"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ilha

"A consciência da insonsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência."

Todos sabemos como são as pessoas. Estamos habituados a elas como estamos ao nosso próprio corpo, ao oxigénio, ao sol, à agua, e a todo o resto da natureza.

As pessoas, para nós, fazem parte da natureza e a forma como convivemos todos os dias com elas, nos rimos, falamos, ouvimos, vivemos, já é também natural, intrínseco, habitual. É estranha, essa nossa necessidade de partilhar e ser partilhados, como se fôssemos tão estranhos a nós mesmos que nos sentimos a ser comidos por nós próprios quando estamos sozinhos, como se precisássemos de ter a certeza que alguémestá lá, do nosso lado, que existimos para alguém e que fazemos parte do mundo. No final, o que todos sentimos é essa urgência de nos sentir reais, porque por muito sociáveis que sejamos vamos estar sempre incrivelmente sozinhos, porque pensamos consoante os nossos pensamentos e não podemos usar mais nenhuma cabeça, e olhamos segundo os nossos olhos mas não podemos usar o olhos de mais ninguém, estamos totalmente encurralados dentro de nós, da nossa história, do nosso próprio corpo, da nossa própria mente, na nossa própria vida. Não podemos simplesmente escolher sair dela, apenas mudá-la, mas mesmo assim, não há forma de fugir de nós próprios. E mesmo sabendo disso, nunca paramos um segundo para olhar para os outros como sendo eles mesmos, uns seres tão únicos que não existe mais nenhum igual o qual num mundo tão inacreditavelmente gigante, não nos perguntamos como será acordar todos os dias no seu corpo, na sua cabeça, em sua casa, na sua vida ou o que ele pensa a adormecer. Só nós preocupamos com esta estranha necessidade de nos tornarmos real para o outro, de estender aquele braço, de construir aquela ponte como tentativa de provar um pouco daquele mundo.
Como se fôssemos todos realmente ilhas, vivemos na nossa ilha com a nossa história,o nosso passado, o que somos, os nossos sonhos, pensamentos, emoções e recordações, e vamos contruindo pontes com as outras ilhas, cada um constrói metade e tentamo-nos encontrar a meio. Às vezes resulta, e às vezes as próprias ilhas se juntam, como se fossem contra a natureza. Mas não deixamos de estar sozinhos dentro de nós mesmos, mesmo sem um segundo de solidão na nossa vida, porque só nos vivemos a nossa história, mesmo que outros assistam à mesma, só nós temos os nossos pesadelos de noite, mesmo que alguém durma ao nosso lado. A nossa capacidade de reflexão e memória, é o que nos distingue dos animais, e é o que nos faz tão sós. A capacidade de nos identificarmos como alguém, caracterizado por uma história, uma aparência, um passado e um possível futuro. Não a biografia, não os factos, ou não apenas isso. Mas toda a história de todos, mas todos, os nossos sentimentos, emoções, pensamentos, ideias, sonhos.
Não só a história de tudo o que já vivemos mas a história da história de como é que vivemos tudo o que já vivemos e o que isso muda na maneira como estamos a viver, e o que isso muda no que vamos fazer e que no que isso nos fará viver, e de que forma se irá refletir na forma como viveremos isso que vamos viver.
É ela o que nos completa, porque ela nos torna diferente de todos os outros. Podemos ter uma biografia parecida com alguém, mas nunca a mesma história, o mesmo percurso de sentimentos e pensamentos que cada um vive, é essa história que nos torna autênticos, que nos torna nós mesmos, mesmo que essa história seja modificada por outras histórias, essas outras histórias serão lidas por nós consoante a nossa forma de as ler

E em toda a liberdade e enriquecimento à nossa volta temos uma enorme falta de escolha, certezas, e verdade. Tão condenados a ser livres dentro da prisão que nós somos inevitavelmente, por termos sempre este pormenor que nos distingue dos animais e se chama consciência. A consciência presente mesmo nos sonhos, este espelho cerebral e emocional permanente em nós que origina a nossa memória, assim a nossa história, e, assim, nos constrói a nós.
No fundo, só a queremos partilhar, só não a queremos deixar morrer, só nos queremos tornar exteriores, é o que todos nós queremos, e é para isso que servem as atitudes, as relações, as paixões, os livros, os filmes,as palavras, e tudo quanto não é só pensado mas feito ou tornado real. não queremos ser uma ilha deserta no meio do nada da qual ninguém sabe da existência. Os outros são o nosso espelho, se não houver outros, se não houver um espelho, é impossível reconhecer a nossa própria cara, é impossível ser real.

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