A verdade é um fantasma que há que perseguir cada vez mais longe.
Nunca me perdi, sou demasiado covarde para isso. Sou demasiado covarde para arriscar e apostar tudo de mim e todo o meu esforço em algo, mas demasiado covarde também para me perder, para agir sem pensar.
Nunca me perdi, mas não consigo estabelecer metas nem destinos, sou sempre apanhada no meio, sou sempre um eterno poço de dúvidas, de contradições, poço este que não me deixa avançar mais. Limito-me a ir dando passinhos em falso e não falhar no pouco que me exigem, e para não o fazer, a tentar que esperem o menos possível de mim, a tentar ser o mais sincera possível para não iludir ninguém. Prefiro ficar escondida e ir entregando os pedaços que posso, numa espécie de liberdade condicional, pois quando não estou encurralada, apanhada, e presa pelo medo, e ansiedade, é porque estou fugir deles, como se não pudesse estar bem, em paz. E toda a gente parece alcançar essa segurança que protege de todas as sombras em algo ou alguém e para mim nada é suficiente. Mas guardo há coisas que guardo tão bem dentro de mim, tão carinhosamente no meu coração, que não consigo nunca perder-me delas, do que amo.
Mas no último momento, largo-as, como se tivesse medo de não fugir, de ficar, de manter e guardar, de assumir que acredito nelas, de ser e estar, de viver, sem saber do que estu a fugir. Não sei e queria saber, não sei e não tento saber, não sei e tenho medo de saber, não sei nem nunca soube e tenho medo de não vir mesmo a saber
Eu não me perco, nunca, nunca me perdi, nem de ti nem de nada, acabo por manter sempre um fio de ligação a tudo, mas também não me envolvo, quando o faço volto para trás. É como uma nuvem me afastasse da realidade como um filtro,e à medida que o tempo passa, com ele passa a vida, como a badalada de um sino que toca de hora em hora a recordar-me de que ela está a passar e que o tempo existe, a lembrar-me de que eu existo também, de que tenho mesmo uma vida e que convinha vivê-la antes que ela acabe.
Gostava de desligar esse filtro,como se desliga nos sonhos, viver como quem sonha, sem filtros, sem limites, gostava de amar como quem sonha, de amar com tudo de mim, de uma forma que eu não conheço, de amar com este amor que genuinamente sinto por ti, pelas coisas, pela vida, e que penso que todos sentimos, por alguém, por algo, pela vida. Fico cheia de força por dentro, cheia de beleza que eu só consigo ver e sabes, é um autentico desperdício, porque eu não a consigo nem contemplar nem exteriorizar, só deixá-la morrer. É como se tivesse uma estrela gigante a latejar dentro de mim, sem saber lidar com ela, e deixando que com o tempo ela esmoreça. E sabes o que acontece a uma estrela quando morre? Não se limita a deixar de brilhar, torna-se num buraco negro, daqueles que engolem tudo o que se aproxima.
E tenho tanto medo que às vezes limito-me a ficar escondida e não mostrar nada, porque não sei o que mostrar, como se fosse mensageira de algo que não conheço e só quando me sai pela pele é que consigo entender (atenção, figurativemente e bem longe de misticismos). Enquanto isso tento sobreviver, tento fazer o mínimos, tento procurar partes disso, mas as vezes sinto-me como uma autentica sombra de mim mesma. Gostava que um dia, em vez de conhecer apenas a minha sombra, me conhecesse de facto. Nunca me perdi, e tenho medo de me perder, um medo irrepreensivel, incontrolável, mas compreensivel. A vida é confusa,é um manto de retalhos impossível de controlar por muito que nunca resistamos em tomar as suas rédeas, em interpretá-la, quando no fundo,ela só tem o sentido que lhe quisermos dar e isso é demasiado para fazer enquanto também a temos de a viver simultaneamente.
Apetece-me apanhar o próximo táxi e pedir que me deixe em qualquer lado, um lado qualquer mas diferente, que certamente mudará o resto da minha vida, tal como tudo o que fazemos a vai mudando e construindo, porque afinal viver é exactamente isso, ir escolhendo os táxis que vamos apanhar julgando saber onde nos deixam, e por vezes somos surpreendidos.
Mas eu, fico sentada a ver os táxis passar, como se nenhum fosse o certo, no ultimo momento, nunca consigo entrar, como se não fosse ainda, a minha vez. Nunca sequer tentei, eu não tento.
É por isso que nunca me perdi, porque nunca tive coragem.

alta escrita...adiciona me
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