"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Fundação calouste gulbenkian




Fugi, invisivel.
Apanhei o autocarro para Lisboa e sem pensar sequer duas vezes, parei na estação de São Sebastião. Invisível, pensei, aqui sou invisível. Às vezes não há uma sensação melhor do que sair à rua sem que ninguem nos julgue, sem que ninguém realmente nos olhe, dá vontade de respirar fundo e olhar todas as caras deconhecidas. Eu senti-me espectadora de um espectáculo, invisível, olhei nos olhos de todos os que passavam por mim, e não desviei o olhar uma só vez, senti-me livre, adoro esta cidade, adoro esta anonimia. Fui esponja, e absorvi o que cada um que passava por mim trazia, desde os apressados e energéticos, quase a deixarem cair o cigarro e a entornarem o café, a tropeçarem nas botas e segurarem o telemóvel entre as orelhas e o pescoço, como os vagarosos a olharem o chão como se de um obra de arte se tratasse e a caminharem lentamente, arranstando os pés e ao mesmo ritmo o casaco que seguravam com uma mão e que arrojava no chão, como que o seu desejo fosse que cada passo representasse uma hora, para poderem chegar ao fim daquele dia. O sol de inverno espreitava pela neblina matinal e eu caminhava pelos jardins da Gulbenkian como se de uma selva se tratasse, apeteceu-me colher todas as flores, cruzaram-se comigo muitos solitários como eu, cada um nas suas divagações, invisiveis. Decidi entrar e cheirar o perfume das pessoas arranjadas e bem vestidas, o toctoc dos saltos altos no solo nunca soo tão bem. Sentei-me no buffet sozinha, algo que nunca tinha feito antes, e observei mais de dez pessoas sozinhas como eu, todos ali em comum, invisiveis mas contemplando-nos secretamente uns aos outros. Entrei na exposição, na verdade, artes visuais e museus nunca me interessaram particularmente até ultimamente, até quando me apercebi que atrás de um desenho, quadro, ou escultura está alguém que o concedeu e projectou, alguém que o desejou e executou, alguém que fez questão de o mostrar ao mundo. Comecei a abandonar a teoria infantil do "são riscos, eu tambem consguia fazer isto", para me perguntar o porquê de ele querer mostrar aqueles riscos ao mundo, o que é que eles significavam realmente.
O que é o artista, afinal, além daquele que só dança, só canta, só toca, só faz alguma coisa que toda a gente podia fazer, mas só ele faz, só ele faz daquela forma, só ele faz bem, só ele faz naquele contexto. Aliás, quem não é, afinal, artista?

O que é o artista, para além daquele que, por momentos deixou de ser invisível?

Afinal, é mesmo um livro



"I am unwritten,
Can't read my mind
I'm undefined
I'm just beginning
The pen's in my hand
Ending unplanned

Staring at the blank page before you
Open up the dirty window
Let the sun illuminate the words
That you could not find
Reaching for something in the distance
So close you can almost taste it
Release your inhibitions

Feel the rain on your skin
No one else can feel it for you
Only you can let it in
No one else, no one else
Can speak the words on your lips
Drench yourself in words unspoken
Live your life with arms wide open
Today is where your book begins
The rest is still unwritten, yeah

I break tradition
Sometimes my tries
Are outside the lines, oh yeah yeah
We've been conditioned
To not make mistakes
But I can't live that way oh, oh

Staring at the blank page before you
Open up the dirty window
Let the sun illuminate the words
That you could not find
Reaching for something in the distance
So close you can almost taste it
Release your inhibitions

Feel the rain on your skin
No one else can feel it for you
Only you can let it in
No one else, no one else
Can speak the words on your lips
drench yourself in words unspoken
Live your life with arms wide open
Today is where your book begins
the rest still unwritten"


