"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Desencontros

Tenho esta obcessão por não conseguir apagar uma vela antes que esta arda até ao fim, tenho que esgotar todas as possibilidades, tentar de todas as formas. Não devia querer tanto, gostar tanto, fazer tanto, esperar tanto, dar tanto, eu não devia acreditar tanto, mas não sei se tenho escolha, já faz parte de mim.
Porém não o mostro. Vou atirando cartas, pistas, fazendo gestos, guardando sentimentos até eles me explodirem simplesmente dentro de peito e até que eu perda a capacidade de seguir em frente. Não é por ter medo, não é por não conseguir, é por não querer. Conheço-me e sei que sou uma pessoa apaixonada por natureza e não seria sequer difícil para mim apaixonar-me outra vez, porque já me apaixonei outra vez e não foi preciso esperar muito, mas eu posso-me apaixonar as vezes que quiser que não sinto em mim a capacidade de me desapaixonar de ti.
Penso demais, em coisas inúteis, que simplesmente não tem utilidade prática nenhuma mas que me ocupam totalmente a cabeça, e quando começo a pensar em ti, ou se terás ou não significado para mim, é que eu me apercebo do tanto que ficou por dizer, é que eu me apercebo que uma mensagem tua, por mais fria e sem conteúdo que seja, é mais do que suficiente para me fazer sorrir sem razão nenhuma, e como eu sou uma perfeita idiota por ainda me sentir, de um modo tão intenso e irracional, ligada a ti. Porque tenho uma parte de mim que já te entreguei de tal maneira que acho que vai simplesmente ficar eternamente à tua espera, será eternamente tua, e não é a ti que tenho de esquecer, é a ela. Eu não sei, não consigo formular argumentos válidos para mmim mesma, só sei que depois de falar contigo é a altura em que enterro a minha cabeça na almofada com um sorriso ridiculo nos lábios e com a cabeça nas nuvens, que chego ao ponto de as vezes só o som da tua voz me provocar esta alegria inexplicánel, inconveniente, irracional. E é por esse tipo de coisas inexplicáveis, inconvenientes e irracionais, que este "não sei" se perpetua na minha cabeça, porque eu não consigo sair deste impasse e a culpa não é de mais ninguem senão minha.
As ligações nascem de pontos comuns, de momentos de encontro entre as pessoas, e nós éramos tão diferentes, convergíamos de uma forma tão extrema que nos era praticamente impossível esses momentos de encontro e sintonia na prática. Mas então, porque é que havia tantos? De onde é que vinha aquele elo de ligação que era o maior que alguma vez tinha vivido? Como é que se era tão difícil para mim entender-te, e para ti entender-me, conseguíamos instantaneamente ler os sentimentos um do outro, passar as emoções um ao outro só através do toque da pele ou do cruzar dos olhar? E porque é que apesar de nada fazer sentido quando olhava para nós à distância, eu continuava a passar literalmente para outro mundo só pelo mínimo contacto contigo, quase como se houvesse uma espécie de universo paralelo que parecia estar basicamente a nossa espera. Não percebo como é que com todas as inseguranças que eu tinha e que contigo se tornavam ainda mais presentes, contigo sempre tive confiança para dizer tudo o que me passava pela cabeça da forma como me passava pela cabeça, porque é que parecia que sabias sempre exactamente o que eu queria dizer, no fundo sabias exactamente quem eu era.
E eu, que nunca fui dada a romances nem almas gémeas, muito menos a idealizações, sempre fugi deste meu pressentimento que tive desde que te vi a frente, que era tudo diferente, como se o mundo todo estivesse a preto e branco e tu a cores. E esse pressentimento era no fundo que separados podíamos não ser sequer nada de especial, mas que éramos tão diferentes juntos, tão extraordinários unidos, que a grande pena foi o facto de raramente nos permitirmos estar, de facto, unidos sem construirmos barreiras gigantes e nos afastarmos em distância impercorríveis. No fundo era aquele pressentimento de que éramos “feitos um para o outro” e que não havia possibilidade de no mundo haver algo como tu.
Acho que as vezes depende de uma só escolha, ou do acaso, dou por mim a perguntar-me porque é que a Julieta não se limitou a sair com um homem normal, havia tantos, e poupava o drama a toda a gente, e depois percebo que assim não haveria história. Ao fim do dia, o que fizemos foi apenas arrancar páginas da nossa história e deitá-las à fogueira, poupámo-nos o drama, virámo-nos as costas, e sentir que a história ainda não acabou não adianta porque não há mais páginas, porque por muito que me arda no peito como álcool numa ferida que toda ela foi vã, que algo tão mágico resultou num livro rasgado no meio do chão, é impossível voltar atrás.
E eu até posso ter mudado, e tu podes ter mudado também, de uma maneira que tudo fosse possível, mas o problema é que o mundo mudou também, é que a vida mudou também, e agora termos mudado, isso já não vai mudar nada.
Contudo, antes de começar a pensar, antes de chegar à conclusão que não há volta a dar, só sinto que não é voltar atrás que quero, não quero voltar ao passado, o passado já está escrito e é nele que estão os nossos erros, ele já está estragado e longe de mim está qerer recuperar as páginas que já rasgámos, o que eu no fundo quero é andar para a frente, e não para trás, continuo a ser otária ao ponto de acreditar que quem sabe, poderíamos ser aquele um num milhão que se não desistiu com todas as oportunidades que teve, não tem de desistir enquanto acreditar, que poderíamos ser aquele um num milhão que consegue resolver as coisas, que não esquece os erros mas que os ultrapassa. Que poderíamos ser aquele um no milhão que fica com uma história para contar, aquele um num milhão que torna o sonho realidade.
Por mais vergonhoso que seja, acho que no fundo continuo a acreditar que nós iamos ser aqueles diferentes de todos os outro, aqueles que realmente conseguiam.
Talvez tivesse de acabar mal, talvez nunca valesse a pena sequer pensar em tentar, isso eu não sei, eu não tenho as respostas, a única resposta que tenho e que se me perguntarem se consigo ser feliz com outra pessoa eu digo que sim, mas que se me perguntarem se sinto a tua falta não consigo de todo responder que não, e mais do que saudades do que tínhamos juntos, sinto saudades de ti.
E daquilo que sinto mais falta, é de quando apareces num sonho meu à noite, eu conseguir acordar sem o considerar um pesadelo, por ter de acordar sem ti.
Continuo a repetir a mim mesma que um dia, um dia eu hei-de apagar as velas, esquecer o fumo, e desejar boa noite,e deixar alguém acordar-me e fazer-me feliz, outra vez.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sabes há quanto tempo que não paro neste país? Não foi por acaso que me evaporei, que desapareci com o ar e com o tempo.

