"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

domingo, 25 de julho de 2010

Sem abrigo

Andar é traçar um rumo e segui-lo, mesmo quando não temos um destino acabamos por fazê-lo, andar é como viver porque não podemos dar o passo que ainda não demos, apenas pensar nele. Às vezes, os caminhos mais escondidos e estranhos, mais duvidosos e assustadores, são esses que nos levam a sítios bem melhores e bem mais nossos, ou mesmo que nos levem a um beco sem saída ou a uma rua triste, nos fez conhecer bem mais do mundo do que aquele caminho que já saberíamos exactamente como era. (Os caminhos que estão traçados levar-nos-ão apenas onde alguém já terá ido)
Levamos todos uma mochila às costas, em que guardamos tudo o queremos preservar, pessoas, coisas, sentimentos, memórias, que importam numa fase da vida e muitas vezes passado um tempo deitamos fora porque afinal só nos estão a fazer peso nas costas e não nos deixam andar, e temos de as tirar da mala e seguir em frente.
E sim, é assustador, temos momentos de solidão e medo gigantes porque mesmo acompanhados e apoiados por uma multidão o caminho que escolhemos seguimo-lo nós e escolhemo-lo nós, e quem é que confia inteiramente em si mesmo? É mais fácil confiar e ser de confiança aos outros.
O nosso caminho era escuro estreito, esburacado, difícil de caminhar, mas só a presença um do outro fazia-nos caminhar nele como se fosse uma avenida alcatroada. E tudo o que víamos no caminho era tão bom, tudo do que enchíamos as nossas mochilas valia tanto a pena que nem reparávamos que elas estavam pesadas. Mas tu agarras em tudo o que vês a frente, o bom e o mau, sobrelotas a tua mochila de uma forma que nem a consegues fechar e guardar o que interessa, porque pões tudo lá dentro e nem olhas para o que cai, és mesmo assim. E às vezes,guardas coisas tão pesadas que elas se entranham bem no fundo da mochila, e são as únicas que não caem, pesam tanto que não te deixam andar nem evoluir, continuar o teu caminho, e ocupam tanto espaço que não te deixam guardar mais nada, ficam só elas e tu a arrastá-las nas tuas costas. E mesmo que em momentos de lucidez desates a correr apesar do peso, que leves a minha mochila e até mesmo por vezes a mim, depois sentes-te sem força e deitas tudo fora, até mesmo o que importa e é leve, e só elas continuam lá, como se só tivesse valor o caminho que escolheste percorrer se este tiver sido doloroso de percorrer, como se só merecesses viver se isso fosse difícil. Tens tanto medo de ser enganado que és enganado sim por esse medo. E largas-me a mão e tudo o que recolhemos para voltares para trás tudo o que andámos, já sem força nas pernas e sem ossos nas costas. Como se eu tivesse sido só uma pedra no sapato. E sabes? Prometeste-me em segredo e sem saberes que nunca levarias contigo pedaços da minha mochila, fizeste-me acreditar que podíamos partilhar o peso das mesmas e que era assim que chegaríamos ao nosso próprio rumo, traçando o nosso próprio caminho. Mas com as dúvidas com que não sabes viver e que existem, tu acobardaste-te, arrancaste-me não só a tua mochila das mãos como rasgaste a minha e tudo o que eu tinha se espalhou no chão. E deixaste-me lá sozinha, a meio caminho de onde que que fosse que nós iríamos parar, e fugiste para trás mais uma vez. Agora não tenho nada que me proteja do frio, não tenho luz sequer para apanhar as minhas coisas e escolher o meu caminho, não tenho forças para correr atrás de ti de novo. Então fico sentada no meio do caminho que escolhi, que foi um caminho onde tu existias, um erro que eu jurei que não iria cometer mas cometi, à espera que voltes atrás antes que anoiteça e à medida que o sol se põe com a certeza crescente que não o vais fazer. Pergunto-me onde estás tu, agora e o que guardaste nessa mochila com a porcaria toda que meteste aí dentro, e pergunto-me porque é que não me consigo levantar e inventar um novo caminho, e porque é que tu não te sentas cinco segundos e não abres a mochila, olhas á tua volta, e percebes de vez o que queres afinal. Mais tarde, acabaste por voltar, como se não tivesses chegado a partir, e esquecendo-te que desta vez fui eu que fiquei à tua espera.
Tinhas medo de te ter enganado no caminho? Pois eu acho que eu me enganei. Não sou eu, isto não sou eu.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Miguel

