"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

sábado, 18 de setembro de 2010

Nunca me perdi

A verdade é um fantasma que há que perseguir cada vez mais longe.

Nunca me perdi, sou demasiado covarde para isso. Sou demasiado covarde para arriscar e apostar tudo de mim e todo o meu esforço em algo, mas demasiado covarde também para me perder, para agir sem pensar.
Nunca me perdi, mas não consigo estabelecer metas nem destinos, sou sempre apanhada no meio, sou sempre um eterno poço de dúvidas, de contradições, poço este que não me deixa avançar mais. Limito-me a ir dando passinhos em falso e não falhar no pouco que me exigem, e para não o fazer, a tentar que esperem o menos possível de mim, a tentar ser o mais sincera possível para não iludir ninguém. Prefiro ficar escondida e ir entregando os pedaços que posso, numa espécie de liberdade condicional, pois quando não estou encurralada, apanhada, e presa pelo medo, e ansiedade, é porque estou fugir deles, como se não pudesse estar bem, em paz. E toda a gente parece alcançar essa segurança que protege de todas as sombras em algo ou alguém e para mim nada é suficiente. Mas guardo há coisas que guardo tão bem dentro de mim, tão carinhosamente no meu coração, que não consigo nunca perder-me delas, do que amo.
Mas no último momento, largo-as, como se tivesse medo de não fugir, de ficar, de manter e guardar, de assumir que acredito nelas, de ser e estar, de viver, sem saber do que estu a fugir. Não sei e queria saber, não sei e não tento saber, não sei e tenho medo de saber, não sei nem nunca soube e tenho medo de não vir mesmo a saber
Eu não me perco, nunca, nunca me perdi, nem de ti nem de nada, acabo por manter sempre um fio de ligação a tudo, mas também não me envolvo, quando o faço volto para trás. É como uma nuvem me afastasse da realidade como um filtro,e à medida que o tempo passa, com ele passa a vida, como a badalada de um sino que toca de hora em hora a recordar-me de que ela está a passar e que o tempo existe, a lembrar-me de que eu existo também, de que tenho mesmo uma vida e que convinha vivê-la antes que ela acabe.

Gostava de desligar esse filtro,como se desliga nos sonhos, viver como quem sonha, sem filtros, sem limites, gostava de amar como quem sonha, de amar com tudo de mim, de uma forma que eu não conheço, de amar com este amor que genuinamente sinto por ti, pelas coisas, pela vida, e que penso que todos sentimos, por alguém, por algo, pela vida. Fico cheia de força por dentro, cheia de beleza que eu só consigo ver e sabes, é um autentico desperdício, porque eu não a consigo nem contemplar nem exteriorizar, só deixá-la morrer. É como se tivesse uma estrela gigante a latejar dentro de mim, sem saber lidar com ela, e deixando que com o tempo ela esmoreça. E sabes o que acontece a uma estrela quando morre? Não se limita a deixar de brilhar, torna-se num buraco negro, daqueles que engolem tudo o que se aproxima.

E tenho tanto medo que às vezes limito-me a ficar escondida e não mostrar nada, porque não sei o que mostrar, como se fosse mensageira de algo que não conheço e só quando me sai pela pele é que consigo entender (atenção, figurativemente e bem longe de misticismos). Enquanto isso tento sobreviver, tento fazer o mínimos, tento procurar partes disso, mas as vezes sinto-me como uma autentica sombra de mim mesma. Gostava que um dia, em vez de conhecer apenas a minha sombra, me conhecesse de facto. Nunca me perdi, e tenho medo de me perder, um medo irrepreensivel, incontrolável, mas compreensivel. A vida é confusa,é um manto de retalhos impossível de controlar por muito que nunca resistamos em tomar as suas rédeas, em interpretá-la, quando no fundo,ela só tem o sentido que lhe quisermos dar e isso é demasiado para fazer enquanto também a temos de a viver simultaneamente.