Não consigo dormir, dentro da minha cabeça, folheio as páginas de história, da minha história que já escrevi. Neste livro, no livro da vida, só se escreve a tinta permanente, podemos riscar frases e até mesmo capítulos da nossa vida, mas a verdade é que não os podemos apagar, e algures mesmo que escondidos por baixo de gatafunhos do inconsciente, eles continuam lá, apesar de ilegíveis. Todos os dias escrevemos nele, mudamos capitulos, formas de escrever, colocamos pontos finais quando as frases não terminaram ainda e reticências com esperança que ainda algo mude o sentido daquela frase. Às vezes gostava de ser um livro e nele escrever o que queria ser e sentir, apagar os erros e editar as personagens, trocar tudo quando e como quisesse.
Em noites de insónia, parece que abri uma nova página em branco. Sei que basta escrever a primeira palavra, mas quero escolhê-la bem e isso faz com que demore, com que muitos rascunhos a lápis vão desgastando as folhas devido ao medo de usar de vez a caneta e escrever algo, fazer algo, viver. Não podias parar de vez em quando vida, não podias esperar um pouco, relógio? Não quero ter vontade de arrancar mais páginas, não quero passar por isso de novo, por isso mundo, espera, deixa-me fazer mais rascunhos, dá-me mais uma noite sem dormir.

Todos somos mulans



"Look at me
You may think you see
Who I really am
But you'll never know me
Every day
It's as if I play a part
Now I see
If I wear a mask
I can fool the world
But I cannot fool my heart

Who is that girl I see
Staring straight back at me?
Why is my reflexion someone I don't know?
Somehow I cannot hide, who I am, though I've tried
When will my reflexion show who I am inside?"


Acho que a certa altura, todos nos fartamos de seguir padrões, todos nos questionamos quem somos, todos nos olhamos ao espelho e sentimos que não conhecemos a pessoa que nos olhar, inalterável, do outro lado (ao menos, ela está sempre lá, ao contrário da maior parte das outras pessoas). Todos quebramos regras, todos tentamos procurar sentido às coisas. Todos ou quase todos, tentamos fazer o que está certo, nem que seja pela armadura de outra pessoa, ou por outra pessoa, como fez mulan. E depois, talvez depois de tentarmos passar por alguém que não somos, descobrimos, sem querer quem somos. Se a vida tem sentido? Não. Se isso quer dizer que não vale a pena viver? Opá então matem-se já.
Se nada tem sentido, de onde vêm todos os sonhos? E porque é que temos emoções? Porque é que há pessoas que gostam de carros e outras de cinema? Os cientistas dizem que é tudo causado por químicos. Se for, devemos não seguir os nossos químicos que produziram outros químicos que pelo menos nos dão a ilusão de que somos os estamos felizes? Por ilusório que seja, gostamos de estar felizes, a sensação é de certo melhor do que a de não estar. Então talvez a ideia seja tentar que ela se prolongue o máximo tempo possível, construindo aquilo a que gostamos de chamar personalidade, ou carreira, ou relação, ou rotina, ou seja o que for, a verdade é que todos passamos por pelo menos uma dessas uma vez na vida, pela fase que eu gosto de chamar a fase mulan. Não acredito que haja ningum lá em cima, mas então, porque é que o inventámos? Serão todas as nossas invenções uma simplificação de algo que se passa no nosso cérebro que desconhecemos na totalidade?
E como a vida não tem sentido, ou se tiver não o vamos descobobrir, ou se o descobrir-mos não vamos saber se é verdadeiro ou não, o melhor é tentarmos urgentemente arranjar forma de nos enganar-mos ou vamos dar ou em vagabundos, ou em loucos, ou em, suicidas, ou em velhos rabugentos, e isso chama-se viver, palavra que para mim tem dois caminhos: fazer e sonhar.
No palco da vida, somos actores sem guião mas com muitas personagens. Só depois de experimentarmos todas essas personagens percebemos quem e como é o actor.
Se morremos sem perceber, não faz mal, desde que a peça tenha valido a pena



Carolina jorge, para ti, Joana Lemos.

Never land

"Wendy:There is so much more in real world.
Peter Pan:What? What else is there?
Wendy: I don't know. I guess it becomes clearer when you grow up.
Peter Pan:Well, I will not grow up. You cannot make me!
Wendy:
To live would be an awfully big adventure
Peter pan:
No, no adult adventures, no feelings. And if you want you can go away, and take your feelings with you
Wendy: I'm sorry Peter, I must grow up, and I must return before I'm forgotten. So please, don't forgett me.
Peter pan: never. never is my favourite word. Never land will always bellong you, just by believing.
Wendy: And this will allways bellong to you, when you remember (wendy kisses peter."




