"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

sábado, 18 de setembro de 2010

Nunca me perdi

A verdade é um fantasma que há que perseguir cada vez mais longe.

Nunca me perdi, sou demasiado covarde para isso. Sou demasiado covarde para arriscar e apostar tudo de mim e todo o meu esforço em algo, mas demasiado covarde também para me perder, para agir sem pensar.
Nunca me perdi, mas não consigo estabelecer metas nem destinos, sou sempre apanhada no meio, sou sempre um eterno poço de dúvidas, de contradições, poço este que não me deixa avançar mais. Limito-me a ir dando passinhos em falso e não falhar no pouco que me exigem, e para não o fazer, a tentar que esperem o menos possível de mim, a tentar ser o mais sincera possível para não iludir ninguém. Prefiro ficar escondida e ir entregando os pedaços que posso, numa espécie de liberdade condicional, pois quando não estou encurralada, apanhada, e presa pelo medo, e ansiedade, é porque estou fugir deles, como se não pudesse estar bem, em paz. E toda a gente parece alcançar essa segurança que protege de todas as sombras em algo ou alguém e para mim nada é suficiente. Mas guardo há coisas que guardo tão bem dentro de mim, tão carinhosamente no meu coração, que não consigo nunca perder-me delas, do que amo.
Mas no último momento, largo-as, como se tivesse medo de não fugir, de ficar, de manter e guardar, de assumir que acredito nelas, de ser e estar, de viver, sem saber do que estu a fugir. Não sei e queria saber, não sei e não tento saber, não sei e tenho medo de saber, não sei nem nunca soube e tenho medo de não vir mesmo a saber
Eu não me perco, nunca, nunca me perdi, nem de ti nem de nada, acabo por manter sempre um fio de ligação a tudo, mas também não me envolvo, quando o faço volto para trás. É como uma nuvem me afastasse da realidade como um filtro,e à medida que o tempo passa, com ele passa a vida, como a badalada de um sino que toca de hora em hora a recordar-me de que ela está a passar e que o tempo existe, a lembrar-me de que eu existo também, de que tenho mesmo uma vida e que convinha vivê-la antes que ela acabe.

Gostava de desligar esse filtro,como se desliga nos sonhos, viver como quem sonha, sem filtros, sem limites, gostava de amar como quem sonha, de amar com tudo de mim, de uma forma que eu não conheço, de amar com este amor que genuinamente sinto por ti, pelas coisas, pela vida, e que penso que todos sentimos, por alguém, por algo, pela vida. Fico cheia de força por dentro, cheia de beleza que eu só consigo ver e sabes, é um autentico desperdício, porque eu não a consigo nem contemplar nem exteriorizar, só deixá-la morrer. É como se tivesse uma estrela gigante a latejar dentro de mim, sem saber lidar com ela, e deixando que com o tempo ela esmoreça. E sabes o que acontece a uma estrela quando morre? Não se limita a deixar de brilhar, torna-se num buraco negro, daqueles que engolem tudo o que se aproxima.

E tenho tanto medo que às vezes limito-me a ficar escondida e não mostrar nada, porque não sei o que mostrar, como se fosse mensageira de algo que não conheço e só quando me sai pela pele é que consigo entender (atenção, figurativemente e bem longe de misticismos). Enquanto isso tento sobreviver, tento fazer o mínimos, tento procurar partes disso, mas as vezes sinto-me como uma autentica sombra de mim mesma. Gostava que um dia, em vez de conhecer apenas a minha sombra, me conhecesse de facto. Nunca me perdi, e tenho medo de me perder, um medo irrepreensivel, incontrolável, mas compreensivel. A vida é confusa,é um manto de retalhos impossível de controlar por muito que nunca resistamos em tomar as suas rédeas, em interpretá-la, quando no fundo,ela só tem o sentido que lhe quisermos dar e isso é demasiado para fazer enquanto também a temos de a viver simultaneamente.

