
Fugi, invisivel.
Apanhei o autocarro para Lisboa e sem pensar sequer duas vezes, parei na estação de São Sebastião. Invisível, pensei, aqui sou invisível. Às vezes não há uma sensação melhor do que sair à rua sem que ninguem nos julgue, sem que ninguém realmente nos olhe, dá vontade de respirar fundo e olhar todas as caras deconhecidas. Eu senti-me espectadora de um espectáculo, invisível, olhei nos olhos de todos os que passavam por mim, e não desviei o olhar uma só vez, senti-me livre, adoro esta cidade, adoro esta anonimia. Fui esponja, e absorvi o que cada um que passava por mim trazia, desde os apressados e energéticos, quase a deixarem cair o cigarro e a entornarem o café, a tropeçarem nas botas e segurarem o telemóvel entre as orelhas e o pescoço, como os vagarosos a olharem o chão como se de um obra de arte se tratasse e a caminharem lentamente, arranstando os pés e ao mesmo ritmo o casaco que seguravam com uma mão e que arrojava no chão, como que o seu desejo fosse que cada passo representasse uma hora, para poderem chegar ao fim daquele dia. O sol de inverno espreitava pela neblina matinal e eu caminhava pelos jardins da Gulbenkian como se de uma selva se tratasse, apeteceu-me colher todas as flores, cruzaram-se comigo muitos solitários como eu, cada um nas suas divagações, invisiveis. Decidi entrar e cheirar o perfume das pessoas arranjadas e bem vestidas, o toctoc dos saltos altos no solo nunca soo tão bem. Sentei-me no buffet sozinha, algo que nunca tinha feito antes, e observei mais de dez pessoas sozinhas como eu, todos ali em comum, invisiveis mas contemplando-nos secretamente uns aos outros. Entrei na exposição, na verdade, artes visuais e museus nunca me interessaram particularmente até ultimamente, até quando me apercebi que atrás de um desenho, quadro, ou escultura está alguém que o concedeu e projectou, alguém que o desejou e executou, alguém que fez questão de o mostrar ao mundo. Comecei a abandonar a teoria infantil do "são riscos, eu tambem consguia fazer isto", para me perguntar o porquê de ele querer mostrar aqueles riscos ao mundo, o que é que eles significavam realmente.
O que é o artista, afinal, além daquele que só dança, só canta, só toca, só faz alguma coisa que toda a gente podia fazer, mas só ele faz, só ele faz daquela forma, só ele faz bem, só ele faz naquele contexto. Aliás, quem não é, afinal, artista?
O que é o artista, para além daquele que, por momentos deixou de ser invisível?




