"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

domingo, 6 de junho de 2010

Paris


Não se lembrava de fazer parte de tanta beleza, nunca na vida. Por momentos sentiu-se no interior de um filme dos anos 30. O seu quarto devia ser o melhor, através da janela era possível sobrevoar toda a cidade. O pôr do sol? Nunca vira nenhum tão esplêndido, o céu sussurava-lhe numa explosão de cores e os reflexos da luz no rio Sena faziam Ricardo esfregar com mais força os olhos. Sentado na varanda, com um copo de champagne, Ricardo percebeu que já fazia parte da magia de Paris, sobrevoou mais uma vez a Torre Eiffel com o olhar e foi aí que sentiu um vazio que não conseguia reconhecer. Não era solidão, o quarto, lá dentro, estava cheio de pessoas, e Ricardo só desejava que elas o deixassem sozinho.
Irritado com a sua insatisfação crónica, sentou-se. Tinha ido para Paris para fugir dos ciclos viciosos que a memória e a consciência nos fazem tomar, para encher o seu peito de beleza que o limpasse totalmente, que o preenchesse de vitalidade com a vontade de ver o tanto que havia para ver naquela cidade. Mas os dias passavam e as tardes pareciam arrastar-se, como se já tivesse visto tudo o que havia para ver, e a beleza, parecia não o conseguir alcançar.
Sentia-se um fantasma com tanta leveza, de algum modo toda aquela liberdade assustava-o, sentia-se perdido com tanta falta de indicações. O que é que faltava? Ele não precisava dela. O que sentia era como uma espécie de doença que não era maligna, chegava e partia, doía e não doía, incomodando muito mais quando pensava nela. Ela também nao precisava dele. Eles eram assim desde sempre, entregues a si mesmos, era assim que viviam, creciam, e gostavam.
Sabia que Liliana se questionava como é que era possível alguém ser tão frio. Ela não percebia, nunca ia perceber, ía chegar a todas as conclusões erradas, mas e então? Ele não a queria mais na sua vida. Precisava de paz e segurança, e não queria procurar essa paz e segurança nela, mas o facto é que sentia uma paz e segurança bem maiores nos seus braços do que naquela varanda, com Paris a seus pés. Estavam ambos congelados, parados no tempo, frios, e sem se conseguirem mover, que impulso de quebrar todo aquele gelo.
Perseguia-o essa sombra, de quem não podia fugir mas era totalmente impotente para agarrar. E quando nos persegue uma sombra, o melhor é fechar as luzes, e parar de fugir da escuridão. Com isto, acabou por adormecer.
Estava simples, de calças de ganga e camisa branca, cabelo solto e pernas cruzadas, com os olhos num livro, numa esplanada perto da Catedral de Notre Dame, mal a distinguiu entre o resto da multidão o ritmo do seu coração acelarava de tal modo que tudo à sua volta parecia mil vezes mais lento, aproximou-se e a garganta não emitia um som, ao contrário do que calculava, ela aparentava esperá-lo. -Então?- perguntou, levantando os olhos, num misto de tristeza e curiosidade
Ricardo pensou em tudo o que podia dizer, depois de parar no tempo, forçou-se a reagir, encolhendo os ombros com um inevitável sorriso ao olhar para a expressão de Liliana, nunca existiram tantas emoções diferente entre duas pessoas só
. - Hum.. Então? Sabia que ela esperava alguma coisa, ela tinha de lhe dizer, tinha de o fazer. Mas apenas a conseguia olhar em silêncio. Apesar de todo o nervosismo, era tão bom estar ali. Liliana entendeu que não valia a pena esperar por uma resposta, que não a ía ter, limitou-se a sorrir e a estender a mão em direcção ao seu ombro
-Ouve, eu vou ser sempre só aquilo que fizeres de mim na tua cabeça, para ti sim, mesmo que seja muito mais do que isso e mesmo que para mim sejas mais do que isso. Não importa, nós somos assim, incompletos e precisamos de nos completar com os outros. Sabes? Os outros são como reflexos pequeninos de partes de nós, e quando olhamos para reflexos diferentes, vamos conseguir sempre perceber reflexos de nós mesmo diferentes, e isso vai-te fazer gostar mais dos outros e de ti. Não te marterizes por precisar dos outros, ninguém quer estar sozinho porque precisamos de referências para saber que estamos a fazer as coisas bem. Somos demasiado livres e conscientes para não precisar de algumas indicações, algumas linhas traçadas. Não quero ser a tua vida, nunca quis, não quero tirar pedaços de ti, nem que tires pedaços de mim, nem da minha vida. Quero apenas que dês sentido à minha vida, quero-te a ti, na minha vida. E preciso. Leva o teu tempo, mas não cortes as nossas raízes. Um amor tão grande não pode morrer assim de repente, pois não? Não me entendas mal, meu bem, nunca disse que tínhamos vivido uma mentira, muito menos que não acreditava em ti. Acredito, mais do que em mim mesma. Deste-me muito mais do que julgas. Não tenhas medo de espalhar sementes mesmo que elas não cresçam, mesmo qe só sequem a terra, porque, quando menos esperares, olhas à tua volta e tens uma clareira, segura e ampla. Eu não quero ser a tua gravidade, não te quero puxar para baixo e para o mundo real, não te quero esmagar com leis da natureza nem exigir-te coerência, e desculpa se o fiz. Não existe isso em nós, coerência, existe mudança, sentimos as mudanças no nosso corpo, sentimos as mudanças em toda a natureza, e em nós e na vida, e em tudo. Mas a mudança muda alguma coisa, certo? Não somos só um momento desprovido de tempo e espaço, Ricardo, não somos só um grande alguma coisa vindo do nada. Mas por sermos muito do momento é que precisamos de marcar coisas, marcar momentos para não nos fugirem, precisamos de nos ligar às pessoas, é o que dá sentido à vida, é o que a faz passar de momentos. Do nada, nada pode nascer. E de nós nasce alguma coisa a todo o instante, boa ou má, é alguma coisa, que nasceu de alguma coisa, não é algo que se possa deitar para o lixo, mesmo que o seu valor mude. Não sei se te sou indiferente mas se não for, vamos ser nós sem fugir um do outro, ou tentar. Porque somos também muito um do outro. Leva o teu tempo, o que quiseres, pode ser?
Acordou em sobressalto mas mil vezes mais calmo. Percebera que nem sempre era preciso fazer algo para mudar algo, e que por vezes não precisamos de ouvir nada. Só precisamos de recordar o que nos foi dito milhões de vezes e nunca ouvimos.

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