Apetece-me apanhar o próximo táxi e pedir que me deixe em qualquer lado, um lado qualquer mas diferente, que certamente mudará o resto da minha vida, tal como tudo o que fazemos a vai mudando e construindo, porque afinal viver é exactamente isso, ir escolhendo os táxis que vamos apanhar julgando saber onde nos deixam, e por vezes somos surpreendidos.
Mas eu, fico sentada a ver os táxis passar, como se nenhum fosse o certo, no ultimo momento, nunca consigo entrar, como se não fosse ainda, a minha vez. Nunca sequer tentei, eu não tento.
É por isso que nunca me perdi, porque nunca tive coragem.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

diagnóstico da dor

Sentimos a dor mas não a sua ausência

Há sempre dores, toda a gente tem dores, e doem a todos da mesma forma. Não há escalas de dor universais, só personalizadas, um risco no automóvel pode doer tanto a alguém como a morte de um parente a outrém, pois a dor é de quem a sente consoante a sua forma de sentir o que quer que seja. Quando e como dói, só a quem dói é possível saberm quando se sabe. Porque às vezes não se sabe, é o tipo de dor que dura desde sempre como pano de fundo, a inquietação inexplicável, música ambiente desagradável, que faz doer a cabeça e distrair-nos mas à qual nos recusamos a prestar atenção.
E essa dor, essa dor é a pior de todas, porque é como uma sombra que está colada às próprias costas, bem atrás de nós, mas impossível de a vermos, e mesmo quando aparentamos aproximar-nos da claridade, ela ainda se torna maior e nunca permite que à nossa volta fique tudo totalmente claro.
As dores são diferentes, e vividas de maneiras diferentes, porque as pessoas são diferentes, mas de certa forma assemelha-se assustadoramente a um vírus, visto que se espalha e ataca quem está exposto a ele, mesmo que a reacção de cada um seja diferente. O nosso sistema imunitário psicológico (que também varia de pessoa para pessoa) combate-o sempre com as mesma imunidades mentais, pela mesma ordem, quando realmente a diagnosticamos e percebemos que algo não está bem: tal como a dor de física, normalmente a dor é o sintoma de algo que não está bem.
Todos combatemos o vírus em cinco fases, sempre, variando a duração de cada uma e raramente concluindo o tratamento, raramente tendo sucesso na extinção do vírus dor:
-primeiro negamo-lo, dizemos que não é nada, que vai passar(e frequentemente permanecemos nessa fase, pensando que já estamos curados)
-depois ele desenvolve-se e usamos a raiva e a revolta, tentamos combatê-lo à força, praguejar pela nossa má sorte (é o antibiótico mais agressivo, daqueles que nem nos deixa dormir)
-depois, a prevenção, tentamos negociar a dor, persuadi-la, percebê-la, pedir-lhe mesiricórida e evitar que cresça, combatê-la com argumentos racionais que a acalmem ou acalmá-la artificilmente (seja com alcool, droga, comprimidos, sexo ou comida ou desporto ou mesmo compras ou qualquer outro tipo de "terapias"). É a fase diplomática, a fase do sorriso amarelo, da esperança.
-Depois surge a depressão, em que somos derrotados e dominados, e na qual nos limitamos a sentir a dor, a ficar de cama, a esperar que o tempo ajude os remédios a fazer efeito.
-e, por fim, a aceitação. Aprendemos a viver com o vírus e a não alimentá-lo, vamos usando um pouco de todas as imunidades e com a devida distância a tratar o vírus da melhor maneira. O vírus daquela dor continuará ali, adormecido, até que por alguma razão ou olhar ou palavra, algo o volte a despertar, e o ciclo, mais lento ou mais acelarado, se repita de novo. Se o fizermos de forma intensiva demais, corremos o risco a que a dor se torne eterna por ganhar ela própria imunidade às nossas defesas.
A verdade é que tudo se desgasta, tudo acalma, tudo murcha, com o passar do tempo, da tristeza mais profunda, da beleza mais transcendente, do sabor mais intenso, tudo perde intensidade até ao resumidamente nada, enquanto novas coisas profundas, transcendentes e intensas diferentes nascem.
Assim, todas as dores, com o passar do tempo, saram e deixam só uma cicatriz, que pode ser aberta mas nunca sangra da mesma forma. E quanto mais coisas vemos murchar, mais temos dentro de nós, e provavelmente mais irão nascer também.
E o pior de tudo é que sabemos perfeitamente que a qualquer momento, tudo pode recomeçar.

Ilha

"A consciência da insonsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência."

Todos sabemos como são as pessoas. Estamos habituados a elas como estamos ao nosso próprio corpo, ao oxigénio, ao sol, à agua, e a todo o resto da natureza.

