"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Praia


Se me perguntassem onde queria viver, respondia que gostava de viver em ti, como um fastama invisível ao teu pensamento que vivia rodeado de ti e do teu mundo sem te aperceberes. Viver em ti seria como viver no mar. O mar, espaço infinito de invejável solidão e independência, de insistente tentativa de alcançar o mundo inteiro, de engolir toda a terra. Com o pulsar das ondas pulsam os pensamentos e no seu rugir o bater do coração. O mar, tu, o meu mar, muda, com as marés, fases e ondas, mas a sua água é sempre salgada, é sempre a mesma água, a mesma água salgada pelas lágrimas a mesma água pura e límpida como cristal. Viver em ti seria isso mesmo, viver no mar, de tal forma envolvente que ao molhar os pés à beira-mar já sinto fazer parte integrante do oceano, como que se puxasse por mim, como se fosse eu também mais uma gota de água. Sou facilmente controlada pelo mar ( e facilmente controlada por ti) e mesmo quando os dedos engelham e enfraqueço de frio, recuso-me a sair dele, de toda aquela beleza e perfeição de que sentimos fazer parte, eu e o mar ( e eu e tu), como se o tempo e o mundo esperassem por nós e deixasse que apenas existesse nele as ondas, o silêncio do seu rugir e das nossas palavras. Nunca sei onde o mar me leva, e isso às vezes faz-me voltar a terra por medo, só existe o seu movimento perpétuo, a sua instabilidade, mas apesar disso a sua profunda lei que se mantêm inalterável ao longos dos anos. A sua verdade.
Vivemos nisso mesmo, no dia a dia em terra, mas quando juntos, num oceano do qual desconhcemos limites do qual temos um medo gigante de nos afundar.
Mas ao longo deste tempo todo, já provámos que nos salvamos sempre mutuamente.
Figuradamente, parecemos duas metades de uma bola, duas metades cheias de falhas e buracos com a forma do outro, que no fim encaixam na perfeição e formam uma bola gigante e oca, segura, que armazena a vida de cada um de nós e a vida que partilhamos também. Separados, somos duas metades esfarrapadas, que deixam a vida escorrer entre as falhas, o tempo escoar as lembranças e aquilo que somos, facilmente arrastadas pelas tempestades do mundo exterior. Separados ,perdemos a capacidade de rebolar vida adentro, perdemos aquele espaço oco em que podemos contar com tudo o que temos e ao qual podemos acrescentar todos os dias algo novo, em que nada nos escapa. Perdemos a nossa imunidade, a nossa força, a nossa realidade.

Não cabe


Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas para dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito. Fernando Pessoa (Bernardo Soares)

