"Ser é Escolher-se" Jean Paul Sartre

Não sei se criei este blog para me fazer entender ou apenas para ter algo que me obrigue a terminar os textos que começo. Fico a meio caminho de tudo, mas ao menos, conheço os caminhos que posso seguir se quiser.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O meu piano

"Music is how the feelings sound like"



Abri a porta da sala e o que senti foi magia porque magia, afinal, é o que chamamos às coisas quando as estranhamos e quando não fazemos ideia do que são. Olhei a luz alaranjada do sol a pôr-se a trespassar os cortinados e a refletir o verde das plantas, olhei a forma como as margaridas ficavam bem em cima da mesa castanho escuro, mas principalmente e inevitávelmente, olhei-te, imponente, preto, brilhante, chamativo. Como me esqueço de que fazes parte do que sou e já ocupaste horas do meu dia a dia?

Nunca nenhum objecto teve tanto significado, disso estou certa.

Passei as mãos pelas tuas teclas, acariciando-as pelo toque e pelo olhar e lembrando-me das lágrimas que já foram derramadas nelas, pela raiva que ali, sentada ao piano já consegui sentir quando não conseguia tocar como queria, quando não me entendeste, quando te opunhas a mim.

Em tempos foste tudo, meu refúgio, minha fortaleza, o meu megafone, o meu caderno, o meu amigo, o meu inimigo, o meu amor, o meu pai (ou a memória dele, foi a única coisa que me deixaste tua, será bom?).

Olhei desesperada à minha volta e não me deixaste outra escolha senão render-me a ti e correr para o teu enlace. Sentei-me no banco e os dedos falaram por mim, toquei como já não tocava há muito tempo, gritei ao mundo cada emoção pela boca de cada nota, juntos transformámos a magia latente no mundo numa música que costumo tocar, mas nunca a senti assim, tu sabes que não, tu estiveste lá. Eu não toquei, eu encarnei, eu representei. Eu fui pianista As palavras da minha antiga professora ecoavam-me na cabeça ao som da melodia "não podes saltar notas e fingir que elas não existem, tens de acarinhar cada uma, tocar cada uma com a intensidade e significado que lhe pertence, presta atenção, toca a música, não o intrumento"

Nunca me esqueci, lembro-me cada dia que passa, regulamente. Tenho saudades, de chegar ao conservatório naquelas manhãs de setembro, correr para a sala livre, atirar com a mochila às bolinhas para cima da cadeira e sentar-me ao piano, tocar horas a fio quer me apetecesse que não. Ali falava, ali pensava, ali estava eu e comigo. Eu e o piano, eu e a música, eu e o meu mundo. Os calções brancos mostravam o bronzeado e o espelho colocado em no lado direito da sala mostrava a silhueta e postura, embelezados em contra-luz pelo brilho do sol nascente. Era a única altura do dia em que gostava de me ver ao espelho, quem sabe a única altura em que gostava de ser eu.

Mais palavras da minha professora metralhavam o meu pensamento: "Tens o que é preciso para vires a ser a melhor pianista do país e, quem sabe, do mundo. É só quereres."- Eu não quis nem quero, mas por não ser a melhor, não tinha de desistir de o ser, não tinha de desistir de ti. Desculpa, ainda vamos a tempo?

Transformas a magia em melodia, sentimentos em energia, transformas nada em alguma coisa. Esta música ligou-me a ti, fez-me regressar a ti depois de pensar que não passavas de uma perda de tempo, tenho saudades de que faças parte dos meus dias (e também tenho saudades tuas, pai).

“Take a music bath once or twice a week for a few seasons. You will find it is to the soul what a water bath is to the body, it washes away from the soul the dust of everyday life.”


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