"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A rapariga do elevador


"Nunca andes pelos caminhos traçados, eles conduzir-te-ão apenas até onde os outros já foram." Alexandre Graham Bell


Olhei-te nos olhos, como nunca olhei antes. Procurei nos teus olhos algo que me dissese quem eras, e como eras, se nunca te tivesse visto antes. Tens olhos verdes, intensos, alguma maquilhagem já um pouco esborratada, sinceramente gosto dela assim. Sorri e inevitávelmente sorriste-me de volta. Pelo teu olhar percebi que nunca ninguém, até ao fim da tua vida, ia decifrar o teu olhar como eu faço. Menina desfeita, eu desfiz-te, mas estou aqui.

Disse para a rapariga do espelho, que estava comigo no elevador e me comtenplava, antes do elevador parar e eu ter de sair para a rua. Lancei um olhar mais superficial ao espelho, não olhei mais para os olhos, sacudi o cabelo e compus o lenço cinzento. Saí do elevador e lancei um último olhar de despedida que me foi retribuido. Confia em mim, disse em telepatia para a rapariga do elevador.
Gosto quando as luzes alaranjadas da avenida me envolvem no silêncio inevitável da noite, por muito que gritem à minha volta. Gosto de seguir a noite, onde se conseguem ouvir os próprios passos e onde o tempo se parece alongar até ao amanhecer mais lentamente do que nunca. É por isso que gosto da noite mas adio a hora de ir dormir, porque à noite não se perde tempo, à noite não se perdem sonhos, à noite não há nada a perder e não se perde nada.
Ía dar a voltinha do costume, até à praça, conversar um bocadinho, voltar para casa, mas sentei-me à entrada do meu prédio a observar quem passava e perguntei-me se me estariam a observar a mim da mesma forma, a procurar a sua história, o percurso e e o algo a ensinar de cada um, a perguntar-me como seria viver dentro de cada pessoa que passava.
Sente-se, conte-me a sua história.
Pensei, e desejei, desejei que o mundo abrisse o seu livro gigante de histórias para mim. Folheei as páginas da minha história, e a da rapariga do espelho, que mantenho trancada no elevador, que não liberto de um cubículo minúsculo dentro de mim mesma. Perguntei-me porque é que me dói ao vê-la, porque é que me dói ao tocar-lhe. Perguntei-me porque é que nunca lhe conto quando os outros dizem que ela é bonita, que ela é fantástica, ou mesmo quando dizem que a amam. Ela não acreditaria, nem eu acredito. Ultimamente continuo a mantê-la presa em elevadores e quartos, até que ela mude. Não aceito aquela rapariga desajeitada, feia, chego a achá-la gorda, mesmo quando todos à minha volta o negam, só eu sei o quão feia ela é, mais ninguem sabe, mais ninguém lhe decifra o olhar como eu, mais ninguém a conhece, ninguém sabe do pouco valor que resta dela
Senti-me um monstro quando estas palavras ecoaram na minha cabeça. Sou budista, e a única prática de fé é a compaixão, sendo o único pecado a mentira. Voltei àquele elevador e com o olhar pedi desculpa àquela rapariga, sem dizer um palavra, ela aceitou as desculpas e percebeu o meu pedido.
senta-te, conta-me a tua história
Era o meu pedido. Sem dizer uma palavra, ela obedeceu. Contou-me que tinha muitas histórias com muitas pessoas, mostrou-me as suas feridas. Feridas que eu ajudei a cicatrizar. Feridas feitas em combates nos quais eu já não a deixava entrar. Feridas que contavam a sua história só por si. E confessou que tinha medo, medo de que eu não lhe deixasse ter mais feridas nem mais histórias.

Sussurou-me baixinho, ao ouvido: Por favor, autoriza-me a cair, mezmo que só faça mais uma ferida, só quero ter mais uma história para te contar.

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