Às vezes o mundo explode, o universo parece condensar-se na minha cabeça e apetece-me passar tudo para uma disquete e ver tudo depois, como que relendo. Dói-me a cabeça, dõe-me as palavras, a necessidade delas, e a sua insuficiência. Dói-me a vida e o que poderia fazer dela. Dói-me o mundo e o que estão a fazer dele. Apetece esterealizar-me, desinfectar-me de consciência, limpar-me de verdade e despir-me da curiosidade que me mantêm tão acordada para o mundo mas tão distante dele.
A necessidade de justificação, e a estranha sensação de perceber o universo,a vida, e o homem como se percebe um problema de matemática, a pouca duração dela. Será que todos conhecemos essa sensação? Será por termos inscritas em nós as leis do universo? Se estão na natureza, se estão em toda a extensão cósmica, também haverão de estar inscritas no nosso pensamento e consciência. Afinal, tudo evolui segundo leis do mais simples para o mais complexo e por isso é que evoluimos dos macacos, mas regimo-nos pelas mesmas leis.
Os átomos juntam-se para formar algo maior, nós também, as plantas respiram, nós tambem, os animais reproduzem-se, nós tambem, mas nós evoluimos e fomos dotados de ter consciência disso.
Mais complexidade, mesmas leis. Todo o pensamento, ciência ou religião nunca pode ser mero acaso, apenas e talvez uma interpretação mais dissimulada. Mas a evolução continua, caminhamos para a total consciência de nós mesmos e da Humanidade, e afinal, deve ser esse objectivo dessas leis. O nosso papel é descobri-las, tenha sido deus ou o que for do que surgiu este tudo tão imenso. Dotando-nos de consciência, também nos inscreveu obstáculos, o facto de sermos todos distintos e únicos, que nos faz ter a necessidade de primeiro descobrir a nossa existência e essência e só depois (e raramente) nos lembrarmos de que existe algo que é comum a todos os seres Humanos,independentemente de existirem ou não, sem espaço, tempo, ou sujeito, a Humanidade em si.
O animais nascem completos, biologicamente, sem mais nenhuma componente a preencher. Nós nascemos com muito por preencher, e habituámos a preenche-lo com aprendizagens de todos os géneros. Depois precisamos de uma orientação, de um sentido, para não nos preenchermos de qualquer forma. Com medo de tudo o que poderemos estar a perder tentamos manter coisas, pessoas, relacionamentos, e isso preenche-nos. Temos o sentido por garantido? Não. O sentido da vida acaba por ser procurar o sentido da vida. É essa sensação de insatisfação crónica no dia-a-dia que nos faz procurar conhecimento, produzia arte, desenvolvimento. O que se passa? Porque é que já ninguém está insatiseito? Queremos e desejamos ser únicos, marcar, daí surge a violência, marcamos as nossas diferenças, uns dos outros e da restante da natureza da forma errada. Sermos diferentes não significa que não façamos parte do mesmo. Onde está a globalização no que realmente importa?
Exacto, temos em nós a verdade do mundo, e este é uma fonte absolutamente inesgotável de algo a fazer. Porque é que nos limitamos a fazer sempre o mesmo?
Às vezes pergunto: mas o que é que passou pela cabeça do primeiro primata que se decidiu levantar e olhar o mundo de uma perspectiva totalmente diferente e mais elevada?
O cérebro é muito parecido para todos e o mais estranho é que todos funcionamos de forma parecida. Ninguém passa um milésimo de segundo sem pensar, sem fazer uma leitura astronómica da memória de toda a sua vida, mesmo quando não dá por isso e até a sonhar.
Sabemos que para além das leis físicas, da gravidade e velocidade, têm de existir leis metafísicas, leis da emoção e do pensamento que se mantenham inalteráveis tal como às outras. Jesus Cristo, Sócrates, Einstein, Buda? São só interpretações mais profundas, como pequenas experiênciasm, que nos enriquecem de forma incalculável.
Estou amuada por não saber nada, quero fazer birra com o universo e com a ideia fantástica de nos pôr num mundo e de nos obrigar a morrer sem nos dar tempo de o descobrir totalmente. Desmancha prazeres.