Andei a minha vida inteira a estabelecer objectivos e regras idiotas a mim mesma, por rejeitar as dos outros e por outro lado precisar delas, mas agora, sem vozes de fundo nem pressões exteriores, agora, na pureza de uma casa vazia e na calma do fim de tarde, só sei que nunca fiz a mais pequena ideia daquilo que quero. Aliás, acho que no fundo ninguém faz. A única coisa que desde os primórdios do mundo moveu o homem foi o amor, não apenas o romântico, mas o amor em si, a algo. Quer seja à arte, ao dinheiro, à vida, não interessa, sendo que obviamente o amor mais forte é o que é dirigido a alguém, visto que esse é o único amor que é recíproco: há sempre a esperança dessa pessoa nutrir por nós amor também (e não me parece que quem ame o seu trabalho esteja à espera de ser amado por ele, apesar de esperar ser amado ou admirado por causa dele, mas nunca na mesma proporção), o amor a alguém é o único possível de ser retribuido.
E é só através de um amor a algo que a vida ganha sentido, é a força que move o universo e que aproxima e afasta coisas. E só de uma aproximação entre coisas, se constroem coisas maiores: os átomos, os animais, os tijolos das casas, isso é visível seja qual for o lugar onde estejas ou no que quer que penses.
E eu sempre tive isto dentro de mim, esta vontade de construir algo maior, mas só o queria fazê-lo quando estivesse cem por cento certa de o querer, de estar preparada para o fazer. Essa tentativa cada vez se prova mais errada a ela mesma.
Nunca se está preparado para a vida, até porque ela faz questão de não se manter a mesma dois segundos seguidos, nunca é possível saber o que realmente se quer, isso não vai acontecer. Normalmente só temos certezas sobre aquilo que não queremos, e fugimos mais de medos do que perseguimos sonhos, e muitas vezes passamos a vida a fazê-lo. Fugimos mais de uma má vida, ou da solidão, ou da miséria, do que percorremos o amor, ou valores, ou ideais: ou seja, muitas das coisas da nossa vida vêm por acaso, e aparecem no caminho enquanto fugíamos de outra coisa qualquer, não me refiro a uma fuga covarde, mas a uma fuga de sobrevivência, raramente o que temos surge como exactamente o que procurávamos.
Mas quando chegaste à minha vida, foram esses os únicos segundos em que me lembro de não saber só o que não queria, mas ter a certeza do que queria: e nesses segundos, nesses breves segundos, a única coisa que eu queria realmente eras tu, e essa sensação de certeza, foi em mim por si só já um milagre. E é por isso que vou aí ter contigo, porque estou farta de percorrer o mundo sem nada sem ser a mim mesma, porque já não tenho mais medo de perder isso, e porque me vou levar a mim mesma comigo para te entregar mal te vir.
Tu ficaste e isso é razão suficiente para não te querer perder, porque és aquilo que eu tenho. E depois de ganhar a coragem para o admitir, és tudo aquilo que realmente quero ter.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A tua história de encantar

