"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Avó,


Sempre que me lembro de ti sinto este lugar que não quero que ninguém preencha e que tu deixaste vazio.

Acho que secretamente, todos nós falamos com as pessoas que já morreram, para lhes dizer algo que não chegámos a dizer em vida, para nos lembrarmos delas, para as esquecermos, porque elas ainda existem, mesmo que não as vejamos.
A verdade é que não conseguia continuar a falar contigo só em pensamento, tinha de te escrever, tinha de ter a ilusão que ao menos tentei dizer-te alguma coisa, que ainda não desisti de ti, mostrar que continuo a falar contigo.
Não sei onde estás ou se estás, não sei para onde vai tudo o que construímos em vida,
a nossa volta e dentro de nós. As coisas que ficam cá fisicamente, as coisas que tanto te esforçaste por manter, a casa, o dinheiro, as roupas, o corpo, são o que menos vemos, são as que mais depressa se esgotam de ti. A partir do momento em que nos deixaste, deixaram de ser tuas, quase que deixaram de existir. O que ainda existe é estranhamente a única coisa que desapareceu, que és tu. A memória das pessoas que já morreram é algo de extraordinário, exigimos a nós próprios fazer um resumo daquela pessoa na nossa cabeça, enquanto às outras vamos actualizando essa imagem todos os dias, às pessoas que já morreram não o fazemos porque elas "já não existem". O que é demasiado absurdo para ser verdade ou fazer sentido. Todos os dias completo a imagem que tenho de ti, descubro sobre ti, mais alguma coisa que me era invisível enquanto te via todas as semanas.
A forma mais intensa de conhecer as pessoas não é só estar com elas, é
"engoli-las", saboreá-las, interiorizá-las, completá-las dentro de nós até
sabermos exactamente o que são e o que significam para nós a cada dia e a cada
momento, porque nada disso se mantém constante, a imagem e a forma como nos
sentimos sobre ela muda de instante para instante, e nesses intantes não precisamos de estar na presença dela, só precisamos de a saber e de nos sabermos.

Li agora um artigo numa revista em que se fez um estudo sobre o estado de sono profundo, os sonhos, e como se aproxima a um estado de mortalidade. Defende que quando morremos entramos numa espécie de sono profundo perpétuo e incapazes de acordar, completamente desligados de tudo o que é real, perdemos a consciência de nós mesmo e vivemos numa espécie de memórias, imaginação e pensamentos intemporais. De toda a energia que resultou da nossa actividade cerebral, até que esta termine de vez. Nunca nos lembramos dos sonhos que temos quando dormimos mais profundamente, porque será?
Soa demasiado estúpido continuar a dalar como se fosse possível realmente chegar a ti, mas é bom pensar que chega, é bom ter essa ilusão e sabe inacreditavelmente bem continuar a falar como se estivesses mesmo a ouvir, é como destruir um muro num beco sem saída mesmo sabendo que o que vamos encontraré outro beco sem saída.
É demasiado bom pensar que afinal ainda me posso despedir de ti, compensar as vezes que ainda te queria ter dito que te adorava acima de qualquer coisa deste mundo, que tenho vontade de te abraçar agora, de comer a tua sopa e gozar com as tuas novelas. A vontade de fazer tudo isso uma só vez acelera-me o coração e as palavras aceleram com ele, sem as conseguir escrever a tempo. Numa vida onde tudo é possivel se fizermos MESMO por isso , a única coisa irreversível, é o seu fim.
A única coisa irreversível na minha vida é o tempo, a única coisa irreversível na minha vida és tu. Tanto que a única forma de o reverter é pensar em momentos de ilusão (deve ser a melhor sensação do mundo) que o consigo fazer. Fechar os olhos e imaginar-me a tocar à campainha, ouvir a tua voz cansada a perguntar quem é e eu responder "sou eu vó" já automaticamente, e tambem automaticamente esperar um século até me abrires a porta, sentir os meus joelhos, automaticamente a apressarem-se enquanto subiam a escadaria a correr e a acordar o prédio inteiro e já nem reparar no cagarim que fazia. Depois era o abraço forte mas automático, o sorriso significativo mas automático, o bem estar imediato ao pensar nisso, a segurança de te ter cá e a falsa consciência de que um dia podias de facto, deixar de estar.
À medida que o tempo passa identifico-me em algumas coisas qe me dizias e eu até pensava que entendia mas não entendia, lembro-me de mais conversas que devia ter tido, de mais coisas que podia ter feito. A tua importância na minha vida não é menor agora, é maior.
Oh avó, não estou zangada, fizeste o que querias, passas-te definitivamente para o mundo ds sonho onde sempre viveste porque não conseguias passá-lo para realidade, foste esmagada como todos somos. Era a única forma gratuíta de o fazeres, seria bem mais custoso encher a tua vida de outras mudanças, não terias tempo para tudo então resolveste-te pelo nada, e não ias estar cá sequer para veres as pessoas que gostavam de ti a sofrerem. Ensinaste-me que há sempre tempo para tudo, que não exite tempo perdido, só ganho, e até mesmo o tempo em que não se faz nada é ganho.
Até mesmo quando se morre o tempo é ganho, é tempo em que ensinamos algo nós ou aos outros.
Mas às vezes, continuo a querer ter-te dado um último abraço. Podias-me ter dito que querias morrer avó, eu ía respeitar isso, sabes que ía. Só espero que tenhas tempo agora, já que viveste 87 anos em que nem tiveste tempo para ser feliz, compensa agora, ou eu faço-o em meu nome e no teu tambem, em nosso nome, e em nome de todos os que gosto. Era o que devias ter feito, e talvez eu te pudesse ter ensinado isso, talvez eu pudesse ter feito mais. Mas não fiz nem tu, e não gosto menos de ti por isso, espero que também não gostes menos de mim.
Com muito amor,
neta

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