Apetece-me apanhar o próximo táxi e pedir que me deixe em qualquer lado, um lado qualquer mas diferente, que certamente mudará o resto da minha vida, tal como tudo o que fazemos a vai mudando e construindo, porque afinal viver é exactamente isso, ir escolhendo os táxis que vamos apanhar julgando saber onde nos deixam, e por vezes somos surpreendidos.
Mas eu, fico sentada a ver os táxis passar, como se nenhum fosse o certo, no ultimo momento, nunca consigo entrar, como se não fosse ainda, a minha vez. Nunca sequer tentei, eu não tento.
É por isso que nunca me perdi, porque nunca tive coragem.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

diagnóstico da dor

Sentimos a dor mas não a sua ausência

Há sempre dores, toda a gente tem dores, e doem a todos da mesma forma. Não há escalas de dor universais, só personalizadas, um risco no automóvel pode doer tanto a alguém como a morte de um parente a outrém, pois a dor é de quem a sente consoante a sua forma de sentir o que quer que seja. Quando e como dói, só a quem dói é possível saberm quando se sabe. Porque às vezes não se sabe, é o tipo de dor que dura desde sempre como pano de fundo, a inquietação inexplicável, música ambiente desagradável, que faz doer a cabeça e distrair-nos mas à qual nos recusamos a prestar atenção.
E essa dor, essa dor é a pior de todas, porque é como uma sombra que está colada às próprias costas, bem atrás de nós, mas impossível de a vermos, e mesmo quando aparentamos aproximar-nos da claridade, ela ainda se torna maior e nunca permite que à nossa volta fique tudo totalmente claro.
As dores são diferentes, e vividas de maneiras diferentes, porque as pessoas são diferentes, mas de certa forma assemelha-se assustadoramente a um vírus, visto que se espalha e ataca quem está exposto a ele, mesmo que a reacção de cada um seja diferente. O nosso sistema imunitário psicológico (que também varia de pessoa para pessoa) combate-o sempre com as mesma imunidades mentais, pela mesma ordem, quando realmente a diagnosticamos e percebemos que algo não está bem: tal como a dor de física, normalmente a dor é o sintoma de algo que não está bem.
Todos combatemos o vírus em cinco fases, sempre, variando a duração de cada uma e raramente concluindo o tratamento, raramente tendo sucesso na extinção do vírus dor:
-primeiro negamo-lo, dizemos que não é nada, que vai passar(e frequentemente permanecemos nessa fase, pensando que já estamos curados)
-depois ele desenvolve-se e usamos a raiva e a revolta, tentamos combatê-lo à força, praguejar pela nossa má sorte (é o antibiótico mais agressivo, daqueles que nem nos deixa dormir)
-depois, a prevenção, tentamos negociar a dor, persuadi-la, percebê-la, pedir-lhe mesiricórida e evitar que cresça, combatê-la com argumentos racionais que a acalmem ou acalmá-la artificilmente (seja com alcool, droga, comprimidos, sexo ou comida ou desporto ou mesmo compras ou qualquer outro tipo de "terapias"). É a fase diplomática, a fase do sorriso amarelo, da esperança.
-Depois surge a depressão, em que somos derrotados e dominados, e na qual nos limitamos a sentir a dor, a ficar de cama, a esperar que o tempo ajude os remédios a fazer efeito.
-e, por fim, a aceitação. Aprendemos a viver com o vírus e a não alimentá-lo, vamos usando um pouco de todas as imunidades e com a devida distância a tratar o vírus da melhor maneira. O vírus daquela dor continuará ali, adormecido, até que por alguma razão ou olhar ou palavra, algo o volte a despertar, e o ciclo, mais lento ou mais acelarado, se repita de novo. Se o fizermos de forma intensiva demais, corremos o risco a que a dor se torne eterna por ganhar ela própria imunidade às nossas defesas.
A verdade é que tudo se desgasta, tudo acalma, tudo murcha, com o passar do tempo, da tristeza mais profunda, da beleza mais transcendente, do sabor mais intenso, tudo perde intensidade até ao resumidamente nada, enquanto novas coisas profundas, transcendentes e intensas diferentes nascem.
Assim, todas as dores, com o passar do tempo, saram e deixam só uma cicatriz, que pode ser aberta mas nunca sangra da mesma forma. E quanto mais coisas vemos murchar, mais temos dentro de nós, e provavelmente mais irão nascer também.
E o pior de tudo é que sabemos perfeitamente que a qualquer momento, tudo pode recomeçar.