Num dia bom, queriamos não acreditar que a nossa vida poderia ser um conto de fadas, que não sabemos o que há ao virar da esquina, que a vida vai florir de repente em todo o seu sentido, só por nos termos conseguido manter de pé durante todos aquele tempo em que nada o fazia, só por nos mantermos em pé e conseguirmos dar o melhor de nós mesmo quando nos sentimos não viver a vida que nos pertence, não ser o que queríamos, não estar onde devíamos. Continuamos a mesma criança, se pensarmos bem, que ainda sonha que vai haver um dia em que se acorda sem mais duvidas, numa felicidade que não e só momentânea mas que fica, sem haver necessidade de a andar sempre a perseguir como cães esfomeados.
Continuamos a querer ser as princesas ou os heróis da Disney que nunca sendo perfeitos, conseguiram a sua história e o seu final feliz. Continuamos todos os dias a acordar, a desejar a cada instante que o nosso sonho se torne realidade, mesmo quando não temos um, apenas ter a certeza que o nosso final vai ser feliz e que essa felicidade vai durar.
Por detrás de todos os discursos diários, por detrás de todas as definições que adoptamos para felicidade,de todos os planos e objectivos que traçamos, e por detrás daquilo que dizemos querer, ter ou precisar, todos desejamos o mesmo: esperamos por aquela aproximação à perfeição, por aquele equilibrio, que nunca conseguimos atingir por mais de segundos.
No fundo, passamos grande parte do tempo a sonhar acordados, a fantasiar com finais de contos de fadas, a pedir secretamente pelo dia em que tudo irá mudar, pelo dia em que acordamos e o mundo nos sorri mesmo nas piores alturas, em que acordamos e acreditamos que o príncipe encantado nos vem acordar do sono profundo, em que achamos possível o ter sempre tentado fazer a coisa certa seja recompensado, porque na verdade, não acreditamos muito nisso, ou não queremos de todo acreditar.
Porque é esse o problema de sonhar, depois custa acordar, e essa nossa falta de fé num final feliz, é apenas porque esse dia continua a aparecer-nos de vez em quando, esse dia de que aparecem as certezas, em que as dúvidas se evaporam, e em que seremos felizes para sempre.

Mas o mais impressionante de tudo, é que apesar de o sabermos, nunca parecemos lembrar-nos que mesmo as personagens encantadas, salvas pela magia e protegidas pelo bem, mesmo essas, foram envenenadas, adormecidas, presas, exploradas e maltratadas, os heróis e heroínas mais bravas foram desvalorizadas, gozadas, e acima de tudo: todos esses erraram.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Stand for yourself

Sempre que começamos algo, seja o que for: um livro, uma amizade, uma relação, uma banda… temos como ideia basicamente o mesmo, trata-se essencialmente de nós, de uma identidade, de um núcleo de coisas em que acreditamos afincamente das quais achamos inacreditável fazer parte.

