
Vivemos a uns dois passos um do outro e sinto-me completamente inatingível, e quanto mais atingível tento estar, mais me apercebo do quanto não o estou, estou longe, muito longe. Já passámos a fase em que tudo se resumia a paixão, ao encantamento inicial, agora mais do que te encantar e deixar-me ser encantada, tenho a vontade, e quase a obrigação, de ser sincera e transparente contigo. Não o era, não o fui, para ninguém, e não foste excepção. Eu sei que te sentes confuso com esta distância, que não a entendes. Estava contigo e as minhas inseguranças consumiam-me viva, perguntava-me o que estarias a pensar, a sentir, perguntava-me o que achavas de mim. Senti uma urgência de parar de correr, de me sentar num banco e tentar perceber o que se estava a passar e qual é que era a meta. Ao tentar fazê-lo percebi que me tinha enganado em todo o percurso,e no caminho me tinha perdido a mim mesma e já nem me conhecia. Estava tão preocupada em mostrar alguma coisa aos outros que esqueci os meus desejos, sonhos, e mesmo manias e ambições. Estava tão preocupada em continuar a correr que não olhei o caminho que percorri. Mas o passado é arrependimento e o futuro ansiedade, o que importa é o presente. E no presente odeio espelhos como sempre odiei, mas forço-me a mim mesma a olhá-los. Nem sempre me desenvolvo, me deixo ir, nem sempre me perco, no último momento defendo-me sempre com um jogo de cintura invejável.
Houve momentos em que me orgulhei desta autonomia e independência, que me fazem tão inexpugnável. Já não. É desligar da vida, como se nos tirassem da ficha com um gesto brusco e desumano. Essa força de me proteger dos outros, ausentar-me de mim mesma, leva-me a perguntar onde estou agora? Vai ser difícil encontrares-me. “Não tens laços carolina, perdeste a capacidade de os criar e tu sabes. A tua mania de quereres fazer tudo sozinha, de manteres tudo secreto e para ti mesma fez-te estar cada vez mais longe do mundo" digo para mim mesma. É verdade, e por muito tempo pensei que conseguia viver a iludir os outros que vivia nesta realidade e que ela me interessava, que me interessava por eles e fazia-os acreditar que eles se interessavam por mim, como se alguma vez me tivessem realmente conhecido. Por uns tempos pensei que conseguia ser feliz assim. Mas a verdade é que quando reparei tinha dessa ilusão e método de sobrevivência, construído uma vida, uma realidade, quase mesmo criado laços, totalmente sem querer. Abri os olhos e acordei no meio do palco, numa peça de teatro que fui eu que escrevi e na qual sou protagonista e até acredito. Mas há alguma coisa que não me permite abrir as cortinas desse palco, uma parte de mim que sente que não é aquele o papel que é suposto representar, ou que não é suposto representar de todo. Que a personagem não sou eu, mas não consigo agir de outra forma. É a minha própria vida, e é a vida é a coisa mais curta, sem sentido, imprevisível, e completamente indefinível que alguma vez vamos ter e para além disso nunca saímos dela vivos, por isso estou à espera do quê? Nessa peça comecei com uma máscara completa e ultimamente tenho-me livrado e cada vez mais adereços, até ficar seminua em palco.
Foste a primeira e última coisa que alguma vez na vida me fez continuar sabes? Que me fez viver. Ninguém me conhece tão bem, ou ninguém o tenta tanto. Tu existes e é só isso e não é preciso mais nada. E existes com força, dentro de mim. Em cada palavra que digo e em cada pensamento que tenho porque já te tenho entranhado. na pele, no corpo, na alma. já es bocado de mim e um bocado grande. Entraste na minha vida e à entrada bateste com a porta, quando me dei conta tinhas entrado na minha vida, talvez a primeira coisa que realmente o fez. E por muito medo que tenha, por muitas inseguranças que tenha, por muito que me seja difícil partilhar algo com alguém e ter de me mostrar como sou, sei que não quero que saias dela.
Um dia entrego-te a vida numa caixinha, prometo, entrego-te o meu corpo, a minha alma, e o que tiver mais para te dar. Mas antes de te dar isso tudo, tens de me deixar limpar tudo, arranjar tudo, e isso tu sabes, tu conheces-me, que pelo menos agora, tenho de ser eu a fazer.
Afinal temos todo o tempo do mundo, se estiver para acontecer, se for suposto acontecer e se for suposto esperares.
Afinal até temos muito. Não chega aos olhos dos outros? Chegasse.

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