
"Um ponto de exclamação cansado é um ponto de interrogação"
O meu coração sente-se cansado de me tapar os ouvidos para não te ouvir, cansado de me vendar os olhos para não te ver a rasgar a minha imagem.
Apetece-me cegar-te, ensurdecer-te. Emudecer-te. Porque não aguento um só segundo, nem mais um único, em que me dissecas com o teu olhar e me corróis com as tuas palavras ácidas.
Esse olhar frio e impenetrável que me segue como um lança afiada, apontada ao meu coração, que sinto a consumir-me para dentro de ti e sinto-te a inventar-me e adivinhar-me da maneira errada, mesmo quando não o estás a fazer.
Passaste a representar tudo o que há de mau em mim, como um espelho de defeitos, que faz com que ao tentar adivinhar o que pensas, me persiga eu a mim mesma, num autêntico labirinto sem saída. E fugir de ti é fácil, mas fugir de mim mesma cansa muito.
É isso mesmo, estou sem força, força é um ponto de exclamação, firme e irto, uma corda de aço traduzida em amor por cada momento de existência e por vivê-lo, engoli-lo, assimilá-lo e aproveitá-lo. E sim, um ponto de exclamação cansado sou eu agora, o que o transforma num ponto de interrogação e me faz perguntar porquê. Pergunto-me qual a razão, pergunto-me se a tens, pergunto-me se agora já não sou eu em vez de ti. Curvei tanto este ponto de interrogação até que ele se torna numa autentica bola, num ciclo.
Agora vejo os teus olhos nos de todos.Agora todos me assustam como a inicio tu me assustavas. Quando me dei conta sentia-me num palco, e mais tarde um fantoche nas tuas mãos que tinha de ganhar vida própria para não fazer o que tencionavas, num cenário ridículo em que me obrigavas a improvisar a comédia que fazias de mim e eu tinha de conseguir inventar um guião e sair dela por saber que não o era, mas agora já sou eu fazê-lo. Os outros passaram a ser espectadores do teu espectáculo, e agora passei eu a dirigi-lo. É a distância entre me sentir a degradar dentro de ti e entre ser eu a fazê-lo.
Sou de vidro e tu partiste-me e sei que a culpa é minha porque sou fácil de partir com algo tão inofensivo como uma pedra que ninguém vê. Ninguém entende porque é que tu, nessa inofensividade, me quebraste. Vi-te lá de fora com as pedras na mão, dentro da minha casa de vidro, mas as pedras eram tão pequeninas que não acreditei que o pudessem partir, mas sou feita de vidro fino, quase diria de cristal. Se às pedras que mandaste juntarmos todas as pequeninas pedras que ele suportou, ele não ia aguentar. E eu, em vez de abrir uma janela e te atirar pedras de volta, para que fosses embora, fi-lo sem a abrir, ajudando-te a quebrar a minha própria casa. As minhas pedras e as tuas quebraram o que já foi um casa confortável de cristal, não sei se o conseguiria fazer sem ti, mas tu não o conseguirias fazer sem mim.

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ResponderEliminaro ultimo parágrafo é algo de extraordinário
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