Ilha

"A consciência da insonsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência."

Todos sabemos como são as pessoas. Estamos habituados a elas como estamos ao nosso próprio corpo, ao oxigénio, ao sol, à agua, e a todo o resto da natureza.

As pessoas, para nós, fazem parte da natureza e a forma como convivemos todos os dias com elas, nos rimos, falamos, ouvimos, vivemos, já é também natural, intrínseco, habitual. É estranha, essa nossa necessidade de partilhar e ser partilhados, como se fôssemos tão estranhos a nós mesmos que nos sentimos a ser comidos por nós próprios quando estamos sozinhos, como se precisássemos de ter a certeza que alguémestá lá, do nosso lado, que existimos para alguém e que fazemos parte do mundo. No final, o que todos sentimos é essa urgência de nos sentir reais, porque por muito sociáveis que sejamos vamos estar sempre incrivelmente sozinhos, porque pensamos consoante os nossos pensamentos e não podemos usar mais nenhuma cabeça, e olhamos segundo os nossos olhos mas não podemos usar o olhos de mais ninguém, estamos totalmente encurralados dentro de nós, da nossa história, do nosso próprio corpo, da nossa própria mente, na nossa própria vida. Não podemos simplesmente escolher sair dela, apenas mudá-la, mas mesmo assim, não há forma de fugir de nós próprios. E mesmo sabendo disso, nunca paramos um segundo para olhar para os outros como sendo eles mesmos, uns seres tão únicos que não existe mais nenhum igual o qual num mundo tão inacreditavelmente gigante, não nos perguntamos como será acordar todos os dias no seu corpo, na sua cabeça, em sua casa, na sua vida ou o que ele pensa a adormecer. Só nós preocupamos com esta estranha necessidade de nos tornarmos real para o outro, de estender aquele braço, de construir aquela ponte como tentativa de provar um pouco daquele mundo.
Como se fôssemos todos realmente ilhas, vivemos na nossa ilha com a nossa história,o nosso passado, o que somos, os nossos sonhos, pensamentos, emoções e recordações, e vamos contruindo pontes com as outras ilhas, cada um constrói metade e tentamo-nos encontrar a meio. Às vezes resulta, e às vezes as próprias ilhas se juntam, como se fossem contra a natureza. Mas não deixamos de estar sozinhos dentro de nós mesmos, mesmo sem um segundo de solidão na nossa vida, porque só nos vivemos a nossa história, mesmo que outros assistam à mesma, só nós temos os nossos pesadelos de noite, mesmo que alguém durma ao nosso lado. A nossa capacidade de reflexão e memória, é o que nos distingue dos animais, e é o que nos faz tão sós. A capacidade de nos identificarmos como alguém, caracterizado por uma história, uma aparência, um passado e um possível futuro. Não a biografia, não os factos, ou não apenas isso. Mas toda a história de todos, mas todos, os nossos sentimentos, emoções, pensamentos, ideias, sonhos.
Não só a história de tudo o que já vivemos mas a história da história de como é que vivemos tudo o que já vivemos e o que isso muda na maneira como estamos a viver, e o que isso muda no que vamos fazer e que no que isso nos fará viver, e de que forma se irá refletir na forma como viveremos isso que vamos viver.
É ela o que nos completa, porque ela nos torna diferente de todos os outros. Podemos ter uma biografia parecida com alguém, mas nunca a mesma história, o mesmo percurso de sentimentos e pensamentos que cada um vive, é essa história que nos torna autênticos, que nos torna nós mesmos, mesmo que essa história seja modificada por outras histórias, essas outras histórias serão lidas por nós consoante a nossa forma de as ler

