"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

diagnóstico da dor

Sentimos a dor mas não a sua ausência

Há sempre dores, toda a gente tem dores, e doem a todos da mesma forma. Não há escalas de dor universais, só personalizadas, um risco no automóvel pode doer tanto a alguém como a morte de um parente a outrém, pois a dor é de quem a sente consoante a sua forma de sentir o que quer que seja. Quando e como dói, só a quem dói é possível saberm quando se sabe. Porque às vezes não se sabe, é o tipo de dor que dura desde sempre como pano de fundo, a inquietação inexplicável, música ambiente desagradável, que faz doer a cabeça e distrair-nos mas à qual nos recusamos a prestar atenção.
E essa dor, essa dor é a pior de todas, porque é como uma sombra que está colada às próprias costas, bem atrás de nós, mas impossível de a vermos, e mesmo quando aparentamos aproximar-nos da claridade, ela ainda se torna maior e nunca permite que à nossa volta fique tudo totalmente claro.
As dores são diferentes, e vividas de maneiras diferentes, porque as pessoas são diferentes, mas de certa forma assemelha-se assustadoramente a um vírus, visto que se espalha e ataca quem está exposto a ele, mesmo que a reacção de cada um seja diferente. O nosso sistema imunitário psicológico (que também varia de pessoa para pessoa) combate-o sempre com as mesma imunidades mentais, pela mesma ordem, quando realmente a diagnosticamos e percebemos que algo não está bem: tal como a dor de física, normalmente a dor é o sintoma de algo que não está bem.
Todos combatemos o vírus em cinco fases, sempre, variando a duração de cada uma e raramente concluindo o tratamento, raramente tendo sucesso na extinção do vírus dor:
-primeiro negamo-lo, dizemos que não é nada, que vai passar(e frequentemente permanecemos nessa fase, pensando que já estamos curados)
-depois ele desenvolve-se e usamos a raiva e a revolta, tentamos combatê-lo à força, praguejar pela nossa má sorte (é o antibiótico mais agressivo, daqueles que nem nos deixa dormir)
-depois, a prevenção, tentamos negociar a dor, persuadi-la, percebê-la, pedir-lhe mesiricórida e evitar que cresça, combatê-la com argumentos racionais que a acalmem ou acalmá-la artificilmente (seja com alcool, droga, comprimidos, sexo ou comida ou desporto ou mesmo compras ou qualquer outro tipo de "terapias"). É a fase diplomática, a fase do sorriso amarelo, da esperança.
-Depois surge a depressão, em que somos derrotados e dominados, e na qual nos limitamos a sentir a dor, a ficar de cama, a esperar que o tempo ajude os remédios a fazer efeito.
-e, por fim, a aceitação. Aprendemos a viver com o vírus e a não alimentá-lo, vamos usando um pouco de todas as imunidades e com a devida distância a tratar o vírus da melhor maneira. O vírus daquela dor continuará ali, adormecido, até que por alguma razão ou olhar ou palavra, algo o volte a despertar, e o ciclo, mais lento ou mais acelarado, se repita de novo. Se o fizermos de forma intensiva demais, corremos o risco a que a dor se torne eterna por ganhar ela própria imunidade às nossas defesas.
A verdade é que tudo se desgasta, tudo acalma, tudo murcha, com o passar do tempo, da tristeza mais profunda, da beleza mais transcendente, do sabor mais intenso, tudo perde intensidade até ao resumidamente nada, enquanto novas coisas profundas, transcendentes e intensas diferentes nascem.
Assim, todas as dores, com o passar do tempo, saram e deixam só uma cicatriz, que pode ser aberta mas nunca sangra da mesma forma. E quanto mais coisas vemos murchar, mais temos dentro de nós, e provavelmente mais irão nascer também.
E o pior de tudo é que sabemos perfeitamente que a qualquer momento, tudo pode recomeçar.

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