saudades de não me cobrir de roupas, de deixar que o sol me queime a pele. Este inverno interior está a ser frio e demorado. Despacha-te primavera, tenho frio, por dentro.

Amanhecer





When words leave off, music begins.

Sou mesmo assim, há fases em que gosto do amanhecer e outras em que gosto do pôr do sol, quando começa o dia, e quando começa a noite. Fases em que gosto do brilho do sol que me infiltra o olhar, gosto da esperança, gosto de saber que o meu dia acabou de começar e está à minha espera para eu lhe dar sentido. Fases em que acho que cada segundo é uma oportunidade única e eu quero estar cá fora para as aproveitar a todas. Outras fases prefiro quando o sol se põe e me anuncia que tenho de ir para casa, e anseio por esse doce momento, em que fico sozinha com o meu mundo e pensamentos, fases em que prefiro acreditar que nem sempre o que fazemos determina aquilo que temos, assim como nem sempre o que temos determina aquilo que somos. Fases em que chego à conclusão que a vida é isso mesmo, é a nossa vida, que não pertence a mais ninguém, e não é igual à de ninguém, não tem livro de instruções e não fazemos a mínima do que é suposto fazer com ela, é a coisa mais esquesita, curta, inútil e estúpida, mas é nossa, e podemos fazer com ela o que quisermos, podemos amanhecer quando quisermos e anoitecer quando estivermos cansados, porque nunca se deixa de viver, nem a dormir.
Gosto de ver o amanhecer, gosto dos dias em que quando acordo a primeira coisa que faço é abrir a janela e deixar que o sol enfrente os meus olhos, gosto de olhar para a avenida do 10º andar, faz-me sentir maior.

"Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu..."

Meu sol de inverno




"When your mind is a mess
so is mine
I cant sleep
cause it hurts when I think
My thoughts aren't at peace
with the plans that we make
chances we take
they're, not yours they're not mine
there's waves that can break
all the words that we said
and the words that we mean
words can fall short
can't see the unseen
cause the world is awake
for somebody's sake now, please close your eyes woman
please get some sleep

And know that if I knew
all of the answers I would
not hold them from you
know all of the things that i'd know
we told each other, there is no other way mm mm

Well too much silence can be misleading
You're drifting I can hear it in the way that you're breathing
We don't really need to find reason
Cause out the same door that it came well its leaving its leaving
Leaving like a day that’s done and part of a season
Resolve is just a concept that's as dead as the leaves
But at least we can sleep, its all that we need
When we wake we will find
Our minds will be free to go to sleep

And know that if I knew
all of the answers I would
not hold them from you
know all of the things that i'd know 'cause
we told each other, there is no other way
"

Dizemos verdades com palavras incapazes de agarrar a verdade toda. Fazemos gestos incapazes de agarrar tudo o que sentimos. Beijamo-nos incapazes de agarrar o quanto nos queremos, e abraçamo-nos incapazes de agarrar o quanto precisamos um do outro. Estou errada? Serei só eu a sentir que o resto do mundo já não interessa porque agora no momento a minha parte leve levita no ar e o meu lado pesado não resiste e caí com a força da gravidade?
"És linda", sussurras-te-me ao ouvido. Eu acreditei, pela primeira vez, que se calhar era.
E acreditei em ti, eu pousei o telemóvel e com ele as preocupações, despi as roupas e com elas os medos.
Nada do que sonho agora é tão entranho como aquilo que sinto. Só tu, para me deixares assim, tão perdida da realidade, tão longe do mundo real, tão alto que não vejo o chão. Não tens vergonha? Posso pedir-te que me acordes? mas devagarinho, não me abanes, não me sacudas, dá-me apenas um beijo na testa, depois acordo e voo até ao chão, com o coração de verão tão quente que eu sei que me vai aquecer o resto de todo o inverno que vou passar sem te ver, nem que seja imenso, nem que sejam anos. Ou mesmo que fosse para sempre.
. E vou a correr até a casa, a sentir o vento frio na minha cara e o meu cabelo a esvoaçar. Deixo de controlar as pernas e estas correm tão rapido que o próprio corpo sente dificuldade em acompanhar. Sinto-me livre, às vezes penso que te devia ter sempre comigo.
Este texto, é só para ti.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O meu piano

"Music is how the feelings sound like"



Abri a porta da sala e o que senti foi magia porque magia, afinal, é o que chamamos às coisas quando as estranhamos e quando não fazemos ideia do que são. Olhei a luz alaranjada do sol a pôr-se a trespassar os cortinados e a refletir o verde das plantas, olhei a forma como as margaridas ficavam bem em cima da mesa castanho escuro, mas principalmente e inevitávelmente, olhei-te, imponente, preto, brilhante, chamativo. Como me esqueço de que fazes parte do que sou e já ocupaste horas do meu dia a dia?

Nunca nenhum objecto teve tanto significado, disso estou certa.

Passei as mãos pelas tuas teclas, acariciando-as pelo toque e pelo olhar e lembrando-me das lágrimas que já foram derramadas nelas, pela raiva que ali, sentada ao piano já consegui sentir quando não conseguia tocar como queria, quando não me entendeste, quando te opunhas a mim.

Em tempos foste tudo, meu refúgio, minha fortaleza, o meu megafone, o meu caderno, o meu amigo, o meu inimigo, o meu amor, o meu pai (ou a memória dele, foi a única coisa que me deixaste tua, será bom?).