Achamos tudo o que sentimos tão único, tão essencial. Tudo o que pensamos tão fresco e novo, que temos de o escrever, temos de o provar, temos de o fazer, temos de o continuar , de o partilhar. Todos nos queremos sentir especiais, e os inícios das coisas, a sua ideia, a sua essência, faz-nos fazer parte de alguma coisa, e fazer parte de alguma coisa faz nos ser mais alguma coisa, e ser mais alguma coisa faz-nos mais especias.

Mas o problema é que depois descobrimos que somos mais um na multidão, que o máximo que conseguimos é mais uma frase bonita, que podemos trabalhar dia e noite, o máximo que conseguiremos é mais um trabalho bem feito, entre os milhões que existem mundo fora. Podemos estudar o resto da nossa vida, que o que saberemos será de outros que o descobriram, nós só o aprendemos, seremos apenas mais uma pessoa que sabe muito. E é daí que é os brilhantes se tornam frustrados, que os génios se tornam doidos, que as crianças se tornam adultos e os adultos se tornam velhos. Porque será fácil sobressair no nosso bairro, mas pelo mundo fora não somos grande espingarda, e o problema é do mundo, é demasiado grande, não podemos ser tão grandes como ele.

É aí que sentimos como tão especial e único se revela ordinário, vulgar, normal, natural. Aliás, disse mal, isso não é o problema, isso é a verdade, é a inevitabilidade. É a realidade, que é uma desmancha prazeres, mas se não fosse, ninguém sonharia porque não valeria a pena, se tudo fosse de facto (e facilmente) possível. Mas,como disse, não é esse o problema. O problema é isso nos fazer desistir, achar que estamos condenados a ser nada de especial, a ser mais um, um no meio da multidão, mais um, na história da humanidade, mais um berço na maternidade e mais uma sepultura no cemitério. Esse é, sim, o verdadeiro problema.

Toda a gente que mete os pés neste carrossel azul e verde já conseguiu alguma coisa e falhou em milhões delas.
Já foi bom em alguma coisa e mau em outra. Até os maiores génios, até mesmo as pessoas que conseguiram destacar-se na multidão de tal forma, de uma forma tão extrema que não só foram um entre os milhões que existiam, como continuam a ser um entre os milhões de todos os que já existiram antes dele, e um entre milhões daqueles que irão existir depois de ele já ter desaparecido. O que é que está mal na nossa cabeça, afinal, para não esperarmos nada de novo já, nenhuma surpresa, nem mesmo por de nós mesmos? De já não acreditarmos em nada inesperado? Para acharmos que o pouco chega?

Como é que é fisicamente possível não pensarmos, ou recusarmo-nos a sentirmo-nos descontentes e insatisfeitos conosco, quando , sinceramente, até o Einstein teve más notas, até Sócrates se sentiu perdido, até Fernando Pessoa se embebedou, até Cristóvão Colombo já se deve ter perdido no meio de tanto mar, até Mozart já levou uma tampa, e até a Marlin Monroe trabalhou numa loja de gelados?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

To give things up

Maybe we're not supposed to be happy. Maybe gratitude has nothing to do with joy. Maybe being grateful means recognizing what you have for what it is. Appreciating small victories. Admiring the struggle it takes simply to be human. Maybe we're thankful for the familiar things we know. And maybe we're thankful for the things we'll never know. At the end of the day, the fact that we have the courage to still be standing is reason enough to celebrate

Everyone, once in a lifetime, tries harder, sinks deeper.
It’s what we do.
And that’s ok, we are humans, that’s our thing: crossing lines, dangerous lines, taking chances, dangerous chances, swimming deeper, refusing the clearness of the surface and exploring what’s dark, what’s new, what we do not know, what takes our breath away, until we can no longer breathe.
That’s our thing, that’s what we do, and if we didin’t from the beginning, we would still be just monkeys. That’s us, sinking deeper,giving up savety, clearness, giving up happy, simple, easy.
We just give that up, because it’s far too happy, too easy for us, too simple to reach, we know it, we feel it, we’ve seen it, we now how to get it, we just want more than that.
We wish "more", we long to see were else more "more" can lead us and what else more "more" can bring us. And that’s because we constantly believe risky things must always lead to something good, to something more. Something more desirable than good things which can only lead us to their selves, while dangerous things will lead us where we have no clue of , somewhere completely new.
And new it’s our thing, change is our thing, and we can't give that up.
But honestly, we should be careful so that we can know how to return if we need to, when things get way to messy and we realise that if we don't, we may never breathe again.

