"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Desta vez

A vida é imprevisível, sim. Já o ouvimos dizer em todo o lado, em todas as circustâncias, é algo que aceitamos, sabemos, e para o qual achamos que estamos preparados. Achamos que não tomamos nada por garantido, assumimos que a vida é feita de mudança e que o tempo leva, traz e modifica tudo o que temos, tudo o que construímos, e tudo fica diferente, melhor ou pior, não interessa, fica diferente.
O problema, é que quando o dizemos, mentimos, nós não estamos preparados, nunca, porque o ser humano tem este hábito incombatível e irreprimível de pensar no futuro, planear, querer, desejar, esperar, sonhar, e isso é que acaba por ser a razão de tudo o que pensamos e fazemos, é que nos faz construir, agir, e não permitir que a vida passe por nós e não nós por ela.
Como se a única forma de conseguir estar no presente e saber o que fazer, fosse ter uma ideia, nem que seja ténue, do futuro, do que se vai passar a seguir, ou do que queremos que se passe, ou até mesmo daquilo que acreditamos que se vai passar inevitavelmente.
As vezes isso faz-nos lutar, continuar de pé e a chegar mais perto a cada passo àquele futuro que tanto desejámos, que tanto nos ocupou tempo e pensamento. Faz-nos ter força para nos levantarmos mesmo depois de cairmos, ter vontade de continuar, independentemente das circunstâncias, das mudanças, das surpresas, e das desilusões, porque tudo o que fazemos passa a ter um sentido, como uma luz ao fundo do tunel, cuja luminosidade nos faz acreditar que quando lá chegarmos, tudo vai ficar melhor.
Mas de outras vezes, é isso que nos destrói, a impossibilidade de um futuro que desejamos, de algo que queremos e percebemos de repente que talvez não seja possível atingir, perceber que por vezes, nem tudo está nas nossas mãos, a liberdade e responsabilidade que juramos ter sobre os rumos da nossa vida não é assim tão vasta, faz-nos querer cair, baixar os braços, e dar voltas à cabeça, para pensar no que mais poderemos querer para além daquilo, que mais podemos ter vontade de atingir, e por incrivel que pareça, não surge nada, não temos nada. E naquele momento, quase que temos de fingir interiormente que sim, inventar desejos, ambições, sentidos, às vezes, até mesmo ocupações, só para não sentir o vazio que uma frustração deixa. Quando um desejo ocupa muito espaço dentro de nós, é obvio que a sua ausência vai deixar esse espaço vazio, inocupável pelo que (ou por quem) quer que seja, e tudo parece aleatório, sem sentido, cinzento e simplesmente estúpido.
Mas a verdade é que é so uma questão de tempo. Mais tarde ou mais cedo, o espaço começa a ser preenchido, a sede vai sendo saciada, a ferida sara e torna-se numa cicatriz e à medida que isso acontece, surgem outros verdadeiros desejos, outros verdadeiros futuros, que, afinal, também podemos querer, nem que sejam breves, nem que sejam próximos, nem que sejam simples, têm a capacidade de nos fazer sorrir outra vez, de nos levantar-mos com vontade e de nos levantar-mos com a coragem de, eventualmente, podermos voltar a cair, e a ferirmo-nos mais uma vez, porque percebemos que sim, que é melhor cair vezes sem conta do que ficar no chão, sem nunca ter dado um passo, tentado, aprendido, sentido o vento na cara e os pés bem assentes no chão.
Nas alturas em que tudo muda, quando percebemos que algo é possível ou não é, é aí que percebemos quem somos, o que queremos, são provas, testes, vivências e vão determinar o resto da nosa vida, por muito que não nos apercebamos disso. Porque, mais tarde ou mais cedo, temos de escolher, e são as escolhas que nos vão definindo aos poucos e nos tornando nos próprios, como se a vida fosse um oceano que se fosse perdendo em rios, canais, e fios de águas que se subdividem e conduzem sempre a algo novo, com mais milhões de possibilidade.

-Durante muito tempo, por tantas vezes que já não consigo contar, convenci-me que tu, aquilo que eu sempre quis mais (e sabes que eu por norma não sei o que é querer mesmo algo), estava fora do meu alcance, das minhas mãos, que havia histórias e futuros que simplesmente não eram atingíveis. Mas quando eu não esperava, quando eu depois de cair e baixar os braços decidi levantar-me e procurar outro rumo, outra direcção na qual caminhar, gritaste por mim, mais uma vez, e eu não dei mais passos pequeninos, não me levantei devagar, e não olhei para onde ia, e simplesmente voltei a correr para os teus braços porque a minha escolha, essa sempre foste tu, sempre que pude escolher que assim o foi. No ultimo instante, aquilo que a vida muda e o tempo modifica, aproxima-nos sempre, amis uns milimetros, e acabamos por nos escolher sempre um ao outro, já nem eu sei bem como, muito menos porquê, mas tem de ter algum significado, tem de nos fortalecer, tem de nos fazer falhar menos.
Espero que desta vez o futuro e os sonhos nao nos mintam, espero que este presente não nos fuja, espero que a vida, e o tempo, e as mudanças, não nos enganem de novo, porque a vista daqui é boa demais para me voltar a deitar no chão, sem forças, sem ti.
(Sempre achei que o que nos faz tão únicos, é andarmos para a frente como se nunca tivessemos medo de cair, mesmo quando o temos)

Obrigada, amo-te

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