E em toda a liberdade e enriquecimento à nossa volta temos uma enorme falta de escolha, certezas, e verdade. Tão condenados a ser livres dentro da prisão que nós somos inevitavelmente, por termos sempre este pormenor que nos distingue dos animais e se chama consciência. A consciência presente mesmo nos sonhos, este espelho cerebral e emocional permanente em nós que origina a nossa memória, assim a nossa história, e, assim, nos constrói a nós.
No fundo, só a queremos partilhar, só não a queremos deixar morrer, só nos queremos tornar exteriores, é o que todos nós queremos, e é para isso que servem as atitudes, as relações, as paixões, os livros, os filmes,as palavras, e tudo quanto não é só pensado mas feito ou tornado real. não queremos ser uma ilha deserta no meio do nada da qual ninguém sabe da existência. Os outros são o nosso espelho, se não houver outros, se não houver um espelho, é impossível reconhecer a nossa própria cara, é impossível ser real.

domingo, 25 de julho de 2010

Sem abrigo

Andar é traçar um rumo e segui-lo, mesmo quando não temos um destino acabamos por fazê-lo, andar é como viver porque não podemos dar o passo que ainda não demos, apenas pensar nele. Às vezes, os caminhos mais escondidos e estranhos, mais duvidosos e assustadores, são esses que nos levam a sítios bem melhores e bem mais nossos, ou mesmo que nos levem a um beco sem saída ou a uma rua triste, nos fez conhecer bem mais do mundo do que aquele caminho que já saberíamos exactamente como era. (Os caminhos que estão traçados levar-nos-ão apenas onde alguém já terá ido)
Levamos todos uma mochila às costas, em que guardamos tudo o queremos preservar, pessoas, coisas, sentimentos, memórias, que importam numa fase da vida e muitas vezes passado um tempo deitamos fora porque afinal só nos estão a fazer peso nas costas e não nos deixam andar, e temos de as tirar da mala e seguir em frente.
E sim, é assustador, temos momentos de solidão e medo gigantes porque mesmo acompanhados e apoiados por uma multidão o caminho que escolhemos seguimo-lo nós e escolhemo-lo nós, e quem é que confia inteiramente em si mesmo? É mais fácil confiar e ser de confiança aos outros.
O nosso caminho era escuro estreito, esburacado, difícil de caminhar, mas só a presença um do outro fazia-nos caminhar nele como se fosse uma avenida alcatroada. E tudo o que víamos no caminho era tão bom, tudo do que enchíamos as nossas mochilas valia tanto a pena que nem reparávamos que elas estavam pesadas. Mas tu agarras em tudo o que vês a frente, o bom e o mau, sobrelotas a tua mochila de uma forma que nem a consegues fechar e guardar o que interessa, porque pões tudo lá dentro e nem olhas para o que cai, és mesmo assim. E às vezes,guardas coisas tão pesadas que elas se entranham bem no fundo da mochila, e são as únicas que não caem, pesam tanto que não te deixam andar nem evoluir, continuar o teu caminho, e ocupam tanto espaço que não te deixam guardar mais nada, ficam só elas e tu a arrastá-las nas tuas costas. E mesmo que em momentos de lucidez desates a correr apesar do peso, que leves a minha mochila e até mesmo por vezes a mim, depois sentes-te sem força e deitas tudo fora, até mesmo o que importa e é leve, e só elas continuam lá, como se só tivesse valor o caminho que escolheste percorrer se este tiver sido doloroso de percorrer, como se só merecesses viver se isso fosse difícil. Tens tanto medo de ser enganado que és enganado sim por esse medo. E largas-me a mão e tudo o que recolhemos para voltares para trás tudo o que andámos, já sem força nas pernas e sem ossos nas costas. Como se eu tivesse sido só uma pedra no sapato. E sabes? Prometeste-me em segredo e sem saberes que nunca levarias contigo pedaços da minha mochila, fizeste-me acreditar que podíamos partilhar o peso das mesmas e que era assim que chegaríamos ao nosso próprio rumo, traçando o nosso próprio caminho. Mas com as dúvidas com que não sabes viver e que existem, tu acobardaste-te, arrancaste-me não só a tua mochila das mãos como rasgaste a minha e tudo o que eu tinha se espalhou no chão. E deixaste-me lá sozinha, a meio caminho de onde que que fosse que nós iríamos parar, e fugiste para trás mais uma vez. Agora não tenho nada que me proteja do frio, não tenho luz sequer para apanhar as minhas coisas e escolher o meu caminho, não tenho forças para correr atrás de ti de novo. Então fico sentada no meio do caminho que escolhi, que foi um caminho onde tu existias, um erro que eu jurei que não iria cometer mas cometi, à espera que voltes atrás antes que anoiteça e à medida que o sol se põe com a certeza crescente que não o vais fazer. Pergunto-me onde estás tu, agora e o que guardaste nessa mochila com a porcaria toda que meteste aí dentro, e pergunto-me porque é que não me consigo levantar e inventar um novo caminho, e porque é que tu não te sentas cinco segundos e não abres a mochila, olhas á tua volta, e percebes de vez o que queres afinal. Mais tarde, acabaste por voltar, como se não tivesses chegado a partir, e esquecendo-te que desta vez fui eu que fiquei à tua espera.
Tinhas medo de te ter enganado no caminho? Pois eu acho que eu me enganei. Não sou eu, isto não sou eu.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Miguel