Porque é que escrevi em inglês mesmo? Espero que não seja mania.

domingo, 14 de novembro de 2010

Desacredita

A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito.
Sempre achei que o amor era como uma espécies de religião, porque era preciso ser devoto, acreditar, ter fé, e não precisar de certezas absolutas ou explicações racionais.
Tal como na religião, é preciso sonhar,fazer promessas, interiorizar aquela série de verdades das quais não existem provas de existência mas também não existem provas que o neguem. Tal como a religião, é uma vela no escuro, um guia, um barco de salvamento, uma forma de encontrar sentido à nossa vida.
Há quem tenha problemas com fé, com credibilidade, confiança cega e com irracionalidade. Quem goste de perceber, de acreditar porque faz sentido e não porque se precisa, porque é demasiado difícil viver sem acreditar em nada, e a verdade é que quase tudo em que se possa acreditar tem falhas, falta de sentido, em algum ponto e de algum modo, porque nada é perfeito e se algo fosse ninguém seria perfeito o suficiente para o perceber.
Nunca achei que me viesse a apaixonar rapidamente, precisamente por ter esta vontade constante de acreditar em alguma coisa mas incapacidade intrínseca de o fazer, mas sem me dar conta, acabou por me acontecer. Porque mais tarde ou mais cedo na história, acontece sempre algo inexplicável, há quem chame acaso, há quem chame milagre, mas continua a ser inexplicável. E mais tarde ou mais cedo, toda a gente se apaixona de uma forma ou de outra, inexplicavelmente, quer se permitindo fazê-lo ou não, mas toda a gente mais tarde ou mais cedo não consegue evitar acreditar em algo. Porque sem acreditar em nada a vida é escura e sem sentido, sem rédeas, vazia.
Pela mesma razão que nem sempre percebemos o porquê das coisas começarem a existir, também não percebemos o porquê delas acabarem, delas deixarem de dar sentido, luz, rédeas, preenchimento. Também não percebemos porque nem sempre existe razão, e por isso mesmo, por toda essa falta de razão, por toda essa falta de explicação e de ciência, a que nos pudéssemos agarrar e perceber que não existe outra solução sem ser seguir em frente, é que nos sentimos perdidos quando largamos as rédeas, quando se apagam as luzes e a única réstia de luz é a esperança, tão inexplicável e tão sem sentido como a razão da sua existência, mas tão necessária e inevitável como a razão pela qual ela não pode deixar de surgir.
E não está certo guiarmo-nos só pela luz da esperança, nem sequer nos é possível, quando antes estava tudo tão claro como água e agora nem sabemos por onde andamos, nem vemos o que nos rodeia. E nos limitamos a perseguir a luz como insectos só para não nos perdermos por absoluto ou não o admitirmos, e a fugir do escuro até percebermos que as vezes é mais fácil desligar de vez a luz e tentarmos recuperar os nossos sentidos. Porque quando deixamos de ter dentro de nós essa crença, esse sentimento, é como se nos tornássemos inaptos para a vida e perdêssemos o o tacto, o olfacto, a visão, o paladar para o presente e apenas vivêssemos dos sabores e cores do passado pois parecem simplesmente mais vivos.
Como se não houvesse nada mais pelo qual rezar, mais nenhuma razão pela qual acreditar em algo que não existe por muito que deixe por toda a parte sinais de existência que podem ter, no final, outras explicações.
Por isso seguir em frente as vezes não é complicado, é ser ateu, simples, inteligente, racional. É cortar as rédeas, apagar as luzes, desacreditar em algo que, no fundo, continua a fazer sentido sem nunca o ter feito. Seguir em frente é, muitas vezes, deixar a meio, fugir do escuro. Seguir em frente é, muitas vezes, é tapar os ouvidos e o nariz, fechar os olhos e a boca, deixar-se iludir.
Muitas vezes, é pura e simplesmente, fazer batota.
Mas fazer batota, na vida, na maior parte das vezes torna-se a única forma não de ganhar, mas de não perder.

sábado, 18 de setembro de 2010

Nunca me perdi

A verdade é um fantasma que há que perseguir cada vez mais longe.