A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objeto torna-se realmente outro, porque o tornamos outro. Manufaturamos realidades.
F.P- o livro do desassossego
Sempre que ouço o meu nome não respondo. Odeio que me chamem, odeio que me arranquem de onde estou, do eu casulo. Passei a odiar o meu nome miguel, só essa palavra entranha-me os ouvidos como uma faca afiada. Dói de ouvir.
Entre mim e o mundo existe um véu, como se não conseguisse extrair dele o que preciso nem dar-lhe o que tenho. Puseram-me numa escola especial para pessoas como eu e não há uma só, uma única que algum dia me vá compreender. Porque sou assim, posso dar muito aos outros e dizer as coisas certas mas nunca vou ter a capacidade de extrair deles o que eles me dão, mesmo que aprenda com eles. Não existe partilha, não existe companhia.
Mas cada um de nós vive no limite da sua realidade, como se vivêssemos todos mergulhados na ilusão onde o resto do mundo apenas molha os pés. E olhássemos para eles, para a realidade, cá de baixo.A realidade é mais ou menos parecida para todos, mas a ilusão não. Não podemos entrar na ilusão de ninguém, nem na verdadeira realidade de ninguém.Como uma mistura de genes, acontecimentos, memória, história e como se viveu a história. Se a realidade de cada um, por si só, é como uma mistura de ondes, comos, quems e porquês, quanto mais as suas ilusões.
Não percebo se viver numa mentira é viver no mesmo mundo que os outros, no qual não acredito, ou viver no meu próprio mundo e passar todos os segundos dos meus dias a duvidar dele.
Só desejava ser invisível, intocável, não queria que ninguém se lembrasse de mim, não me queria lembrar de mim. No fundo sei que não posso ser tão omnipotente, esta minha ilusão que se quiser mesmo consigo mudar o mundo inteiro à minha volta e criá-lo dentro de mim à minha maneira.

Sinto-me congelado perante os outros e perante a vida, e tudo fica preso, a voz, o coração, a alma, o corpo. Só o pensamento, livre por si mesmo o continua a ser. Mesmo assim consigo persegui-lo e tentar manipulá-lo. Estou cansado, cansado de não poder achar bom o que para mim é bom porque tenho de passar a achar outras coisas boas que nem sequer acho boas. Cansado, cronicamente, de sempre que sinto estar genuinamente certo e ter medo da doença que os médicos acusam. Doente? Tenho apenas 10 anos. A loucura, porcaria da etiqueta da loucura que me segue como um íman magnético e eu fosse um bloco de ferro. Onde querem que eu seja feliz cá fora? Que espaço é que a realidade guardou para quem não vive nela nem dela? E como posso eu falar de realidade se dizem que não tenho a sua consciência? E porque é que penso isto mas nunca conseguirei dizê-lo ou escrevê-lo?
Da loucura? Todos temos medo da loucura, de uma forma ou outra. Todos temos medo de fazer algo que ainda não foi feito, por termos o medo de sermos rotulados. Todos temos medo de deixarmos de ser fiéis a nós mesmo, de não nos reconhecermos. Ninguem se quer perder. Todos temos medo de nos desligar-mos de todos os padrões e regras interiorizados em nós e nem nos passa pela cabeça fazê-lo.
Porque é que temos tanto medo de nos perdermos? Sabemos que ninguém se perde de verdade, ninguém mesmo, que todos traçam as linhas à sua maneira e loucos são aquele que contornam as linhas rectas sobre as quais acham que por já estarem traçadas devemos andar. Pois e se não tiverem essa linha? E se forem como eu, que nasceu sem linhas em que caminhar e das quais seria perigoso um desvio, mas assim, alguém que traça as próprias linhas curvas e tortas como um bebé que pega num lápis pela primeira vez. Somos humanos, não somos automóveis, nós não temos defeitos nem qualidades, nem garantias, nem cupões de desconto. Só temos um conjunto de genes, características e histórias que nos definem e nos tornam quem somos. Porque afinal não somos muito mais do que isso, do que a nossa história e o que ela muda em nós a cada segundo que passa, e é isso mesmo, a nossa história que permanece anos depois de morrermos. É a história da Humanidade que ficou, de todo o passado que existiu. Até de um escritor, o que fica é o seu livro. E eu quero construir a minha à minha maneira, eu confio no que a minha vida quer fazer da minha história.