A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objeto torna-se realmente outro, porque o tornamos outro. Manufaturamos realidades.
F.P- o livro do desassossego
Sempre que ouço o meu nome não respondo. Odeio que me chamem, odeio que me arranquem de onde estou, do eu casulo. Passei a odiar o meu nome miguel, só essa palavra entranha-me os ouvidos como uma faca afiada. Dói de ouvir.
Entre mim e o mundo existe um véu, como se não conseguisse extrair dele o que preciso nem dar-lhe o que tenho. Puseram-me numa escola especial para pessoas como eu e não há uma só, uma única que algum dia me vá compreender. Porque sou assim, posso dar muito aos outros e dizer as coisas certas mas nunca vou ter a capacidade de extrair deles o que eles me dão, mesmo que aprenda com eles. Não existe partilha, não existe companhia.
Mas cada um de nós vive no limite da sua realidade, como se vivêssemos todos mergulhados na ilusão onde o resto do mundo apenas molha os pés. E olhássemos para eles, para a realidade, cá de baixo.A realidade é mais ou menos parecida para todos, mas a ilusão não. Não podemos entrar na ilusão de ninguém, nem na verdadeira realidade de ninguém.Como uma mistura de genes, acontecimentos, memória, história e como se viveu a história. Se a realidade de cada um, por si só, é como uma mistura de ondes, comos, quems e porquês, quanto mais as suas ilusões.
Não percebo se viver numa mentira é viver no mesmo mundo que os outros, no qual não acredito, ou viver no meu próprio mundo e passar todos os segundos dos meus dias a duvidar dele.
Só desejava ser invisível, intocável, não queria que ninguém se lembrasse de mim, não me queria lembrar de mim. No fundo sei que não posso ser tão omnipotente, esta minha ilusão que se quiser mesmo consigo mudar o mundo inteiro à minha volta e criá-lo dentro de mim à minha maneira.