Sempre acreditei que todos os escritores, em todos os livros que escrevem, em todas as personagens que inventam, representam partes deles e da sua mente. Estive a pensar, por exemplo, no Peter Pan. Quem é que não devia tentar alcançar dentro de si a terra do nunca? Quem é que não tem dentro de si um Peter Pan, a criança que nunca cresce, uma maternal e responsável wendy, um inteligente e teórico george, e um inconsequente michael? Quem não tem dentro de si aquela uma fada sininho, que por vezes desaparece,que só existe se acreditarem nela, a possuiora do pó mágico que permite levantar voo para a terra do nunca? Quem é que não tem dentro de si um capitão gancho, que tenta constantemente destruir a luminosa sininho e o livre peter pan?Quem é que dentro de si não tem piratas, indios, sereias e imaginação? A quem é que na sua mente, não é rodeado ameaçadoramente por um crocodilo que engoliu o relógio, lembrando-nos com o seu constante tic-tac que denuncia a sua presença, do relógio, o objecto mais poderoso do mundo ocidental. Quem é que não foi lá nem uma vez? É por isso que todas as histórias, todos os textos, todos os livros, são importantes. É por causa disso que nunca consegui adormecer a ver um filme. É por causa disso que sempre que sinto uma parte de mim a morrer me apetece gritar: "I do, I do believe in fairys", para que a fadinha dentro de mim não morra e para que possa sempre, com um pouco de pó mágico, voar até à terra do nunca, visitar a minha imaginação, ver o rapaz que nunca cresce, Peter Pan.

terça-feira, 30 de março de 2010

Barreira de vidro





Vivemos a uns dois passos um do outro e sinto-me completamente inatingível, e quanto mais atingível tento estar, mais me apercebo do quanto não o estou, estou longe, muito longe. Já passámos a fase em que tudo se resumia a paixão, ao encantamento inicial, agora mais do que te encantar e deixar-me ser encantada, tenho a vontade, e quase a obrigação, de ser sincera e transparente contigo. Não o era, não o fui, para ninguém, e não foste excepção. Eu sei que te sentes confuso com esta distância, que não a entendes. Estava contigo e as minhas inseguranças consumiam-me viva, perguntava-me o que estarias a pensar, a sentir, perguntava-me o que achavas de mim. Senti uma urgência de parar de correr, de me sentar num banco e tentar perceber o que se estava a passar e qual é que era a meta. Ao tentar fazê-lo percebi que me tinha enganado em todo o percurso,e no caminho me tinha perdido a mim mesma e já nem me conhecia. Estava tão preocupada em mostrar alguma coisa aos outros que esqueci os meus desejos, sonhos, e mesmo manias e ambições. Estava tão preocupada em continuar a correr que não olhei o caminho que percorri. Mas o passado é arrependimento e o futuro ansiedade, o que importa é o presente. E no presente odeio espelhos como sempre odiei, mas forço-me a mim mesma a olhá-los. Nem sempre me desenvolvo, me deixo ir, nem sempre me perco, no último momento defendo-me sempre com um jogo de cintura invejável.
Houve momentos em que me orgulhei desta autonomia e independência, que me fazem tão inexpugnável. Já não. É desligar da vida, como se nos tirassem da ficha com um gesto brusco e desumano. Essa força de me proteger dos outros, ausentar-me de mim mesma, leva-me a perguntar onde estou agora? Vai ser difícil encontrares-me. “Não tens laços carolina, perdeste a capacidade de os criar e tu sabes. A tua mania de quereres fazer tudo sozinha, de manteres tudo secreto e para ti mesma fez-te estar cada vez mais longe do mundo" digo para mim mesma. É verdade, e por muito tempo pensei que conseguia viver a iludir os outros que vivia nesta realidade e que ela me interessava, que me interessava por eles e fazia-os acreditar que eles se interessavam por mim, como se alguma vez me tivessem realmente conhecido. Por uns tempos pensei que conseguia ser feliz assim. Mas a verdade é que quando reparei tinha dessa ilusão e método de sobrevivência, construído uma vida, uma realidade, quase mesmo criado laços, totalmente sem querer. Abri os olhos e acordei no meio do palco, numa peça de teatro que fui eu que escrevi e na qual sou protagonista e até acredito. Mas há alguma coisa que não me permite abrir as cortinas desse palco, uma parte de mim que sente que não é aquele o papel que é suposto representar, ou que não é suposto representar de todo. Que a personagem não sou eu, mas não consigo agir de outra forma. É a minha própria vida, e é a vida é a coisa mais curta, sem sentido, imprevisível, e completamente indefinível que alguma vez vamos ter e para além disso nunca saímos dela vivos, por isso estou à espera do quê? Nessa peça comecei com uma máscara completa e ultimamente tenho-me livrado e cada vez mais adereços, até ficar seminua em palco.

