
No fundo, ele acreditava que ela ouvia todos os seus pensamentos, mesmo que não os entendesse, mesmo que não os ouvisse de todo, ele gostava de pensar que sim e isso fazia-o feliz, mais feliz do que nunca. Acordava sempre antes dela e adormecia sempre depois, gostava de a ver a dormir, gostava de sentir a paz da sua respiração e a beleza da simplicidade da mulher que dormia ao seu lado, com os cabelos louros soltos e despenteados, sem maquilhagem. Gostava de a ver dormir, gostava muito. Sabia que ela não sabia como ele, ele sabia mas não queria que ela soubesse. Então gostava de acreditar, enquanto a via dormir, que ela sabia, porque não havia nada que lhe dissesse o contrário enquanto ela estivesse a dormir. Às vezes, enquanto a via adormecer ou acordar, sussurrava-lhe em pensamento:
"Vá lá, o dia já nasceu. Abre os olhos devagar, depois levanta-te mas deixa o teu corpo dormir mais um bocado, com ele, deixa a tua vida também, os teus problemas do dia a dia, os teus planos. Sacode o cabel e começa a arrumar a casa: as tuas emoções, pensamentos, memórias, ideias, sonhos e experiências, até ficares só tu e o mundo, e poderes conhecer tudo o que eu também conheci. Deixa-me eu mostrar-te o que conheço, deixa-me eu mostrar-te o que sei porqe quando acordares eu não o vou conseguir fazer. Até podes fechar os olhos e ser quem quiseres e eu também o faço. Olhar para a nossa vida como se fossemos um deus e para a que nos rodeia. E se olhares para tudo o que tens como se já tivesses morrido, e tudo o que ainda poderás vir a ter como se tivesses acabado de nascer vais ter tudo o que precisas, e tudo o que precisas chega, e o que chega é suficiente e bom. Por isso meu amor, não acordes, dorme e sonha."
Depois, ele beijava-a suavemente na testa, e adormecia, era como a sua reza diária, o seu ritual, o seu banho de esperança matinal e nocturna, o seu diário. Ele era feliz, e ela tambem, imensamente.

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