"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

domingo, 14 de novembro de 2010

Desacredita

A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito.
Sempre achei que o amor era como uma espécies de religião, porque era preciso ser devoto, acreditar, ter fé, e não precisar de certezas absolutas ou explicações racionais.
Tal como na religião, é preciso sonhar,fazer promessas, interiorizar aquela série de verdades das quais não existem provas de existência mas também não existem provas que o neguem. Tal como a religião, é uma vela no escuro, um guia, um barco de salvamento, uma forma de encontrar sentido à nossa vida.
Há quem tenha problemas com fé, com credibilidade, confiança cega e com irracionalidade. Quem goste de perceber, de acreditar porque faz sentido e não porque se precisa, porque é demasiado difícil viver sem acreditar em nada, e a verdade é que quase tudo em que se possa acreditar tem falhas, falta de sentido, em algum ponto e de algum modo, porque nada é perfeito e se algo fosse ninguém seria perfeito o suficiente para o perceber.
Nunca achei que me viesse a apaixonar rapidamente, precisamente por ter esta vontade constante de acreditar em alguma coisa mas incapacidade intrínseca de o fazer, mas sem me dar conta, acabou por me acontecer. Porque mais tarde ou mais cedo na história, acontece sempre algo inexplicável, há quem chame acaso, há quem chame milagre, mas continua a ser inexplicável. E mais tarde ou mais cedo, toda a gente se apaixona de uma forma ou de outra, inexplicavelmente, quer se permitindo fazê-lo ou não, mas toda a gente mais tarde ou mais cedo não consegue evitar acreditar em algo. Porque sem acreditar em nada a vida é escura e sem sentido, sem rédeas, vazia.
Pela mesma razão que nem sempre percebemos o porquê das coisas começarem a existir, também não percebemos o porquê delas acabarem, delas deixarem de dar sentido, luz, rédeas, preenchimento. Também não percebemos porque nem sempre existe razão, e por isso mesmo, por toda essa falta de razão, por toda essa falta de explicação e de ciência, a que nos pudéssemos agarrar e perceber que não existe outra solução sem ser seguir em frente, é que nos sentimos perdidos quando largamos as rédeas, quando se apagam as luzes e a única réstia de luz é a esperança, tão inexplicável e tão sem sentido como a razão da sua existência, mas tão necessária e inevitável como a razão pela qual ela não pode deixar de surgir.
E não está certo guiarmo-nos só pela luz da esperança, nem sequer nos é possível, quando antes estava tudo tão claro como água e agora nem sabemos por onde andamos, nem vemos o que nos rodeia. E nos limitamos a perseguir a luz como insectos só para não nos perdermos por absoluto ou não o admitirmos, e a fugir do escuro até percebermos que as vezes é mais fácil desligar de vez a luz e tentarmos recuperar os nossos sentidos. Porque quando deixamos de ter dentro de nós essa crença, esse sentimento, é como se nos tornássemos inaptos para a vida e perdêssemos o o tacto, o olfacto, a visão, o paladar para o presente e apenas vivêssemos dos sabores e cores do passado pois parecem simplesmente mais vivos.
Como se não houvesse nada mais pelo qual rezar, mais nenhuma razão pela qual acreditar em algo que não existe por muito que deixe por toda a parte sinais de existência que podem ter, no final, outras explicações.
Por isso seguir em frente as vezes não é complicado, é ser ateu, simples, inteligente, racional. É cortar as rédeas, apagar as luzes, desacreditar em algo que, no fundo, continua a fazer sentido sem nunca o ter feito. Seguir em frente é, muitas vezes, deixar a meio, fugir do escuro. Seguir em frente é, muitas vezes, é tapar os ouvidos e o nariz, fechar os olhos e a boca, deixar-se iludir.
Muitas vezes, é pura e simplesmente, fazer batota.
Mas fazer batota, na vida, na maior parte das vezes torna-se a única forma não de ganhar, mas de não perder.

1 comentário:

  1. "Mas fazer batota, na vida, na maior parte das vezes torna-se a única forma não de ganhar, mas de não perder."
    Cada vez acho que a única forma de viver feliz na vida é tentar nem ganhar nem perder. Porque se ganhares, vais ter quinhentos cães atrás de ti que não te vão deixar aproveitar a vitória. E se perderes...bem, perdeste.

    ResponderEliminar