As pessoas, para nós, fazem parte da natureza e a forma como convivemos todos os dias com elas, nos rimos, falamos, ouvimos, vivemos, já é também natural, intrínseco, habitual. É estranha, essa nossa necessidade de partilhar e ser partilhados, como se fôssemos tão estranhos a nós mesmos que nos sentimos a ser comidos por nós próprios quando estamos sozinhos, como se precisássemos de ter a certeza que alguémestá lá, do nosso lado, que existimos para alguém e que fazemos parte do mundo. No final, o que todos sentimos é essa urgência de nos sentir reais, porque por muito sociáveis que sejamos vamos estar sempre incrivelmente sozinhos, porque pensamos consoante os nossos pensamentos e não podemos usar mais nenhuma cabeça, e olhamos segundo os nossos olhos mas não podemos usar o olhos de mais ninguém, estamos totalmente encurralados dentro de nós, da nossa história, do nosso próprio corpo, da nossa própria mente, na nossa própria vida. Não podemos simplesmente escolher sair dela, apenas mudá-la, mas mesmo assim, não há forma de fugir de nós próprios. E mesmo sabendo disso, nunca paramos um segundo para olhar para os outros como sendo eles mesmos, uns seres tão únicos que não existe mais nenhum igual o qual num mundo tão inacreditavelmente gigante, não nos perguntamos como será acordar todos os dias no seu corpo, na sua cabeça, em sua casa, na sua vida ou o que ele pensa a adormecer. Só nós preocupamos com esta estranha necessidade de nos tornarmos real para o outro, de estender aquele braço, de construir aquela ponte como tentativa de provar um pouco daquele mundo.
Como se fôssemos todos realmente ilhas, vivemos na nossa ilha com a nossa história,o nosso passado, o que somos, os nossos sonhos, pensamentos, emoções e recordações, e vamos contruindo pontes com as outras ilhas, cada um constrói metade e tentamo-nos encontrar a meio. Às vezes resulta, e às vezes as próprias ilhas se juntam, como se fossem contra a natureza. Mas não deixamos de estar sozinhos dentro de nós mesmos, mesmo sem um segundo de solidão na nossa vida, porque só nos vivemos a nossa história, mesmo que outros assistam à mesma, só nós temos os nossos pesadelos de noite, mesmo que alguém durma ao nosso lado. A nossa capacidade de reflexão e memória, é o que nos distingue dos animais, e é o que nos faz tão sós. A capacidade de nos identificarmos como alguém, caracterizado por uma história, uma aparência, um passado e um possível futuro. Não a biografia, não os factos, ou não apenas isso. Mas toda a história de todos, mas todos, os nossos sentimentos, emoções, pensamentos, ideias, sonhos.
Não só a história de tudo o que já vivemos mas a história da história de como é que vivemos tudo o que já vivemos e o que isso muda na maneira como estamos a viver, e o que isso muda no que vamos fazer e que no que isso nos fará viver, e de que forma se irá refletir na forma como viveremos isso que vamos viver.
É ela o que nos completa, porque ela nos torna diferente de todos os outros. Podemos ter uma biografia parecida com alguém, mas nunca a mesma história, o mesmo percurso de sentimentos e pensamentos que cada um vive, é essa história que nos torna autênticos, que nos torna nós mesmos, mesmo que essa história seja modificada por outras histórias, essas outras histórias serão lidas por nós consoante a nossa forma de as ler

E em toda a liberdade e enriquecimento à nossa volta temos uma enorme falta de escolha, certezas, e verdade. Tão condenados a ser livres dentro da prisão que nós somos inevitavelmente, por termos sempre este pormenor que nos distingue dos animais e se chama consciência. A consciência presente mesmo nos sonhos, este espelho cerebral e emocional permanente em nós que origina a nossa memória, assim a nossa história, e, assim, nos constrói a nós.
No fundo, só a queremos partilhar, só não a queremos deixar morrer, só nos queremos tornar exteriores, é o que todos nós queremos, e é para isso que servem as atitudes, as relações, as paixões, os livros, os filmes,as palavras, e tudo quanto não é só pensado mas feito ou tornado real. não queremos ser uma ilha deserta no meio do nada da qual ninguém sabe da existência. Os outros são o nosso espelho, se não houver outros, se não houver um espelho, é impossível reconhecer a nossa própria cara, é impossível ser real.