Olhei desesperada à minha volta e não me deixaste outra escolha senão render-me a ti e correr para o teu enlace. Sentei-me no banco e os dedos falaram por mim, toquei como já não tocava há muito tempo, gritei ao mundo cada emoção pela boca de cada nota, juntos transformámos a magia latente no mundo numa música que costumo tocar, mas nunca a senti assim, tu sabes que não, tu estiveste lá. Eu não toquei, eu encarnei, eu representei. Eu fui pianista As palavras da minha antiga professora ecoavam-me na cabeça ao som da melodia "não podes saltar notas e fingir que elas não existem, tens de acarinhar cada uma, tocar cada uma com a intensidade e significado que lhe pertence, presta atenção, toca a música, não o intrumento"

Nunca me esqueci, lembro-me cada dia que passa, regulamente. Tenho saudades, de chegar ao conservatório naquelas manhãs de setembro, correr para a sala livre, atirar com a mochila às bolinhas para cima da cadeira e sentar-me ao piano, tocar horas a fio quer me apetecesse que não. Ali falava, ali pensava, ali estava eu e comigo. Eu e o piano, eu e a música, eu e o meu mundo. Os calções brancos mostravam o bronzeado e o espelho colocado em no lado direito da sala mostrava a silhueta e postura, embelezados em contra-luz pelo brilho do sol nascente. Era a única altura do dia em que gostava de me ver ao espelho, quem sabe a única altura em que gostava de ser eu.

Mais palavras da minha professora metralhavam o meu pensamento: "Tens o que é preciso para vires a ser a melhor pianista do país e, quem sabe, do mundo. É só quereres."- Eu não quis nem quero, mas por não ser a melhor, não tinha de desistir de o ser, não tinha de desistir de ti. Desculpa, ainda vamos a tempo?

Transformas a magia em melodia, sentimentos em energia, transformas nada em alguma coisa. Esta música ligou-me a ti, fez-me regressar a ti depois de pensar que não passavas de uma perda de tempo, tenho saudades de que faças parte dos meus dias (e também tenho saudades tuas, pai).

“Take a music bath once or twice a week for a few seasons. You will find it is to the soul what a water bath is to the body, it washes away from the soul the dust of everyday life.”


A rapariga do elevador


"Nunca andes pelos caminhos traçados, eles conduzir-te-ão apenas até onde os outros já foram." Alexandre Graham Bell


Olhei-te nos olhos, como nunca olhei antes. Procurei nos teus olhos algo que me dissese quem eras, e como eras, se nunca te tivesse visto antes. Tens olhos verdes, intensos, alguma maquilhagem já um pouco esborratada, sinceramente gosto dela assim. Sorri e inevitávelmente sorriste-me de volta. Pelo teu olhar percebi que nunca ninguém, até ao fim da tua vida, ia decifrar o teu olhar como eu faço. Menina desfeita, eu desfiz-te, mas estou aqui.

Disse para a rapariga do espelho, que estava comigo no elevador e me comtenplava, antes do elevador parar e eu ter de sair para a rua. Lancei um olhar mais superficial ao espelho, não olhei mais para os olhos, sacudi o cabelo e compus o lenço cinzento. Saí do elevador e lancei um último olhar de despedida que me foi retribuido. Confia em mim, disse em telepatia para a rapariga do elevador.
Gosto quando as luzes alaranjadas da avenida me envolvem no silêncio inevitável da noite, por muito que gritem à minha volta. Gosto de seguir a noite, onde se conseguem ouvir os próprios passos e onde o tempo se parece alongar até ao amanhecer mais lentamente do que nunca. É por isso que gosto da noite mas adio a hora de ir dormir, porque à noite não se perde tempo, à noite não se perdem sonhos, à noite não há nada a perder e não se perde nada.
Ía dar a voltinha do costume, até à praça, conversar um bocadinho, voltar para casa, mas sentei-me à entrada do meu prédio a observar quem passava e perguntei-me se me estariam a observar a mim da mesma forma, a procurar a sua história, o percurso e e o algo a ensinar de cada um, a perguntar-me como seria viver dentro de cada pessoa que passava.
Sente-se, conte-me a sua história.
Pensei, e desejei, desejei que o mundo abrisse o seu livro gigante de histórias para mim. Folheei as páginas da minha história, e a da rapariga do espelho, que mantenho trancada no elevador, que não liberto de um cubículo minúsculo dentro de mim mesma. Perguntei-me porque é que me dói ao vê-la, porque é que me dói ao tocar-lhe. Perguntei-me porque é que nunca lhe conto quando os outros dizem que ela é bonita, que ela é fantástica, ou mesmo quando dizem que a amam. Ela não acreditaria, nem eu acredito. Ultimamente continuo a mantê-la presa em elevadores e quartos, até que ela mude. Não aceito aquela rapariga desajeitada, feia, chego a achá-la gorda, mesmo quando todos à minha volta o negam, só eu sei o quão feia ela é, mais ninguem sabe, mais ninguém lhe decifra o olhar como eu, mais ninguém a conhece, ninguém sabe do pouco valor que resta dela
Senti-me um monstro quando estas palavras ecoaram na minha cabeça. Sou budista, e a única prática de fé é a compaixão, sendo o único pecado a mentira. Voltei àquele elevador e com o olhar pedi desculpa àquela rapariga, sem dizer um palavra, ela aceitou as desculpas e percebeu o meu pedido.
senta-te, conta-me a tua história
Era o meu pedido. Sem dizer uma palavra, ela obedeceu. Contou-me que tinha muitas histórias com muitas pessoas, mostrou-me as suas feridas. Feridas que eu ajudei a cicatrizar. Feridas feitas em combates nos quais eu já não a deixava entrar. Feridas que contavam a sua história só por si. E confessou que tinha medo, medo de que eu não lhe deixasse ter mais feridas nem mais histórias.

Sussurou-me baixinho, ao ouvido: Por favor, autoriza-me a cair, mezmo que só faça mais uma ferida, só quero ter mais uma história para te contar.