Foste a primeira e última coisa que alguma vez na vida me fez continuar sabes? Que me fez viver. Ninguém me conhece tão bem, ou ninguém o tenta tanto. Tu existes e é só isso e não é preciso mais nada. E existes com força, dentro de mim. Em cada palavra que digo e em cada pensamento que tenho porque já te tenho entranhado. na pele, no corpo, na alma. já es bocado de mim e um bocado grande. Entraste na minha vida e à entrada bateste com a porta, quando me dei conta tinhas entrado na minha vida, talvez a primeira coisa que realmente o fez. E por muito medo que tenha, por muitas inseguranças que tenha, por muito que me seja difícil partilhar algo com alguém e ter de me mostrar como sou, sei que não quero que saias dela.

Um dia entrego-te a vida numa caixinha, prometo, entrego-te o meu corpo, a minha alma, e o que tiver mais para te dar. Mas antes de te dar isso tudo, tens de me deixar limpar tudo, arranjar tudo, e isso tu sabes, tu conheces-me, que pelo menos agora, tenho de ser eu a fazer.


Afinal temos todo o tempo do mundo, se estiver para acontecer, se for suposto acontecer e se for suposto esperares.
Afinal até temos muito. Não chega aos olhos dos outros? Chegasse.

Às vezes, custa sair de casa.


A minha cabeça é um radar autentico em busca de alguma coisa que se identifique comigo. Acho que funciona demais. Não pára um segundo. Serei original nisso? Pergunto-me muitas vezes o que é que os outros estarão a pensar, para onde estarão a olhar, o que planeiam, não por ter medo que me julguem, mas porque eu me estou a julgar. Tenho demasiado medo de fazer as coisas mal, demasiado medo de estar a desperdiçar tempo, de estar a deixar a fugir oportunidades preciosas.

Afinal:

"Não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio, à segunda vez, tanto nós como o rio estaremos mudados"
E uma oportunidade perdida vai sê-lo, para sempre.

Somos humanos e é essa a ideia. Pensarmos que estamos a fazer tudo bem, mas estarmos a fazer tudo mal, para depois percebermos que estávamos e chegar a um ponto que quem for minimamente esperto já nem fica irritado de ter feito as coisas mal, limita-se a mudar de estratégia. Para depois essa estar errada e chegarmos ao fim da vida sem ter encontrado o que era mesmo certo.

Porque não existe tal coisa: o certo.

Por isso a ideia da vida é passá-la a perseguir algo que no fundo temos noção que não existe, é procurar o que no momento, nos faz acreditar que afinal ele até existe. É o que no momento, nos faz felizes. E estar feliz não é rir à gargalhada, estar feliz é acordar de manhã e saltar da cama com vontade de começar a viver aquele dia, é deitar-se de noite e saber que o dia não podia ter sido melhor, que quer adormecer e pensar que amanhã vai viver o dia dessa forma, que amanhã vai ser feliz.

A ideia da vida é a que quer que seja que sirva para nos iludir no momento, é procurar e amar essa real e essencial ilusão de sentido na sua verdadeira essência. Para o conseguir só tem que se construir uma fortaleza poderosa dentro de nós, em que nos mantenhamos lá firmes, onde permanceça a nossa própria essência, e para que as ilusões de sentido possam ir e voltar sem nos consumir, mas só fazendo-nos crescer.

