"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Bom dia



No fundo, ele acreditava que ela ouvia todos os seus pensamentos, mesmo que não os entendesse, mesmo que não os ouvisse de todo, ele gostava de pensar que sim e isso fazia-o feliz, mais feliz do que nunca. Acordava sempre antes dela e adormecia sempre depois, gostava de a ver a dormir, gostava de sentir a paz da sua respiração e a beleza da simplicidade da mulher que dormia ao seu lado, com os cabelos louros soltos e despenteados, sem maquilhagem. Gostava de a ver dormir, gostava muito. Sabia que ela não sabia como ele, ele sabia mas não queria que ela soubesse. Então gostava de acreditar, enquanto a via dormir, que ela sabia, porque não havia nada que lhe dissesse o contrário enquanto ela estivesse a dormir. Às vezes, enquanto a via adormecer ou acordar, sussurrava-lhe em pensamento:
"Vá lá, o dia já nasceu. Abre os olhos devagar, depois levanta-te mas deixa o teu corpo dormir mais um bocado, com ele, deixa a tua vida também, os teus problemas do dia a dia, os teus planos. Sacode o cabel e começa a arrumar a casa: as tuas emoções, pensamentos, memórias, ideias, sonhos e experiências, até ficares só tu e o mundo, e poderes conhecer tudo o que eu também conheci. Deixa-me eu mostrar-te o que conheço, deixa-me eu mostrar-te o que sei porqe quando acordares eu não o vou conseguir fazer. Até podes fechar os olhos e ser quem quiseres e eu também o faço. Olhar para a nossa vida como se fossemos um deus e para a que nos rodeia. E se olhares para tudo o que tens como se já tivesses morrido, e tudo o que ainda poderás vir a ter como se tivesses acabado de nascer vais ter tudo o que precisas, e tudo o que precisas chega, e o que chega é suficiente e bom. Por isso meu amor, não acordes, dorme e sonha."

Depois, ele beijava-a suavemente na testa, e adormecia, era como a sua reza diária, o seu ritual, o seu banho de esperança matinal e nocturna, o seu diário. Ele era feliz, e ela tambem, imensamente.

Sem comentários:

Enviar um comentário