Nunca me perdi, sou demasiado covarde para isso. Sou demasiado covarde para arriscar e apostar tudo de mim e todo o meu esforço em algo, mas demasiado covarde também para me perder, para agir sem pensar.
Nunca me perdi, mas não consigo estabelecer metas nem destinos, sou sempre apanhada no meio, sou sempre um eterno poço de dúvidas, de contradições, poço este que não me deixa avançar mais. Limito-me a ir dando passinhos em falso e não falhar no pouco que me exigem, e para não o fazer, a tentar que esperem o menos possível de mim, a tentar ser o mais sincera possível para não iludir ninguém. Prefiro ficar escondida e ir entregando os pedaços que posso, numa espécie de liberdade condicional, pois quando não estou encurralada, apanhada, e presa pelo medo, e ansiedade, é porque estou fugir deles, como se não pudesse estar bem, em paz. E toda a gente parece alcançar essa segurança que protege de todas as sombras em algo ou alguém e para mim nada é suficiente. Mas guardo há coisas que guardo tão bem dentro de mim, tão carinhosamente no meu coração, que não consigo nunca perder-me delas, do que amo.
Mas no último momento, largo-as, como se tivesse medo de não fugir, de ficar, de manter e guardar, de assumir que acredito nelas, de ser e estar, de viver, sem saber do que estu a fugir. Não sei e queria saber, não sei e não tento saber, não sei e tenho medo de saber, não sei nem nunca soube e tenho medo de não vir mesmo a saber
Eu não me perco, nunca, nunca me perdi, nem de ti nem de nada, acabo por manter sempre um fio de ligação a tudo, mas também não me envolvo, quando o faço volto para trás. É como uma nuvem me afastasse da realidade como um filtro,e à medida que o tempo passa, com ele passa a vida, como a badalada de um sino que toca de hora em hora a recordar-me de que ela está a passar e que o tempo existe, a lembrar-me de que eu existo também, de que tenho mesmo uma vida e que convinha vivê-la antes que ela acabe.

Gostava de desligar esse filtro,como se desliga nos sonhos, viver como quem sonha, sem filtros, sem limites, gostava de amar como quem sonha, de amar com tudo de mim, de uma forma que eu não conheço, de amar com este amor que genuinamente sinto por ti, pelas coisas, pela vida, e que penso que todos sentimos, por alguém, por algo, pela vida. Fico cheia de força por dentro, cheia de beleza que eu só consigo ver e sabes, é um autentico desperdício, porque eu não a consigo nem contemplar nem exteriorizar, só deixá-la morrer. É como se tivesse uma estrela gigante a latejar dentro de mim, sem saber lidar com ela, e deixando que com o tempo ela esmoreça. E sabes o que acontece a uma estrela quando morre? Não se limita a deixar de brilhar, torna-se num buraco negro, daqueles que engolem tudo o que se aproxima.

E tenho tanto medo que às vezes limito-me a ficar escondida e não mostrar nada, porque não sei o que mostrar, como se fosse mensageira de algo que não conheço e só quando me sai pela pele é que consigo entender (atenção, figurativemente e bem longe de misticismos). Enquanto isso tento sobreviver, tento fazer o mínimos, tento procurar partes disso, mas as vezes sinto-me como uma autentica sombra de mim mesma. Gostava que um dia, em vez de conhecer apenas a minha sombra, me conhecesse de facto. Nunca me perdi, e tenho medo de me perder, um medo irrepreensivel, incontrolável, mas compreensivel. A vida é confusa,é um manto de retalhos impossível de controlar por muito que nunca resistamos em tomar as suas rédeas, em interpretá-la, quando no fundo,ela só tem o sentido que lhe quisermos dar e isso é demasiado para fazer enquanto também a temos de a viver simultaneamente.

Apetece-me apanhar o próximo táxi e pedir que me deixe em qualquer lado, um lado qualquer mas diferente, que certamente mudará o resto da minha vida, tal como tudo o que fazemos a vai mudando e construindo, porque afinal viver é exactamente isso, ir escolhendo os táxis que vamos apanhar julgando saber onde nos deixam, e por vezes somos surpreendidos.
Mas eu, fico sentada a ver os táxis passar, como se nenhum fosse o certo, no ultimo momento, nunca consigo entrar, como se não fosse ainda, a minha vez. Nunca sequer tentei, eu não tento.
É por isso que nunca me perdi, porque nunca tive coragem.