Confiar na vida não é desistir dela, e confiar em nós.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Mãe


Sempre foste a pessoa sobre e a quem quis escrever. Nunca consegui escrever sobre ti porque é mais fácil escrever do passado, do futuro, de algo que não pertence ao momento presente. Tu estás sempre presente, tanto que ás vezes já nem reparo que estás, como a minha luz de presença, que nunca deixa o quarto escuro e que não me deixa perder dentro dele. Não me resta espaço para fingir perante ti, aí é fácil ver perfeitamente bem o que e quem sou. A tua voz deixa-me um rasto que sigo e que se torna a minha voz também sem eu dar conta.
É próprio de mim, nunca fui capaz de ouvir ninguém, sempre pensei que só eu e que sabia, que so eu me conhecia. Mas de alguma forma as vozes ecoam na minha cabeça e mesmo que não as ouça na altura ouço-as depois, só que por vezes se tornam tantas que já não sei qual me pertence.
A tua destaca-se e sobrepõem-se, mais clara que todas, porque é a voz que eu escolho. A tua é a única que, de alguma forma, se funde com a minha voz e a vai afinando, melhorando, aperfeiçoando, e fazendo gostar dela. Porque até mesmo em silêncio me vais ensinando a como ser alguém melhor. Gosto de ti e da ideia de ti, tudo o que tu implicas e até o que fazes, mesmo os teus erros. Não tens propriamente sorte, talvez eu tenha mais. Mas é por isso que és tão melhor do que eu.
Imagina um mundo onde tinhas exactamente tudo o que querias.

Agora imagina-te a viver nele por um dia, dois dias, e para sempre. Os dias seguirse-iam iguais.Não havia aquele q.b. de frustação e de obrigação de realismo que torna o sonho tão doce. Não havia sonhos. Sonho é a nossa resposta à dificuldade. Foi essa dificuldade que te tornou os sonhos tão simples de concretizar, e talvez a mesma falta de dificuldade que me fez sonhar demais.
É a tua concepção de vida.
E toda a gente tem a sua concepção de vida mas ninguém acredita piamente nela.
Para um pintor a vida, não é uma linha traçada com uma régua, direita e pela qual devemos andar. É só uma grande folha em branco, na qual vamos traçando uma linha curva e contínua, sempre influenciada pelo que já traçámos e não podemos apagar, sempre e que inlfuenciará a estraçada traçada em papel que a nossa vida será. Em cada troço de vida imeninte sempre toda a vida que lhe está latente, todas as sensações, medos, esperanças e fantasias em cada segundo de vida e mesmo naquele em que dormimos.
Para alguém que passeia nos bosques a vida é isso mesmo, um bosque, de beleza profunda na qual raramente temos tempo para reparar, e quando reparamos, concentramo-nos nos caminhos a seguir, que podem ser milhares e somos nós que os escolhemos, e eles bifurcam-se, e entrelaçam-se e nunca saberemos onde é que vão dar. Por vezes nem têm saída e é necessário trepar e escalar para encontrar um novo trilho. Às vezes os mais pequenos e acidentados conduzem aos melhores sitíos, a grande clareiras. Mas por esses ninguém vai, toda a gente vai pelos caminhos mais largos por haver mais gente a ter neles caminhado, seguros, mas só conduzem aos sítios onde já alguém foi.
Mas no momento a seguir, existe sempre uma pressão constante a querer abrir-nos os olhose que nos obriga a traçar linha, a dar o passo. E é isso que consegues sempre.
Mas tu não queres saber, tu gostas de fazer coisas, ou descobrir coisas, ou acreditar em coisas, ajudar pessoas com coisas. É por isso que nos ajudamos uns aos outros e é por isso que a ciência não é mais que outra religião, a única que se vai modificando, mas que nem por isso deixa de seguir dogmas, leis, padrões, que caso questiona, se perde. Porque é tudo para nos preencher, e tu fazes isso a toda a hora, preencher coisas, preencher-te com coisas. Coisas boas, coisas que valem a pena. Coisas tuas.
E as tuas coisas mãe, são as minha preferidas, as que me tornam quem eu sou, as que não dispenso, as que admiro, as que eu sei que nuncavou esquecer, porque são muito mais que coisas.
Obrigada