"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Hushabye Mountain



"Se os sonhos fossem cavalos, os mendigos seriam todos cavaleiros."

Não nego, que as pessoas entram na nossa vida por acaso, mas nunca é por acaso que permanecem na nossa cabeça.
Não é raro haver mendigos na rua nem é raro não os ver-mos. Eu vejo-os bem, decoro-os, e faço colecção dos seus olhares.
Sempre gostei de fazer coleção de olhares, mas os dos mendigos são os mais intensos, são aqueles que chamam por nós, que só não querem ser invisíveis.
Acho que não devo ser a única pessoa no mundo que de vez em quando tem vontade de partir sem nada, sem o "ter" e só com o "ser", vivendo apenas daquilo que a vida e os outros me quiserem dar e acharem que mereço, e do que sou.
Os mendigos sabem muito mais do que qualquer um de nós, e mesmo esfomeados, quase acredito que sejam mais felizes. Nem sentem a fome porque se alimentam de sonhos, de imaginação, e sobretudo, de esperança.
Ao contrário de nós que percorremos a vida sempre à procura do que pode ser diferente, em busca do que não está bem, mudamos tudo à nossa volta, transforma-mos e melhoramos tudo à nossa volta, o nosso cabelo, as nossas relações, a nossa vida, sem nunca nos mudarmos a nós.
Os mendigos são bem diferentes. Os mendigos já não reparam que não têm nada e como não sabem quando vão ter e não podem fazer nada quanto a isso aceitam-no e limitam-se a aproveitar ao máximo tudo o que podem ter. Um mendigo não tem nada a perder, um mendigo não vê defeitos ou imperfeições em ninguém, nem teme aproximar-se de ninguém. Qualquer ser humano que lhe aproxime as já tão distantes noções de amigo, lar, família, laços, é recebido de braços abertos, e apenas por ser um ser humano, por ser seu igual, mesmo que não o saiba, mesmo que se recuse a saber.
Às vezes sinto-me mendiga de alma. Por um lado tenho sede e fome de muita coisa, por outro isso não me faz infeliz, aproveito e amo o que tenho e o que me aparece à frente. Para mim os defeitos só existem nos olhos de quem os quer ver e decide chamar-lhes defeitos, eu chamo-lhe características, que fazem a pessoa autêntica e diferente de todas as outras, capaz de nos dar e ensinar algo diferente de todas as outras, se nós o quisermos ver, se nós olharmos para elas com os olhos de um mendigo esfomeado, mesmo que tenhamos a barriga cheia. Não existem vidas com mais valor que outras, e o valor está também só nos olhos de quem o vê, só que normalmente limitamo-nos a dar valor àquilo que nos foi ensinado como valioso. Não temos os próprios valores, regimo-nos pelos valores da sociedade e dos que nos rodeiam.
Ele, o mendigo, tem tudo o que deseja dentro de si, de resto só tem de continuar vivo, para viver num sitio bem longe, onde nunca nenhum de nós terá a capacidade de alcançar.
A gentle breeze from Hushabye Mountain
Softly blows o'er lullaby bay.
It fills the sails of boats that are waiting
Waiting to sail your worries away.
It isn't far to Hushabye Mountain
And your boat waits down by the key.
The winds of night so softly are sighing
Soon they will fly your troubles to sea.
So close your eyes on Hushabye Mountain.
Wave good-bye to cares of the day.
And watch your boat from Hushabye Mountain
Sail far away from lullaby bay.

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