Andei a minha vida inteira a estabelecer objectivos e regras idiotas a mim mesma, por rejeitar as dos outros e por outro lado precisar delas, mas agora, sem vozes de fundo nem pressões exteriores, agora, na pureza de uma casa vazia e na calma do fim de tarde, só sei que nunca fiz a mais pequena ideia daquilo que quero. Aliás, acho que no fundo ninguém faz. A única coisa que desde os primórdios do mundo moveu o homem foi o amor, não apenas o romântico, mas o amor em si, a algo. Quer seja à arte, ao dinheiro, à vida, não interessa, sendo que obviamente o amor mais forte é o que é dirigido a alguém, visto que esse é o único amor que é recíproco: há sempre a esperança dessa pessoa nutrir por nós amor também (e não me parece que quem ame o seu trabalho esteja à espera de ser amado por ele, apesar de esperar ser amado ou admirado por causa dele, mas nunca na mesma proporção), o amor a alguém é o único possível de ser retribuido.
E é só através de um amor a algo que a vida ganha sentido, é a força que move o universo e que aproxima e afasta coisas. E só de uma aproximação entre coisas, se constroem coisas maiores: os átomos, os animais, os tijolos das casas, isso é visível seja qual for o lugar onde estejas ou no que quer que penses.
E eu sempre tive isto dentro de mim, esta vontade de construir algo maior, mas só o queria fazê-lo quando estivesse cem por cento certa de o querer, de estar preparada para o fazer. Essa tentativa cada vez se prova mais errada a ela mesma.
Nunca se está preparado para a vida, até porque ela faz questão de não se manter a mesma dois segundos seguidos, nunca é possível saber o que realmente se quer, isso não vai acontecer. Normalmente só temos certezas sobre aquilo que não queremos, e fugimos mais de medos do que perseguimos sonhos, e muitas vezes passamos a vida a fazê-lo. Fugimos mais de uma má vida, ou da solidão, ou da miséria, do que percorremos o amor, ou valores, ou ideais: ou seja, muitas das coisas da nossa vida vêm por acaso, e aparecem no caminho enquanto fugíamos de outra coisa qualquer, não me refiro a uma fuga covarde, mas a uma fuga de sobrevivência, raramente o que temos surge como exactamente o que procurávamos.
Mas quando chegaste à minha vida, foram esses os únicos segundos em que me lembro de não saber só o que não queria, mas ter a certeza do que queria: e nesses segundos, nesses breves segundos, a única coisa que eu queria realmente eras tu, e essa sensação de certeza, foi em mim por si só já um milagre. E é por isso que vou aí ter contigo, porque estou farta de percorrer o mundo sem nada sem ser a mim mesma, porque já não tenho mais medo de perder isso, e porque me vou levar a mim mesma comigo para te entregar mal te vir.
Tu ficaste e isso é razão suficiente para não te querer perder, porque és aquilo que eu tenho. E depois de ganhar a coragem para o admitir, és tudo aquilo que realmente quero ter.

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