"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Miguel

A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objeto torna-se realmente outro, porque o tornamos outro. Manufaturamos realidades.
F.P- o livro do desassossego
Sempre que ouço o meu nome não respondo. Odeio que me chamem, odeio que me arranquem de onde estou, do eu casulo. Passei a odiar o meu nome miguel, só essa palavra entranha-me os ouvidos como uma faca afiada. Dói de ouvir.
Entre mim e o mundo existe um véu, como se não conseguisse extrair dele o que preciso nem dar-lhe o que tenho. Puseram-me numa escola especial para pessoas como eu e não há uma só, uma única que algum dia me vá compreender. Porque sou assim, posso dar muito aos outros e dizer as coisas certas mas nunca vou ter a capacidade de extrair deles o que eles me dão, mesmo que aprenda com eles. Não existe partilha, não existe companhia.
Mas cada um de nós vive no limite da sua realidade, como se vivêssemos todos mergulhados na ilusão onde o resto do mundo apenas molha os pés. E olhássemos para eles, para a realidade, cá de baixo.A realidade é mais ou menos parecida para todos, mas a ilusão não. Não podemos entrar na ilusão de ninguém, nem na verdadeira realidade de ninguém.Como uma mistura de genes, acontecimentos, memória, história e como se viveu a história. Se a realidade de cada um, por si só, é como uma mistura de ondes, comos, quems e porquês, quanto mais as suas ilusões.
Não percebo se viver numa mentira é viver no mesmo mundo que os outros, no qual não acredito, ou viver no meu próprio mundo e passar todos os segundos dos meus dias a duvidar dele.
Só desejava ser invisível, intocável, não queria que ninguém se lembrasse de mim, não me queria lembrar de mim. No fundo sei que não posso ser tão omnipotente, esta minha ilusão que se quiser mesmo consigo mudar o mundo inteiro à minha volta e criá-lo dentro de mim à minha maneira.

Sinto-me congelado perante os outros e perante a vida, e tudo fica preso, a voz, o coração, a alma, o corpo. Só o pensamento, livre por si mesmo o continua a ser. Mesmo assim consigo persegui-lo e tentar manipulá-lo. Estou cansado, cansado de não poder achar bom o que para mim é bom porque tenho de passar a achar outras coisas boas que nem sequer acho boas. Cansado, cronicamente, de sempre que sinto estar genuinamente certo e ter medo da doença que os médicos acusam. Doente? Tenho apenas 10 anos. A loucura, porcaria da etiqueta da loucura que me segue como um íman magnético e eu fosse um bloco de ferro. Onde querem que eu seja feliz cá fora? Que espaço é que a realidade guardou para quem não vive nela nem dela? E como posso eu falar de realidade se dizem que não tenho a sua consciência? E porque é que penso isto mas nunca conseguirei dizê-lo ou escrevê-lo?
Da loucura? Todos temos medo da loucura, de uma forma ou outra. Todos temos medo de fazer algo que ainda não foi feito, por termos o medo de sermos rotulados. Todos temos medo de deixarmos de ser fiéis a nós mesmo, de não nos reconhecermos. Ninguem se quer perder. Todos temos medo de nos desligar-mos de todos os padrões e regras interiorizados em nós e nem nos passa pela cabeça fazê-lo.
Porque é que temos tanto medo de nos perdermos? Sabemos que ninguém se perde de verdade, ninguém mesmo, que todos traçam as linhas à sua maneira e loucos são aquele que contornam as linhas rectas sobre as quais acham que por já estarem traçadas devemos andar. Pois e se não tiverem essa linha? E se forem como eu, que nasceu sem linhas em que caminhar e das quais seria perigoso um desvio, mas assim, alguém que traça as próprias linhas curvas e tortas como um bebé que pega num lápis pela primeira vez. Somos humanos, não somos automóveis, nós não temos defeitos nem qualidades, nem garantias, nem cupões de desconto. Só temos um conjunto de genes, características e histórias que nos definem e nos tornam quem somos. Porque afinal não somos muito mais do que isso, do que a nossa história e o que ela muda em nós a cada segundo que passa, e é isso mesmo, a nossa história que permanece anos depois de morrermos. É a história da Humanidade que ficou, de todo o passado que existiu. Até de um escritor, o que fica é o seu livro. E eu quero construir a minha à minha maneira, eu confio no que a minha vida quer fazer da minha história.

Confiar na vida não é desistir dela, e confiar em nós.

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