Sinto-me congelado perante os outros e perante a vida, e tudo fica preso, a voz, o coração, a alma, o corpo. Só o pensamento, livre por si mesmo o continua a ser. Mesmo assim consigo persegui-lo e tentar manipulá-lo. Estou cansado, cansado de não poder achar bom o que para mim é bom porque tenho de passar a achar outras coisas boas que nem sequer acho boas. Cansado, cronicamente, de sempre que sinto estar genuinamente certo e ter medo da doença que os médicos acusam. Doente? Tenho apenas 10 anos. A loucura, porcaria da etiqueta da loucura que me segue como um íman magnético e eu fosse um bloco de ferro. Onde querem que eu seja feliz cá fora? Que espaço é que a realidade guardou para quem não vive nela nem dela? E como posso eu falar de realidade se dizem que não tenho a sua consciência? E porque é que penso isto mas nunca conseguirei dizê-lo ou escrevê-lo?
Da loucura? Todos temos medo da loucura, de uma forma ou outra. Todos temos medo de fazer algo que ainda não foi feito, por termos o medo de sermos rotulados. Todos temos medo de deixarmos de ser fiéis a nós mesmo, de não nos reconhecermos. Ninguem se quer perder. Todos temos medo de nos desligar-mos de todos os padrões e regras interiorizados em nós e nem nos passa pela cabeça fazê-lo.
Porque é que temos tanto medo de nos perdermos? Sabemos que ninguém se perde de verdade, ninguém mesmo, que todos traçam as linhas à sua maneira e loucos são aquele que contornam as linhas rectas sobre as quais acham que por já estarem traçadas devemos andar. Pois e se não tiverem essa linha? E se forem como eu, que nasceu sem linhas em que caminhar e das quais seria perigoso um desvio, mas assim, alguém que traça as próprias linhas curvas e tortas como um bebé que pega num lápis pela primeira vez. Somos humanos, não somos automóveis, nós não temos defeitos nem qualidades, nem garantias, nem cupões de desconto. Só temos um conjunto de genes, características e histórias que nos definem e nos tornam quem somos. Porque afinal não somos muito mais do que isso, do que a nossa história e o que ela muda em nós a cada segundo que passa, e é isso mesmo, a nossa história que permanece anos depois de morrermos. É a história da Humanidade que ficou, de todo o passado que existiu. Até de um escritor, o que fica é o seu livro. E eu quero construir a minha à minha maneira, eu confio no que a minha vida quer fazer da minha história.

Confiar na vida não é desistir dela, e confiar em nós.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Mãe


Sempre foste a pessoa sobre e a quem quis escrever. Nunca consegui escrever sobre ti porque é mais fácil escrever do passado, do futuro, de algo que não pertence ao momento presente. Tu estás sempre presente, tanto que ás vezes já nem reparo que estás, como a minha luz de presença, que nunca deixa o quarto escuro e que não me deixa perder dentro dele. Não me resta espaço para fingir perante ti, aí é fácil ver perfeitamente bem o que e quem sou. A tua voz deixa-me um rasto que sigo e que se torna a minha voz também sem eu dar conta.
É próprio de mim, nunca fui capaz de ouvir ninguém, sempre pensei que só eu e que sabia, que so eu me conhecia. Mas de alguma forma as vozes ecoam na minha cabeça e mesmo que não as ouça na altura ouço-as depois, só que por vezes se tornam tantas que já não sei qual me pertence.
A tua destaca-se e sobrepõem-se, mais clara que todas, porque é a voz que eu escolho. A tua é a única que, de alguma forma, se funde com a minha voz e a vai afinando, melhorando, aperfeiçoando, e fazendo gostar dela. Porque até mesmo em silêncio me vais ensinando a como ser alguém melhor. Gosto de ti e da ideia de ti, tudo o que tu implicas e até o que fazes, mesmo os teus erros. Não tens propriamente sorte, talvez eu tenha mais. Mas é por isso que és tão melhor do que eu.
Imagina um mundo onde tinhas exactamente tudo o que querias.

