
"Fala se tens palavras mais fortes do que o silêncio, ou então guarda silêncio. Porque a palavra é tempo, o silêncio é eternidade."
Às voltas na cama Camila não conseguia dormir. Ouvia melhor o silêncio de Leonardo dentro da sua cabeça melhor do que todos os ruídos da cidade agitada lá fora, por se encontrar num silêncio tão denso como o do sentimento de estar só mesmo quando não estava.
E era só isso mesmo, o silêncio que ouvia, mesmo quando tentava ouvir música ou ligar a televisão, o silêncio da imagem dele, o silêncio das suas palavras, o silêncio da sua ausência, que insistia tão frequentemente e se ouvia tão continuamente como o ponteiro dos segundos se ouve no relógio.
Numa cascata confusa de pensamentos que se tornara a sua cabeça o dele corria mais fluentemente que todas os outros,fazia dos dias de Camila autênticos campos de batalha em que tentava arranjar força para enfrentar mais um dia normal enquanto se arrastava por dentro aos seus pés. Ela que tão bem sabia ler nas entrelinhas agora tinha só uma enorme folha em branco que a fazia ouvir perguntas mais explosivas que mil respostas.
Sempre que passava no espelho Camila tinha a sensação de ter a pele mais branca e os olhos mais escuros e de que tudo à sua volta se tinha tornado bem mais sombrio porque o vazio da ausência de palavras se tornava num gigante vazio no seu peito até que a imagem de Leonardo lhe surgia de novo. E o pensamento nela virava o mundo ao contrário principalmente quando não sabia o que pensar, a tortura de perguntas fazia-lhe decorar o quanto ele lhe trazia bocados de sol e a sombra que deixava ao partir, e o bem que fazia só por a amar, que a fazia desfazer-se só por saber que talvez um dia e bem mais cedo do que julgava ele podia simplesmente deixar de o fazer.
O tempo arrastava-se e trazia com ele todos os medos e dúvidas que sempre os haviam assombrado e separado. Ela nunca achou que ter medo os dúvidas fosse mau, tem a capacidade de tornar as pessoas autocriticas, menos seguras e menos omnipotentes, e faz delas não só alguém melhor como alguém que depois de o ser continuar a desejar ser melhor ainda.
Mas entre eles as dúvidas sempre foram maiores que as certezas, sobre o que cada um sentia, de como seria se ou de como seria quando, que tornava a distância a percorrer da ilusão à verdade e da dúvida à realidade a mesma que a do medo á coragem.
Camila saíu e foi fumar um cigarro para a varanda, deixar a angustia evaporar-se e esvoaçar como e com o fumo, e passou pelos seus pais. Eles achavam que se amavam, e mantinham um casamento há anos que Camila sabia tão bem como eles que àcerca do qual sempre tiveram dúvidas. O medo de avançar em frente e de não conseguir voltar atrás em algo tão incerto, duvidoso e inconstante como o amor, e ainda mais como o seu amor, fazia-a continuar a recuar constantemente. Agora era tarde demais, recuara demasiado e já não havia milagre que fizesse voltar os instantes perdidos. Porque afinal, não existe tal coisa como o passado ou o futuro, mas existe apenas o instante presente que passa a cada momento e que traz consigo potencialidades para milhões de acções.
Ficou com o cigarro, com a noite e com os pensamentos. Porque enquanto pensava sobre ele não tinha de escrever sobre ele, muito menos para ele, muito menos falar, muito menos falar sobre ele, e muito menos ainda falar com ele.
Quais? Quais eram as suas palavras essenciais? As que restam depois de toda agitação e projectos e realizações? As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem? As que talvez ignorava por nunca as teres pensado? As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha?
O quê? O que é que restara deles, no final?

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