Às vezes acordo assim, detesto teorias, palavras, regras, números, normas e leis. Às vezes acordo com vontade de sentir a chuva na minha pele, escrever sem ter medo de que as minhas palavras não tenham valor, tocar notas que nunca tiveram significado para mim mas têm naquela manhã. Fazer as malas e embarcar para bem longe onde ninguém me conheça. Às vezes apetece-me entrar em coma da vida no mundo real, e viver apenas da imaginação. Às vezes, custa sair de casa. Sair do nosso próprio mundo, vestir o casaco, olhar ao espelho, pôr o perfume e a base, calçar as botas. E pronto, a partir do momento em que saímos daquela porta, há olhares, e cada olhar esconde outro mundo, outro alguém que saiu do seu mundo, e que constrói o que acredita ser o nosso dentro do seu. Julga-nos. E faz desse nosso mundo o que quiser dentro de si. Às vezes não me sinto pronta. Às vezes, custa sair de casa.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Caminhantes




É tão bonito como cada pessoa se torna ela mesma, com todos os pormenores de vivências e experiências boas e más, frases ouvidas ou sitios visitados que nos tornam tão diferentes uns dos outros. Todas as pequenas autenticidades que só aparecem na nossa vida porque não podiam aparecer na de mais ninguem,e são tão totalmente nossas que nem damos por elas. Todos os segundos que oferecem algo mais, um pensamento ou uma imagem, ou algo de mesmo muito insignificante, que nos faz ser nós próprios, inconfundíveis e autênticos, em qualquer parte do mundo, a qualquer hora, em qualquer circustância.
Se bem que às vezes è tão mais fácil tentar pensar que afinal somos todos iguais ou muito parecidos, para não nos sentirmos sozinhos em tudo, para sentirmos uma norma ou indicação de caminho a seguir, acabando por, apesar de o negar, nos vestirmos todos de forma muito parecida, falarmos de forma não tão diferente assim, e não variarmos muito no tipo de coisas que fazemos ou defende-mos. Talvez um pouco, mas nunca muito. E assim, passamos o tempo a tentar encontrar no outro semelhanças que nos façam entendê-lo para no fundo nos entender-mos a nós mesmos, vivendo num circulo de espelhos de todos os outros que nós somos. Mas seja como for, nem num brilho no olhar, na forma de falar, ou até mesmo na própria aparência, algo há-de sempre mostrar identidade, e portanto, alguém e algo a descobrir. Mais uma história por ouvir e algo mais a conhecer. E às vezes conseguimos passar uma vida inteira sem nos apercebemos que só há duas coisas que a tornam valiosa: nós próprios, e os outros.

Porquê um blog?

Naqueles dias em que não se sai de casa mas se viaja muito mais do que em qualquer "interail", em que se viaja pelos trilhos do pensamento, das idéias, das memórias. Naqueles em que em vez de se viver o presente, o avaliamos, em vez de esquecer o passado, o relembramos, em vez de decidir o futuro, o questionamos, que em vez de acordarmos, sonhamos. É nesses dias que nos perguntamos o que somos afinal, nesses dias em que vivemos no nosso primeiro mundo, não o real, mas o nosso próprio mundo, tão rico e obscuro como o real, mas apenas mais desvalorizado. Como uma casa gigante, com grandes janelas para o exterior. Há quem passe o tempo à janela sem olhar para a sua própria casa. Há tambem quem feche as suas cortinas. Eu tenho as minhas janelas bem abertas, para que o sol de lá de fora entre e a ilumine o meu mundo, a minha casa, para que o frio entre tambem no inverno. Mas não só, para que tambem eu, de dentro da minha casa, atire pedaços de mim para o exterior, sejam estes notas de música que soam no piano, melodias cantadas, palavras escritas, os lágrimas derramadas. Por estas janelas para a alma (para a nossa casa) que os olhos são. Naqueles dias, em dias como hoje, fecho a janela e corro as cortinas, fico comigo de forma a que só eu me possa ver e julgar, exploro o meu mundo com coragem e curiosidade, desvendo mistérios e resolvo enigmas. Neste mundo que pessoas atiraram através da janela pedaços delas próprias também. Depois, mais tarde, abro a janela para contemplar a minha vida real, para poder gritar à janela o que se passa cá dentro, para que alguém que tenha a janela aberta, possa recolher pedaços do meu mundo para o seu. Em dias assim, como hoje, decido escrever num blog.