Agora imagina-te a viver nele por um dia, dois dias, e para sempre. Os dias seguirse-iam iguais.Não havia aquele q.b. de frustação e de obrigação de realismo que torna o sonho tão doce. Não havia sonhos. Sonho é a nossa resposta à dificuldade. Foi essa dificuldade que te tornou os sonhos tão simples de concretizar, e talvez a mesma falta de dificuldade que me fez sonhar demais.
É a tua concepção de vida.
E toda a gente tem a sua concepção de vida mas ninguém acredita piamente nela.
Para um pintor a vida, não é uma linha traçada com uma régua, direita e pela qual devemos andar. É só uma grande folha em branco, na qual vamos traçando uma linha curva e contínua, sempre influenciada pelo que já traçámos e não podemos apagar, sempre e que inlfuenciará a estraçada traçada em papel que a nossa vida será. Em cada troço de vida imeninte sempre toda a vida que lhe está latente, todas as sensações, medos, esperanças e fantasias em cada segundo de vida e mesmo naquele em que dormimos.
Para alguém que passeia nos bosques a vida é isso mesmo, um bosque, de beleza profunda na qual raramente temos tempo para reparar, e quando reparamos, concentramo-nos nos caminhos a seguir, que podem ser milhares e somos nós que os escolhemos, e eles bifurcam-se, e entrelaçam-se e nunca saberemos onde é que vão dar. Por vezes nem têm saída e é necessário trepar e escalar para encontrar um novo trilho. Às vezes os mais pequenos e acidentados conduzem aos melhores sitíos, a grande clareiras. Mas por esses ninguém vai, toda a gente vai pelos caminhos mais largos por haver mais gente a ter neles caminhado, seguros, mas só conduzem aos sítios onde já alguém foi.
Mas no momento a seguir, existe sempre uma pressão constante a querer abrir-nos os olhose que nos obriga a traçar linha, a dar o passo. E é isso que consegues sempre.
Mas tu não queres saber, tu gostas de fazer coisas, ou descobrir coisas, ou acreditar em coisas, ajudar pessoas com coisas. É por isso que nos ajudamos uns aos outros e é por isso que a ciência não é mais que outra religião, a única que se vai modificando, mas que nem por isso deixa de seguir dogmas, leis, padrões, que caso questiona, se perde. Porque é tudo para nos preencher, e tu fazes isso a toda a hora, preencher coisas, preencher-te com coisas. Coisas boas, coisas que valem a pena. Coisas tuas.
E as tuas coisas mãe, são as minha preferidas, as que me tornam quem eu sou, as que não dispenso, as que admiro, as que eu sei que nuncavou esquecer, porque são muito mais que coisas.
Obrigada

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Praia


Se me perguntassem onde queria viver, respondia que gostava de viver em ti, como um fastama invisível ao teu pensamento que vivia rodeado de ti e do teu mundo sem te aperceberes. Viver em ti seria como viver no mar. O mar, espaço infinito de invejável solidão e independência, de insistente tentativa de alcançar o mundo inteiro, de engolir toda a terra. Com o pulsar das ondas pulsam os pensamentos e no seu rugir o bater do coração. O mar, tu, o meu mar, muda, com as marés, fases e ondas, mas a sua água é sempre salgada, é sempre a mesma água, a mesma água salgada pelas lágrimas a mesma água pura e límpida como cristal. Viver em ti seria isso mesmo, viver no mar, de tal forma envolvente que ao molhar os pés à beira-mar já sinto fazer parte integrante do oceano, como que se puxasse por mim, como se fosse eu também mais uma gota de água. Sou facilmente controlada pelo mar ( e facilmente controlada por ti) e mesmo quando os dedos engelham e enfraqueço de frio, recuso-me a sair dele, de toda aquela beleza e perfeição de que sentimos fazer parte, eu e o mar ( e eu e tu), como se o tempo e o mundo esperassem por nós e deixasse que apenas existesse nele as ondas, o silêncio do seu rugir e das nossas palavras. Nunca sei onde o mar me leva, e isso às vezes faz-me voltar a terra por medo, só existe o seu movimento perpétuo, a sua instabilidade, mas apesar disso a sua profunda lei que se mantêm inalterável ao longos dos anos. A sua verdade.
Vivemos nisso mesmo, no dia a dia em terra, mas quando juntos, num oceano do qual desconhcemos limites do qual temos um medo gigante de nos afundar.
Mas ao longo deste tempo todo, já provámos que nos salvamos sempre mutuamente.
Figuradamente, parecemos duas metades de uma bola, duas metades cheias de falhas e buracos com a forma do outro, que no fim encaixam na perfeição e formam uma bola gigante e oca, segura, que armazena a vida de cada um de nós e a vida que partilhamos também. Separados, somos duas metades esfarrapadas, que deixam a vida escorrer entre as falhas, o tempo escoar as lembranças e aquilo que somos, facilmente arrastadas pelas tempestades do mundo exterior. Separados ,perdemos a capacidade de rebolar vida adentro, perdemos aquele espaço oco em que podemos contar com tudo o que temos e ao qual podemos acrescentar todos os dias algo novo, em que nada nos escapa. Perdemos a nossa imunidade, a nossa força, a nossa realidade.