domingo, 6 de junho de 2010

Paris


Não se lembrava de fazer parte de tanta beleza, nunca na vida. Por momentos sentiu-se no interior de um filme dos anos 30. O seu quarto devia ser o melhor, através da janela era possível sobrevoar toda a cidade. O pôr do sol? Nunca vira nenhum tão esplêndido, o céu sussurava-lhe numa explosão de cores e os reflexos da luz no rio Sena faziam Ricardo esfregar com mais força os olhos. Sentado na varanda, com um copo de champagne, Ricardo percebeu que já fazia parte da magia de Paris, sobrevoou mais uma vez a Torre Eiffel com o olhar e foi aí que sentiu um vazio que não conseguia reconhecer. Não era solidão, o quarto, lá dentro, estava cheio de pessoas, e Ricardo só desejava que elas o deixassem sozinho.
Irritado com a sua insatisfação crónica, sentou-se. Tinha ido para Paris para fugir dos ciclos viciosos que a memória e a consciência nos fazem tomar, para encher o seu peito de beleza que o limpasse totalmente, que o preenchesse de vitalidade com a vontade de ver o tanto que havia para ver naquela cidade. Mas os dias passavam e as tardes pareciam arrastar-se, como se já tivesse visto tudo o que havia para ver, e a beleza, parecia não o conseguir alcançar.
Sentia-se um fantasma com tanta leveza, de algum modo toda aquela liberdade assustava-o, sentia-se perdido com tanta falta de indicações. O que é que faltava? Ele não precisava dela. O que sentia era como uma espécie de doença que não era maligna, chegava e partia, doía e não doía, incomodando muito mais quando pensava nela. Ela também nao precisava dele. Eles eram assim desde sempre, entregues a si mesmos, era assim que viviam, creciam, e gostavam.
Sabia que Liliana se questionava como é que era possível alguém ser tão frio. Ela não percebia, nunca ia perceber, ía chegar a todas as conclusões erradas, mas e então? Ele não a queria mais na sua vida. Precisava de paz e segurança, e não queria procurar essa paz e segurança nela, mas o facto é que sentia uma paz e segurança bem maiores nos seus braços do que naquela varanda, com Paris a seus pés. Estavam ambos congelados, parados no tempo, frios, e sem se conseguirem mover, que impulso de quebrar todo aquele gelo.
Perseguia-o essa sombra, de quem não podia fugir mas era totalmente impotente para agarrar. E quando nos persegue uma sombra, o melhor é fechar as luzes, e parar de fugir da escuridão. Com isto, acabou por adormecer.
Estava simples, de calças de ganga e camisa branca, cabelo solto e pernas cruzadas, com os olhos num livro, numa esplanada perto da Catedral de Notre Dame, mal a distinguiu entre o resto da multidão o ritmo do seu coração acelarava de tal modo que tudo à sua volta parecia mil vezes mais lento, aproximou-se e a garganta não emitia um som, ao contrário do que calculava, ela aparentava esperá-lo. -Então?- perguntou, levantando os olhos, num misto de tristeza e curiosidade
Ricardo pensou em tudo o que podia dizer, depois de parar no tempo, forçou-se a reagir, encolhendo os ombros com um inevitável sorriso ao olhar para a expressão de Liliana, nunca existiram tantas emoções diferente entre duas pessoas só
. - Hum.. Então? Sabia que ela esperava alguma coisa, ela tinha de lhe dizer, tinha de o fazer. Mas apenas a conseguia olhar em silêncio. Apesar de todo o nervosismo, era tão bom estar ali. Liliana entendeu que não valia a pena esperar por uma resposta, que não a ía ter, limitou-se a sorrir e a estender a mão em direcção ao seu ombro
-Ouve, eu vou ser sempre só aquilo que fizeres de mim na tua cabeça, para ti sim, mesmo que seja muito mais do que isso e mesmo que para mim sejas mais do que isso. Não importa, nós somos assim, incompletos e precisamos de nos completar com os outros. Sabes? Os outros são como reflexos pequeninos de partes de nós, e quando olhamos para reflexos diferentes, vamos conseguir sempre perceber reflexos de nós mesmo diferentes, e isso vai-te fazer gostar mais dos outros e de ti. Não te marterizes por precisar dos outros, ninguém quer estar sozinho porque precisamos de referências para saber que estamos a fazer as coisas bem. Somos demasiado livres e conscientes para não precisar de algumas indicações, algumas linhas traçadas. Não quero ser a tua vida, nunca quis, não quero tirar pedaços de ti, nem que tires pedaços de mim, nem da minha vida. Quero apenas que dês sentido à minha vida, quero-te a ti, na minha vida. E preciso. Leva o teu tempo, mas não cortes as nossas raízes. Um amor tão grande não pode morrer assim de repente, pois não? Não me entendas mal, meu bem, nunca disse que tínhamos vivido uma mentira, muito menos que não acreditava em ti. Acredito, mais do que em mim mesma. Deste-me muito mais do que julgas. Não tenhas medo de espalhar sementes mesmo que elas não cresçam, mesmo qe só sequem a terra, porque, quando menos esperares, olhas à tua volta e tens uma clareira, segura e ampla. Eu não quero ser a tua gravidade, não te quero puxar para baixo e para o mundo real, não te quero esmagar com leis da natureza nem exigir-te coerência, e desculpa se o fiz. Não existe isso em nós, coerência, existe mudança, sentimos as mudanças no nosso corpo, sentimos as mudanças em toda a natureza, e em nós e na vida, e em tudo. Mas a mudança muda alguma coisa, certo? Não somos só um momento desprovido de tempo e espaço, Ricardo, não somos só um grande alguma coisa vindo do nada. Mas por sermos muito do momento é que precisamos de marcar coisas, marcar momentos para não nos fugirem, precisamos de nos ligar às pessoas, é o que dá sentido à vida, é o que a faz passar de momentos. Do nada, nada pode nascer. E de nós nasce alguma coisa a todo o instante, boa ou má, é alguma coisa, que nasceu de alguma coisa, não é algo que se possa deitar para o lixo, mesmo que o seu valor mude. Não sei se te sou indiferente mas se não for, vamos ser nós sem fugir um do outro, ou tentar. Porque somos também muito um do outro. Leva o teu tempo, o que quiseres, pode ser?
Acordou em sobressalto mas mil vezes mais calmo. Percebera que nem sempre era preciso fazer algo para mudar algo, e que por vezes não precisamos de ouvir nada. Só precisamos de recordar o que nos foi dito milhões de vezes e nunca ouvimos.

