
Não é do meu hábito dedicar textos, muito menos publicar cartas. Mas também não o era sequer escrevê-los, muito menos terminá-los, e para mim um blog era algo de tão impensável e inadequado a mim como tocar piano, e eu toco no entanto.
Chamar-te pai não encaixa, não me lembro de alguma vez me sentares no teu colo e me contares uma história, ou de me dizeres que não tenho idade para ter namorado, nem sequer de me ralhares ou de me ordenares para arrumar o quarto, chamar-te viajante faz-me sentido, demasiado sentido, quando a tua imagem surge.
És o viajante de corpo e alma, mesmo quando estás e ficas, continuas a sê-lo, sempre o foste.
Estar contigo é parecido a estar sozinha e estar sozinha faz-me sentir contigo de algum modo, porque estar contigo é tão raro e rápido que se torna numa espécie de acontecimento à parte do real, mas quando vais embora continuo a viver cada segundo contigo até voltares. Tu nunca sais de ao pé de mim e eu pensava que nem sequer chegavas a estar, tu estás em tudo o que faço e às vezes nem me lembro que existes.
Querido viajante, tu és assim, voltas sempre a mim e ao meu pensamento. Ensinaste-me a viajar, a ser nómada de alma como tu, a gostar demasiado de desaparecer, mas ensinaste-me, a tal como tu, a voltar sempre a casa. E ensinaste-me a ser tudo do que és que eu não queria ser, ensinaste-me a guardar, ensinaste-me a olhar com os teus olhos de solitário, ensinaste-me a tocar piano, e agora, com a tua ausência, ensinaste-me a escrever também.
Nada disso, nunca, tu me quiseste ensinar, mas tudo isso, desde sempre, me fizeste aprender.
Sei que vais voltar como voltas sempre, mas hoje sinto a falta das tuas palavras que me deixas como sementes e que depois crescem, só passado muito tempo. Tenho saudades de as ouvir sem ser com as interferências das minhas barreiras para contigo ou do maldito satélite que se decide desligar de cinco em cinco segundos. Eu odeio quando me ligas e não atendo, odeio quando atendo e se perde o satélite, odeio quando eu procuro e não estás, e quando tu procuras e eu não estou, odeio quando nos cruzamos num caminho imaginário e nos desencontramos por segundos, odeio quando nunca mais voltas.
Por isso não demores, querido pai, que hoje, eu quero mesmo muito que voltes

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