sábado, 5 de junho de 2010

Alter ego


É legal, alguém mudar de pessoa em que vive?
Estou cansada desta rotina, de viver há 17 anos na mesma pessoa.
Nem gosto dela por aí além, principalmente quando decide acordar com borbulhas. E está sempre a discutir comigo, constantemente.
Muito gosta ela de me chatear a cabeça, de me fazer perguntas. Não sabe fazer nada sozinha, tem de pôr em causa tudo. É uma seca, a míuda, ouçam, é uma seca.
Vim aqui parar, não é lá grande coisa.
Ela fala, fala, fala, eu falo, falo, falo, e estou farta de conversa. E de discussões, e zangas nossas. Sim, porque com isto tudo depois ela é que fica com a acção. As palavras dela, ultimamente, não me encaixam no ouvido. Tornaram-se barulho na cabeça e mesmo ao escrevê-las continuam a incomodar-me. Já não consigo ouvir-me nem ouvi-la, muito menos ler o que escreve, é uma miuda presumida que acha que sabe escrever. Aliás, que acha que sabe fazer alguma coisa.
Olhem, eu digo-vos: não sabe! Por amor de deus, quem é feia tem o dever minimo de fazer alguma coisa para compensar, não é?
É o que eu acho, mas ela continua a dizer-me que não adianta eu continuar a queixar-me. Pois, obrigada, a mim ela sabe que vai ter o resto da vida, não tenho escolha, vou ter de viver com ela até ao dia da sua morte.
Às vezes queria muito, acordar e viver dentro de outra pessoa, dentro de outro corpo, dentro de outra vida, dentro de outro contexto.
Só para quebrar a rotina, porque afinal, o contexto faz parte de mim. Faz tudo parte de mim, ela também, ou essencialmente, ou unicamente.
E se calhar, até podia ser pior.

A arte que é viver


Nunca a dança teve tanto significado

As obras de arte são uma infinita solidão: nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica


Tudo depende da forma como olhamos para esse tudo e do modo como o tentamos marcar. Afinal, é só isso que queremos e tentamos, marcar, eternizar, fazer valer a pena. Não só beber a vida de um trago e ver o que ela nos trás. Por muito que queiramos viver assim, por muito que procuremos isso e nos enganemos a nós mesmos, não faz parte de nós. Porque somos assim, não somos animais (ás vezes antes fôssemos) e sabemos que houve um passado, que ocorre um presente, e que a ele se segue um futuro. Tentamos marcar o nosso presente, todos tentamos, não vale a pena negá-lo, com atitudes, expressões faciais ou corporais, palavras, acções, e depois e a um nivel diferente, música, dança, cores, formas, diferentes tipo de arte que se ultrapassam umas às outras e interligam, quando a arte quotidiana se torna insuficiente, na obra de arte que, afinal, é a vida de cada um.
Trata-se apenas de um momento fotográfico. Ao fotografar estamos inclusivamente dentro do momento, até que pressionamos o botão e, aí, somos elevados a algo tão alto que nos exteriorizamos do mundo e do presente, deixamos de pertencer ao momento e deixamos de ser “nós, ali, assim”. E a forma como vemos tudo, muda. É o que acontece quando pensamos. Estamos no mundo e no momento presente da nossa vida, e a partir do momento em que refletimos, em eu começamos a pensar somos sugados desse momento presente e levados para um mundo interior e paralelo, observador, desprovido de tempo, de futuro e passado, desprovido de nós mesmo, desprovido de vida provido apenas de um apego ao verdadeiro.
Depois de terminada, resta sempre algo da obra de arte que foi a nossa vida, e contém nela toda uma possibilidade de interpretações, recordações, emoções e experiências estéticas a quem a observar.
Viver, essa sim, é a verdadeira obra de arte, na suprema obra de arte que é a vida humana. O animal representa o instinto, a sociedade o homem, o intelecto a arte.
Falar é arte, sorrir é are, andar é arte, sentir é arte, comer é arte, porque é tudo demasiado belo para ser só nada.
Quem somos nós para criticar alguém? Para julgar a sua arte? Quem somos nós para calcular o seu valor ou significado se não existem vidas com mais valor do que outras? Porque dentro de cada um, reside o valor dela, mesmo que não o percebamos, mesmo que não seja o nosso.
As obras de arte são reflexos de uma parte do artista, as palavras são reflexo de uma parte do nosso pensamento, a vida é apenas um reflexo daquilo que realmente somos.

Se eu não odiasse teorias esta era a minha